A máquina fotográfica digital Kodak V570, um dos maiores destaques da feira Consumer Electronics Show, realizada em janeiro em Las Vegas, trouxe uma novidade radical: tem duas lentes. A vantagem disso é que o plano focal da nova Kodak, que foi testada em primeira mão pela reportagem, vai de 23 a 117 mm, ou seja, em tese ela consegue tirar fotos mais amplas (como as câmeras com lente grande-angular) e também tem, segundo a Kodak, um zoom óptico potente, de 5x – bem acima do padrão de mercado nas câmeras compactas, que é 3x. E a V570 é ultracompacta: medindo 10x5x2 cm, tem metade da espessura de uma máquina comum.

Cada uma das lentes tem seu próprio sensor de imagem (a V570 atinge resolução real de 2.576×1.932 pontos, o que dá aproximadamente 4,97 megapixels) e a mudança entre elas é automática – você não percebe, exceto por uma indicação no visor que está trocando de lente.

Tecnologicamente, o sistema de duas lentes (dual lens) é ousado e intrigante. Na prática, existe um porém: em certos momentos, o zoom da V570 não é óptico. Os primeiros 2x de zoom são digitais, ou seja, a câmera recorta um pedaço da imagem e o amplia, o que acarreta perda de resolução.

Isso significa que, até passar para a segunda lente, a perda de resolução real chega a até 50%. É como se, quando está operando a 2x de zoom, a Kodak fotografasse com apenas 2,5 megapixels.

Quando você passa dos 2x de aproximação e, com isso, aciona automaticamente a segunda lente, que tem zoom óptico, a resolução real volta para 4,97 megapixels. Quer dizer: para garantir qualidade total nas suas fotos, você é obrigado a desligar manualmente a aproximação digital da V570, o que gera um efeito colateral bizarro – quando você aciona o zoom, o enquadramento das fotos dá um pulo (isso acontece porque, sem a muleta do zoom digital, a câmera vai direto para a segunda lente saltando de 0x para 3x de aproximação). A Kodak admite o problema, mas se defende dizendo que "nenhuma lente grande-angular tem zoom óptico".

Quando você está fotografando sem zoom nenhum, a lente grande-angular torna mais fácil tirar retratos, ou seja, você pode chegar mais perto das pessoas e mesmo assim enquadrar todo mundo. Mas o benefício é sutil – com uma câmera comum, basta que o fotógrafo dê um passo atrás para obter praticamente o mesmo resultado.

Já o modo panorâmico é um ótimo diferencial: você tira três fotos em seqüência (da esquerda para a direita, ou vice-versa), e a V570 funde automaticamente as imagens numa só.

Nos testes, ficou provado que as imagens captadas com a segunda lente são ligeiramente mais escuras que aquelas registradas com a lente grande-angular. Essa variação é normal – as lentes com zoom óptico sempre deixam passar menos luz -, mas a câmera poderia fazer uma compensação automática.

Nos demais aspectos, a V570 é satisfatória. Ela é fácil de usar, liga depressa (2 segundos) e capta, no modo Burst, até quatro imagens seqüenciais – algo útil ao fotografar esportes ou crianças correndo, por exemplo. O flash é minúsculo, mas suficiente para fotografar coisas a até 2 metros de distância.

A câmera vem com uma base de conexão (docking station) cujo uso é obrigatório na transferência de fotos, via cabo USB, para o computador. Em viagens, você não precisa levar a base, pois é possível recarregar a bateria sem ela. A base é um pouco frágil – é preciso pontaria para encaixar a V570.

A máquina, naturalmente, também grava vídeo, e com boa resolução: 640×480 pontos, superior à dos televisores comuns. Mas, como os vídeos ocupam espaço demais, você não vai conseguir filmar muito: num cartão de memória de 512 MB (a Kodak aceita os padrões mais comuns, SD e MMC, e vem com 32 megabytes de memória embutida), não cabem nem 20 minutos de vídeo. Como a câmera adota o padrão de gravação MPEG-4, seus arquivos não deveriam ser tão grandes.

No Brasil, a nova máquina vai custar R$ 2.099 (seu lançamento está marcado para o final de fevereiro), preço similar ao de máquinas ultracompactas "tradicionais", com apenas uma lente, como a Casio Exilim.

A Kodak V570 tira ótimas fotos, com cores vibrantes e precisas – desde que você evite os primeiros 2x de zoom, ou seja fotografe a 0x ou então enquadre objetos mais distantes, forçando a máquina a usar a segunda lente. Por causa dessa inconveniência, o sistema dual lens não concretiza, ao menos na primeira geração, a revolução que prometeu.