Teatro

Peça “O Preso” transforma corrupção e fanatismo em retrato ácido do Brasil atual

Peça "O Preso" será encenada no Teatro José Maria Santos. Foto: Divulgação

A corrupção, o fanatismo e a falsa moral ganham corpo e voz no palco com “O Preso”, montagem escrita e dirigida por Jul Leardini, que estreia nova temporada no Teatro José Maria Santos, em Curitiba, nesta quarta-feira (11). O espetáculo segue em cartaz até 22 de fevereiro, sempre de quarta a domingo, às 20h, trazendo no elenco Ulisses Iarochinski , Diego Avelleda e Roberto Guedes, em atuações intensas e simbólicas.

Mais do que uma crítica, “O Preso” é um espelho incômodo da sociedade brasileira contemporânea. A peça reflete as contradições de um país onde discursos sobre moral, família, religião e patriotismo convivem, e frequentemente se misturam, com corrupção, cobiça e violência.

O protagonista, Cabrálio Balaústra, é a síntese do político brasileiro típico das últimas décadas. Patriota, religioso, defensor da família, da propriedade e da liberdade – mas igualmente ganancioso, corrupto e violento. Preso por corrupção, Cabrálio mergulha em um processo de degradação moral e humana: a família se desagrega, os amigos desaparecem, e os antigos parceiros passam a explorá-lo, exigindo propinas e favores mesmo atrás das grades.

No entanto, o poder não o abandona. Dentro da prisão, Cabrálio mantém privilégios e regalias, sustentadas pela corrupção que move o próprio sistema carcerário.

“O personagem é resultado de um caldeirão que mistura política, religião, moralidade e crime. Ele não é uma caricatura isolada, mas um reflexo de muitos nomes, rostos e discursos que marcaram o país nas últimas décadas”, explica o diretor Jul Leardini.

O dramaturgo destaca que o texto não busca retratar uma figura específica, mas sim uma estrutura de poder entranhada na cultura política brasileira.

“Cabrálio representa uma engrenagem que não para. Ele é o produto e o produtor de uma lógica corrompida que já faz parte da nossa normalidade. O público vai se reconhecer – não necessariamente no político, mas no sistema que o mantém”, afirma Leardini.

Teatro como espelho e denúncia

Com cenografia e sonoplastia também assinadas por Leardini, o espetáculo aposta na fusão entre teatro, imagem e som para criar uma experiência sensorial intensa. A encenação é marcada por um ritmo cinematográfico, em que os espaços se transformam – cela, palanque, templo e tribunal se confundem, revelando a sobreposição entre fé, poder e impunidade.

A iluminação de Beto Bruel – com releitura de Madu Teixeira – conduz o olhar do espectador pelos contrastes da narrativa – entre o brilho do poder e a penumbra da culpa – enquanto as músicas compostas por Leardini e os arranjos de Adriano Sátiro reforçam a atmosfera crítica e irônica da trama.

“O teatro tem a função de provocar. De incomodar. Não queremos que o público saia confortável. Queremos que saia pensando, rindo nervosamente, reconhecendo no palco o absurdo que virou cotidiano”, diz o diretor.

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Com humor corrosivo, sarcasmo e poesia, “O Preso” questiona a cumplicidade social que sustenta a corrupção, apontando o dedo não apenas para o político, mas para uma cultura de idolatria e fanatismo.

“O preso não é só o político, somos nós. Somos os cúmplices, os cegos convenientes, os que elegem, os que perdoam, os que esquecem. A prisão, na peça, é também simbólica: a prisão das ideias, das crenças e das mentiras que escolhemos acreditar”, completa Leardini.

Produzida pela ÊXEDRA Pesquisa e Experimentação Teatral, a montagem reafirma o compromisso do grupo com um teatro de reflexão política, estética apurada e engajamento social.

“O Preso” é, antes de tudo, uma convocação à consciência crítica
“Vivemos tempos em que se confundem fé e ideologia, moral e poder, religião e mercado. Essa peça não traz respostas, mas tenta abrir fissuras. É um convite para que o público olhe de frente o que preferimos ignorar”, resume o diretor.

O Preso tem classificação indicativa de 16 anos. O Teatro José Maria Santos fica na Rua 13 de Maio, 655, Centro, Curitiba. A peça será encenada entre os dias 11 a 22 de fevereiro (quarta a domingo), às 20h. Os ingressos estão à venda a partir de R$ 20,34 pelo Disk Ingressos.

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