O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não se cansa de louvar as virtudes da menina dos olhos da atualidade – a expansão da produção de etanol – aproveitando todas as oportunidades para se referir ao projeto como uma das mais notáveis metas do governo. Na visão de Lula, a produção de etanol é a estratégia definitiva para equilibrar a matriz energética e nisso tem o apoio irrestrito de George W. Bush.

Há algumas semanas, para definir a importância que todos nós devemos atribuir aos empresários do setor sucroalcooleiro, o presidente afirmou sem meias palavras que ?os usineiros de cana, que há dez anos eram tidos como se fossem os bandidos do agronegócio neste país, estão virando heróis nacionais e mundiais, porque todo mundo está de olho no álcool?.

Na retórica tardia do presidente da República, houve também espaço para a ratificação de algo que nem toda a sociedade está à altura de compreender com perfeição. Ampliando sua digressão, Lula acrescentou que a relevância dos produtores de álcool decorre da execução de políticas sérias, direcionadas à conquista do mercado externo.

É possível tergiversar que os informantes do presidente omitiram um pormenor de extremo significado, conforme assinalou, essa semana, a jornalista Maria Inês Nassif, editora de Opinião do jornal Valor Econômico: ?Menos, presidente. Muito menos?.

Para refrescar a memória do chefe do governo, Maria Inês simplesmente resgatou a péssima imagem administrativa dos novos heróis do panteão nacional. Por exemplo, em Pernambuco, segundo o integrante da direção estadual do MST, Alexandre Conceição, os donos de usinas e destilarias devem ao INSS a insignificância de R$ 562 bilhões.

Não é preciso citar a experiência acumulada pelo presidente da República nas lides sindicalistas, asseverou Maria Inês, para concluir que sua excelência sabe melhor que ninguém que o monumental passivo previdenciário, restrito apenas àquele Estado, se deveu a práticas fraudulentas no encaminhamento das relações trabalhistas.

Outro exemplo atroz: em Ribeirão Preto, maior produtor de cana do País, os bóias-frias são submetidos a um regime de trabalho mais repulsivo que a escravatura, cortando 10 toneladas de cana por dia. E jamais foram chamados de heróis…