Geraldo Almeida (UFPR/FAO)

A professora Eliana Yunes já disse que o ato de ler é um ato de sensibilidade e de inteligência, de comunhão com o mundo. De posse dessa colocação, podemos expandir o pensamento de Yunes e compreender que o ato de leitura é um momento, por assim dizer, mágico. Há uma confluência tão majestosa de imagens que se formam, de lembranças que se desencadeiam, de inspirações que se emolduram, que ler poderia ser verdadeiramente o sublime momento do eu.

Puxando mais uma vez a história da leitura, percebemos que ler deixou de ser uma atividade exclusiva do homem somente em meados do século XIX, pois foi naquele momento que as mulheres ganharam acesso ao aprendizado. Gustave Flaubert ironiza a ingenuidade de Madame Bovary, que presume ser o mundo semelhante à literatura romântica que passou a juventude a ler, deixando um importante documento histórico a respeito de tais fatos.

No final dos anos 1960, a estética da recepção tentava dar uma resposta aos fatos ligados à cultura de massa. Daí surgiram as provocações no sentido de justapor sujeito-livro-leitura. O leitor deixava de ser passivo e passava a ser visto como parte integrante do ato de ler. Essa entrada, no nível do diálogo acadêmico, considerando o leitor agora como parte da obra, tinha também o leitor como sujeito capaz de estruturar, entrar, preencher possíveis espaços do texto, visão inovadora entre as teorias da leitura.

Pode se considerar a aula inaugural de Hans Robert Jauss, de 13 de abril de 1967, intitulada A história da literatura como provocação literária, um marco dessa corrente. Tal movimento procurou substituir a visão historicista por outra mais fenomenológica, existencialista ou vivencial. Eles queriam realmente privilegiar a relação autor-obra-leitor porque consideravam que nela existiam elementos importantes para elucidar, ou até mesmo, polinizar as discussões em torno do ato de ler e dos ?produtos? que surgiriam daí.

Sendo assim, a estética da recepção se volta, portanto, para os aspectos mais ideológicos que envolvem a recepção social do texto literário e também das outras manifestações artísticas e culturais, ou ainda, das diversas manifestações dos meios de comunicação de massa. Será possível, por exemplo, compreender os espaços vazios dos textos e os seus horizontes de expectativas, reler aspectos da comunicação ou da arte e mostrar em que medida a recepção dos textos, pelo leitor, contribuiu para sua reelaboração. É a utilização do sincrônico e do anacrônico para dar conta de uma análise, de uma interpretação. É a confluência para a elaboração do novo olhar sobre o texto. Segundo Jauss ?a estética deveria emancipar o homem frente as restrições que lhe são impostas pela natureza, pela religião e pela sociedade?.

Vemos se esboçar, sob a escrita de Jauss, uma espécie de teoria para a literatura comparada, conforme afirma Luiza Lobo em Estética da recepção e Literatura comparada (Anais do I Congresso Internacional da Faculdade de Letras da UFRJ, 1989). Sua relação diacrônica de história particular e de produção literária, relacionada com a história geral, mas também a sincrônica nas comparações, servem para as análises dos textos que agora tomamos. Elas podem ainda edificar uma postura mais polivalente, multidirecional, aberta à flexibilidade e sujeita a mutabilidade do objeto literário uma vez que suas margens ainda se desenham.

Para Jauss a história da literatura só acontece quando se integra a ela a experiência cotidiana do leitor, e, inversamente, quando a experiência literária deste modifica seu comportamento social. E ele acrescenta mais ?A literatura não pode ser uma arte de representação. Ela deseja resgatar a dimensão social da literatura ao lado das outras artes, como agente de derrubada de paradigmas e de outras formas sociais de dominação?.

Esta nova concepção de leitura pode provocar um certo desconforto, pois ela se apresenta um tanto opaca, mas é desta tensão, entre o que é disforme com aquilo que se estrutura por ora, que surgirão perguntas, proporcionando também uma renovada percepção do mundo. A obra artística vista por essa ótica não seria aquela que se vê taciturna, sem atuação. Pelo contrário, ela elaboraria uma vivência sempre em jogo, em mutação, em curso.

Realmente, a proposta de Jauss contém aspectos fenomenológicos, históricos e psicológicos que, além de avançarem em termos de discussão literária, ainda incorporam outros corpus, correntes críticas para a análise absolutamente elucidativa. A principal ressalva que se faz à teoria de Jauss consiste em sua característica de produção retórica, ao invés de fornecer um bom aparato para o trabalho adequado de interpretação de texto.

Vivendo este momento de tantas teorias, vale a pena buscar, nas mesmas, razões para uma mudança de postura ou reforço de convicções.