São Paulo – Promotores que há mais de dois anos investigam a morte do prefeito de Santo André, Celso Daniel, entregaram ontem ao procurador geral de Justiça de São Paulo, Rodrigo Pinho, documentos que comprovariam o envolvimento do deputado estadual do PT, Donisete Braga, no assassinato. O procurador encaminhará a representação ao Tribunal de Justiça para abertura de inquérito policial. Também deverá ser pedida a quebra dos sigilos bancário e telefônico do deputado.

“Os documentos que recebi hoje (ontem) mostram indícios suficientes para abrir uma investigação sobre o suposto envolvimento do deputado no crime. Podemos também pedir a quebra dos sigilos telefônico e bancário”, disse Pinho, que evitou polemizar sobre as críticas de dirigentes do PT de que o Ministério Público estaria fazendo uso político do caso.

“Não há partidarização. Estamos trabalhando com isenção e cumprindo exigências da lei”, disse.

Com base em informações prestadas por uma operadora de telefonia, os promotores acreditam ter fortes indícios de que Braga estava na região de Embu, região metropolitana para onde Daniel foi levado depois de seqüestrado, em 18 de janeiro de 2002. No dia 19, a antena de telefonia móvel da operadora na região captou de 15 a 20 ligações no telefone celular do deputado. Todas aconteceram entre 22h18 e 23h41 daquele dia. Braga, no entanto, afirmou em depoimento oficial que naquela data esteve reunido com o governador Geraldo Alckmin, no Palácio dos Bandeirantes.

“São muitos os indícios de que o deputado pode estar envolvido no crime. Além dos telefonemas, o fato de ele estar na região onde fica o cativeiro e a casa de alguns dos seqüestradores o tornam suspeito”, disse o promotor Roberto Wider Filho, ao lado do colega José Rinaldo .

A assessoria do Palácio confirmou o encontro do deputado com Alckmin, mas a operadora considera “praticamente nula” a possibilidade das ligações feitas pelo deputado no Morumbi, onde fica a sede do governo paulista, terem sido captadas em Embu. O último registro de um telefonema feito pelo deputado na região do Morumbi foi às 21h03. Pouco mais de uma hora depois, o telefone celular do deputado passou a ser captado exclusivamente pelas antenas de Embu.

Um rastreamento indica que Braga ligou ainda para o empresário Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, à 1h26 do dia 20. Sombra, preso desde dezembro do ano passado, é acusado de ser o mandante do crime. Ao quebrar o sigilo bancário do empresário, os promotores verificaram que o deputado recebeu dinheiro de Sombra. Em 1999, três cheques no valor de R$ 4 mil cada foram depositados por Sombra na conta do deputado.

Ainda segundo os promotores, o deputado também teria telefonado naquela mesma noite para o empresário Ronan Maria Pinto, ex-sócio de Sombra em empresas de transporte público. Os dois são acusados de participar de um esquema de extorsão na cidade contra donos de empresas de ônibus. O dinheiro arrecadado serviria para abastecer as campanhas eleitorais do PT.

Por telefone, no início da tarde, Donisete Braga disse que não comentaria o assunto porque não havia sido notificado oficialmente. “Eu não tenho o que responder”, disse.