Chuvas acima da média, vendavais e quedas de árvores têm marcado o início da primavera no Paraná. Até 12 de outubro, 16 cidades já haviam superado o volume de precipitação esperado para o mês inteiro, segundo o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar).
Com a perspectiva de novos temporais, especialistas apontam a influência do El Niño — fenômeno climático global que atinge intensidade máxima entre novembro e dezembro —, e alertam para os efeitos da urbanização sobre os estragos provocados pela chuva.
O levantamento do Simepar mostra que, entre os dias 1º e 12 de outubro, Curitiba acumulou 174,2 milímetros (mm) de chuva, superando a média mensal de 162 mm. No Oeste, Foz do Iguaçu estava com acumulado de 372,4 mm. A média histórica para a cidade neste mês é de 262,2 mm. No Noroeste do Paraná, Loanda alcançou 258,2 mm de chuva, acima da média mensal de 174,3 mm. Cidades como Ponta Grossa, Cascavel, Paranavaí, Telêmaco Borba e Capanema também já passaram do previsto para o mês inteiro.
Além do volume expressivo, vendavais e tempestades severas estão provocando estragos recorrentes no Paraná, que vão desde estradas alagadas até interrupção no fornecimento de energia elétrica por horas.
A influência direta do El Niño
Segundo o meteorologista do Simepar, Marco Jusevicius, a severidade dos temporais observada desde o inverno é um reflexo direto do cenário climático global. “Essa condição mais severa de temporais frequentes é um dos sinais do El Niño para nós. Ele atua junto com os sistemas meteorológicos, como frentes e linhas de instabilidade, ajudando a manter essa severidade no estado do Paraná”, explica.
O meteorologista ressalta que a previsão climática aponta que o índice de intensidade do fenômeno atinge o ápice entre novembro e dezembro, mantendo influência no clima global pelo menos até o primeiro trimestre de 2027. Ou seja, para os próximos meses há a tendência de continuar o registro de temporais intensos.
“Isso está alinhado com o cenário climático que já vinha sendo desenhado no início do ano e que depois foi sendo confirmado com as atualizações das previsões. Estamos efetivamente no El Niño, os sistemas estão atuando sob influência dele e isso vai ser o ponto de atenção nos próximos meses para o Paraná. A primavera é uma estação de transição, em que normalmente se espera atividade mais significativa de tempestades severas”, destaca.
Em relação à distribuição geográfica, o meteorologista aponta que o padrão de ocorrência segue a normalidade climatológica regional: regiões como o Oeste e o Sudoeste continuam apresentando maior frequência e intensidade de tempestades devido à chegada energética dos sistemas, enquanto a área Leste registra eventos com menor recorrência.
O fator urbano: impermeabilização e os riscos do modelo atual
Para o professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Pedro Augusto Breda Fontão, embora chuvas fortes façam parte do histórico paranaense, com registros desde o final do século XIX, os impactos recentes mostram um problema estrutural: o modelo de urbanização das cidades.
Fontão relata que a concentração de um maior número de pessoas em áreas urbanas e a substituição de terrenos com gramados e jardins por concreto e asfalto reduzem as rotas de infiltração da água da chuva, canalizando o fluxo diretamente para os rios e pontos de alagamento.
“Durante uma tempestade forte, a evaporação é pequena e, nas cidades, a água encontra cada vez menos espaço para infiltrar no solo. Com isso, o único caminho que sobra é escoar para os rios e os pontos de alagamento. As chuvas intensas sempre ocorreram, mas o modelo de urbanização atual ajuda a provocar impactos e estragos mais frequentes”, explica Fontão.
Sobre os vendavais, ele associa ao desmatamento da floresta tropical nos últimos 100 anos. “A canalização dos ventos está ficando mais intensa no Paraná, como no interior do estado. Ao mesmo tempo, mais pessoas estão morando em locais onde antes não morava ninguém. Pode ser que no passado essas áreas já fossem afetadas por eventos fortes, mas não eram registradas porque não havia ocupação”, observa.
Como as cidades podem se preparar para os temporais?
Diante de previsões indicando um ‘Super El Niño’, Fontão divide as estratégias entre respostas de curto prazo e planejamento futuro que poderiam ser adotadas no estado.
Para o curto prazo, ele cita a importância da educação ambiental e do engajamento da população com os alertas da Defesa Civil. Para ele, orientar a população sobre como agir durante tempestades e vendavais (evitando áreas arborizadas e locais abertos) é a medida mais rápida para salvar vidas.
No campo da infraestrutura, o professor afirma que manter a limpeza e o desassoreamento de córregos e galerias durante os meses mais secos garante maior vazão no período de chuvas.
Já pensando em ações de médio e longo prazo, Fontão cita medidas como a reformulação do planejamento urbano com a adoção das chamadas “soluções baseadas na natureza”, incluindo o conceito de cidades-esponja — com o aumento de áreas verdes permeáveis —, a criação de barreiras florestais e a adaptação das redes elétricas e da construção civil.
Atuação da Defesa Civil
O coordenador executivo da Defesa Civil do Paraná, Coronel Ivan Fernandes, destaca que 95% das ocorrências de desastres no estado decorrem de questões climáticas e, por isso, reforça a importância de uma comunicação próxima com os municípios.
“Infelizmente, a gente acaba aprendendo muito depois que os eventos acontecem. O tornado em Rio Bonito do Iguaçu, por exemplo, deixou os municípios muito mais sensíveis e abertos a essa pauta”, relata Fernandes.
Ele diz que, desde março, o órgão intensificou o monitoramento e promoveu treinamentos integrados entre Defesas Civis municipais e assistências sociais, além de parcerias estratégicas com o Tribunal de Contas, que passou a incluir a estruturação da defesa civil local na prestação de contas dos prefeitos.
“A Defesa Civil, durante muito tempo, foi lembrada só pelas questões de entrega de telha e lona. Hoje nós temos o Fundo Estadual de Calamidades Públicas, com o qual financiamos obras de prevenção. Se o município tem histórico de inundação, apresentando um projeto de drenagem ou substituição de manilhas antigas por galerias de maior vazão, nossa equipe de engenharia valida e repassamos o recurso”, afirma o coronel.
Embora seja impossível prever onde e quando um vendaval vai atingir uma cidade, Fernandes diz que a Defesa Civil atua na mitigação de danos. “A Defesa Civil tem um mapeamento de inundação, alagamento e deslizamento, que são consequências da chuva. Já o vendaval é uma situação esporádica. A principal consequência é a destruição de estruturas físicas. Muitas vezes a gente tem esse problema de não ter uma poda preventiva, o que vai fazer com que aquele galho caia sobre um carro, sobre uma pessoa, sobre um telhado. Então temos trabalhado nessa visão mais ampla das consequências”, detalha.
Cultura do alerta e protocolos de proteção
Outro ponto defendido pela Defesa Civil é o fortalecimento da cultura do alerta. Fernandes conta que, embora os avisos cheguem via SMS com antecedência, episódios recentes mostram que parte da população entra em pânico ou desconhece as rotas de proteção.
Para tentar contornar esse desafio, ele diz que o estado implementou ações educativas, como as brigadas escolares, que orientam estudantes sobre emergências. Em caso de vendavais e tempestades, o coordenador da Defesa Civil explica que o protocolo orienta a permanência dentro da sala de aula, fechando janelas e cortinas e posicionando as carteiras no lado oposto aos vidros para abrigar os alunos. Nas residências, a orientação é para que a população identifique cômodos de alvenaria e com laje para se proteger durante rajadas extremas.
