A educação, como tudo no mundo, está passando por uma série de transformações. Algumas boas, outras nem tanto. Entre os pontos positivos estão os conteúdos que ganharam uma finalidade prática e o aluno sabe o porquê de aprender. Entre os negativos: o professor está tendo que ensinar também a educação informal que antigamente vinha de casa, como o uso das palavrinhas “por favor”, “com licença”. No dia do professor, hoje, duas profissionais, uma com vinte anos de magistério e outra com apenas quatro, contam como era a sala de aula na década de 80 e como a situação está em 2002.

A professora Sarai Batista Agibert começou a dar aula em 1983. Ela conta que os conteúdos hoje estão mais contextualizados e o aluno pode ver na prática o que aprende. “Toda a educação está voltada para a praticidade”, reforça. Mas lembra que os conteúdos básicos, que são pré-requisitos para outros conhecimentos, continuam valendo.

Antigamente a maior parte dos alunos já vinha de casa sabendo as normas de convívio social e tinha limites. Hoje a situação se inverteu e grande parte dos pais, principalmente os que trabalham fora, deixou essa missão para a escola. Mas a professora Sarai diz que apesar da tarefa de ter que passar as noções mais básicas da educação não é verdade que a indisciplina toma conta das escolas. “Acredito que ainda há respeito. Se não, todos os pais teriam problemas com os filhos”, considera.

Ela confirma que há casos isolados de alunos com comportamento inadequado e dá umas dicas para contornar o problema. “O aluno tem que se sentir incluído, fazendo parte da escola”, explica. Para isso, atividades extracurriculares, como a conservação do patrimônio da escola, ajudam muito.

Neste 20 anos de trabalho muitas histórias marcaram a vida da professora. Lembra de duas crianças que resolveram se matricular na escola sozinhas. Como os pais não se interessavam, Sarai mesmo ficou responsável por elas. “Quebrei a norma da escola, que exige que os pais ou responsáveis façam a matrícula, mas não podia deixar as duas de fora. Elas ficaram tempo suficiente para aprender a ler e escrever.”

Quanto ao salário, parece que é a única coisa que ela não curte na educação. Diz que antigamente a remuneração era mais condizente com as despesas. Já chegou a pensar em mudar de profissão, mas o problema é que é feliz no que faz.

Cuidados básicos

Com um salário de R$ 296,00, Carla Renata Vidal Vieira trabalha na escola pública há quatro anos. Ela também diz que já pensou várias vezes em abandonar a profissão, mas não se imagina fazendo outra coisa que não seja dar aula. Ontem mesmo, dia de recesso escolar, estava em casa corrigindo exames e elaborando aulas.

Ela também concorda com a colega mais experiente quanto à falta de participação dos pais na educação. “Para alguns alunos tive até de ensinar a cortar a unha, pentear o cabelo e a tomar banho”, conta.

MEC premia curitibana

A professora curitibana Eliane Pereira da Cruz recebe hoje em Brasília o prêmio nacional Incentivo à Educação Fundamental, concedido pelo Ministério da Educação (MEC). Ela é uma das vinte docentes, de primeira a quarta séries, que tiveram projetos pedagógicos premiados em todo o país. Ela receberá do presidente Fernando Henrique Cardoso R$ 5 mil, em uma cerimônia no Palácio do Planalto.

Eliane desenvolveu um projeto sobre educação sexual. Ela diz que estava preocupada com o número de meninas que ficam grávidas na adolescência. Para mudar a situação, resolveu começar o processo de conscientização antes desta fase, ainda na pré-adolescência. Com a sua turma de quarta série trabalhou as mudanças no corpo dos meninos e das meninas, métodos anticoncepcionais e o uso da camisinha. Também orientou os alunos de que existe o tempo certo para começar a vida sexual. “Trabalhei o sexo relacionado à afetividade”, explica.

A professora diz que seu objetivo foi alcançado, ela conseguiu fazer com que os alunos refletissem sobre o assunto. “Eles passaram a ter vontade de conversar, questionar, sem ter vergonha. Também contaram histórias de amigos e vizinhos que estavam passando pelo problema”, ressalta.

Os pais também participaram do projeto, a professora mandou diversos materiais informativos para casa para eles lerem junto com os filhos. Depois tiveram que dar um retorno por escrito para a escola.

Outras professoras do Paraná também tiveram seus trabalhos reconhecidos. Nos últimos anos, 15 professoras receberam prêmios nacionais e internacionais.