A situação é mais crítica na Vila
Zumbi dos Palmares, em Colombo.

Os moradores da Região Metropolitana de Curitiba (RMC) que tiveram suas casas alagadas passaram a manhã de ontem contabilizando os prejuízos e limpando as casas. Sofás, fogões, colchões, roupas e mantimentos tiveram de ser jogados fora. Cerca de trezentas pessoas passaram a noite em abrigos e, até o início da tarde de ontem, 75 ainda estavam desabrigadas. A situação é mais crítica na Vila Zumbi dos Palmares, em Colombo.

Na Vila Zumbi, 105 famílias passaram a noite na igreja católica do bairro. Segundo a ministra da eucaristia Maria da Luz Teixeira, a Prefeitura de Colombo levou cobertores que serviram de colchões. De manhã, com a ajuda da comunidade, foi servido café da manhã e estava sendo preparado um almoço. “A água não baixa e eles não têm nada em casa”, comenta Maria.

Zenelle dos Santos passou a noite na casa da irmã, mas foi até o abrigo pedir calçados para os filhos. Já Alessandra dos Santos, mãe de um bebê de quatro meses conta que perdeu tudo. “Forro de cama, roupas, louça”, conta. Mas ela só ia voltar para casa se o tempo melhorasse, com medo de uma nova enchente.

Simone de Oliveira Neves já tinha ido até a casa ver os estragos. A água já baixou, mas ela voltou ao abrigo. “Não tem água para limpar as coisas”, explica. A comida que tinha em casa também foi perdida. A solução era esperar ajuda. Enquanto as mães conversavam no local, muitas crianças quase sem roupas brincavam na lama suja em meio a uma garoa.

No bairro do Guaraituba, também em Colombo, o morador Joares de Lima Santana construía ontem uma pequena mureta na entrada da porta com medo de que a água voltasse a subir. Todos os vizinhos da rua tiveram as casas invadidas pela água e perderam diversos móveis. Carlos Augusto, outro morador, tem explicação para o problema. “A Prefeitura fez o asfalto em um nível muito alto. Agora, a água escorre e vai para dentro das casas”, comentou. Sheila Caleski ergueu tudo o que podia na casa. Para que o berço do bebê não fosse atingido, ela colocou tijolos embaixo para erguê-lo. “É muito triste perder tudo tão rápido”, lamentou.

Apesar de a água já ter baixado no bairro, Adriana de Fátima e o marido, Evair Borges de Lima, ainda lutavam para drenar o terreno. Abriram um buraco no muro para que a água escoasse para fora. “Mas acho que não vai adiantar muito: o bueiro está entupido”, disse.

Capital

Em Curitiba, o Bairro Alto foi um dos mais atingidos. No meio da manhã de ontem, muita gente estava colocando o que perdeu para fora de casa. Simone de Oliveira jogou fora sofás, colchões e até uma máquina de lavar roupa. “Está tudo estragado. Não sei como recuperar”, disse. Outra pilha era vista em frente à residência de Neusa Maria Leite. “Tem carpete, colchão, brinquedos e roupa. Não tem como lavar, o cheiro não sai”, lamentou.

Maria Piedade Ferreira, 73 anos, vive em uma cadeira de rodas e queria que alguém a ajudasse com cestas básicas. “Perdi toda a comida”, contou. Ela ainda estava assustada com o dia anterior, quando teve que sair carregada de casa. “A água estava quase na altura do peito. Por pouco eles não me perderam no meio da água”, lembrou.

A limpeza na casa de Avanir Ferreira dos Santos já estava quase pronta às 10h de ontem. Mas a família ainda lutava para tirar a lama de frente da casa. “A água entrou mais de 60 centímetros. Molhou tudo, dormimos no molhado”, conta. Alguns moradores ficaram desconfiados que a liberação de água de represas próximas poderiam ter causado o estrago. “Subiu muito rápido, em menos de cinco minutos”, lembrou Maria Piedade.

No Atuba, máquinas da Prefeitura estavam trabalhando para retirar a lama de uma das ruas que estava impedindo o acesso dos carros. A moradora Natália da Cruz Velozo explica que a água veio do bairro vizinho que é mais alto. O manilhamento estaria com problemas e não suportou a vazão da água. “Esse problema só vai acabar quando arrumarem a tubulação”, ponderou Natália, que não perdeu muita coisa porque ergueu os móveis. A rua em frente a sua casa ainda estava cheia de lama. Mas a sua preocupação era com o tempo que ameaçava chover de novo.

De acordo com o tenente Maurício Genero, chefe de Operações da Defesa Civil, além do Bairro Alto e do Atuba em Curitiba, os bairros do Boqueirão, Bairro Novo, Uberaba, Vila Osternack e Capão da Imbuia foram atingidos, totalizando mil casas danificadas. Em Pinhais, cerca de novecentas casas foram atingidas, e a situação mais grave foi registrada nos bairros Jardim Cláudia, Vila União, Vila Demeterco e Vila Perneta. Em Colombo, 1,5 mil casas ficaram embaixo d? água. Ainda segundo o tenente, a Defesa Civil dessas cidades estava realizando campanhas para arrecadar donativos para as famílias.

Segundo o Simepar, choveu em duas horas na região o equivalente a doze dias nesse mesmo período em anos anteriores. Voltou a chover ontem e a previsão é de mais chuva para hoje.

Morte

Um morador do bairro do Uberaba, em Curitiba, ainda não identificado, pode ter morrido por causa da enchente. O corpo foi encontrado às 2h40 de ontem pelo Corpo de Bombeiros. Ele estava deitado na lâmina de água que ainda havia em sua casa. Segundo moradores do bairro, o homem tinha cerca de 40 anos, morava sozinho, era alcoólatra e sofria de ataques epilépticos. O chefe de Operações da Defesa Civil calcula que ele deve ter morrido por volta da meia noite de sexta-feira, mas a causa da morte seria esclarecida pelo Instituto Médico-Legal.