A votação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cresceu em diferentes municípios do Paraná entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Com a disputa entre apenas dois candidatos, o presidente reeleito recebeu 511 mil votos a mais no segundo turno, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) teve um acréscimo de cerca de 346 mil votos.
Em números absolutos, Curitiba registrou o maior aumento na votação de Lula, com 92.993 votos a mais. Já entre as cidades com os maiores percentuais de votos para o petista, Rio Bonito do Iguaçu teve o maior crescimento, com 796 votos adicionais. No Paraná, Lula passou de maioria em 49 municípios no primeiro turno para 69 no segundo, um aumento de 20 cidades.
Em todo o Paraná, Flávio Bolsonaro conquistou 4.291.444 votos, o equivalente a 62,58% dos votos válidos, e terminou a disputa com uma vantagem de 1.724.940 votos sobre Lula. Segundo levantamento da plataforma brasileira de análise eleitoral Sólon Data, com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no cenário nacional, a vantagem de Flávio foi impulsionada principalmente pelas capitais regionais e pelos polos econômicos.
Curitiba foi o principal destaque nesse saldo, com uma vantagem superior a 277 mil votos para Flávio. Juntas, cinco das maiores cidades do Paraná contribuíram com mais de 600 mil votos de vantagem líquida para o candidato do PL no estado.
Onde Lula mais recebeu votos?
Na capital paranaense, Lula passou de 332.099 votos, equivalentes a 30,37% dos votos válidos no primeiro turno, para 425.092 votos, ou 37,71%, no segundo. O crescimento foi de 7,34 pontos percentuais. Em Londrina, o percentual subiu de 24,20% para 30,83%, enquanto, em Maringá, passou de 26,78% para 32,98%.
Nos municípios menores do interior do Paraná, com menos de 20 mil habitantes, Lula ampliou sua votação e, em algumas cidades, a vantagem sobre Flávio. São nesses em que Lula garantiu o maior percentual de votos locais no segundo turno.
Em Rio Bonito do Iguaçu, Lula recebeu 796 votos a mais, e sua participação passou de 59,8% para 64,2%. A cidade também registrou a maior vantagem do candidato sobre Flávio entre os municípios, com diferença de 2.543 votos. Pinhão aparece em seguida, com vantagem de 2.205 votos para Lula, seguido por Itaperuçu, com 2.120.
Confira as cidades em que Lula teve os maiores percentuais de votos no segundo turno:
| Cidade | Percentual no 2º turno | Crescimento Lula (Votos) | Var. % Lula | Crescimento Bolsonaro (Votos) | Var. % Bolsonaro | Mudança na Abstenção | Redução de Brancos/Nulos |
| Rio Bonito do Iguaçu | 64,22% para Lula | +796 | +16,1% | +261 | +8,9% | -550 ausentes | -118 votos |
| Pinhal de São Bento | 61,47% para Lula | +168 | +14,5% | +62 | +8,1% | -54 ausentes | -32 votos |
| Jardim Olinda | 61,39% para Lula | +53 | +8,5% | -2 | -0,5% | +14 ausentes | -7 votos |
| Manfrinópolis | 59,76% para Lula | +117 | +8,5% | +40 | +4,1% | +11 ausentes | -31 votos |
| Foz do Jordão | 59,11% para Lula | +29 | +1,5% | +29 | +2,2% | -17 ausentes | -41 votos |
O que explica o aumento dos votos?
Segundo o levantamento da Sólon Data, enquanto Flávio concentrou vantagens nos maiores colégios eleitorais, o desempenho de Lula se destacou em municípios menores, incluindo localidades rurais e áreas de assentamento, principalmente nas regiões Centro-Sul e Sudoeste do Paraná.
No cenário nacional, em 4.720 municípios pequenos, Lula abriu uma margem de 12,1 pontos percentuais. Flávio Bolsonaro concentrou suas maiores vantagens em números absolutos em cidades de grande porte. Considerando as 61 maiores cidades do país, o saldo agregado foi favorável a Lula por 2,2 pontos percentuais. Segundo o levantamento, cidades como São Paulo, com vantagem de 766 mil votos para Lula, e Salvador, com 732 mil, contribuíram para esse resultado.
Embora o Paraná tenha mantido a preferência por Flávio Bolsonaro no segundo turno, o estado também registrou uma redução da vantagem do candidato do PL. Entre os turnos, Lula recebeu mais votos adicionais do que seu adversário no estado, e a margem de Flávio caiu de cerca de 1,89 milhão para 1,72 milhão de votos.
A mudança na distribuição dos votos também pode estar relacionada à escolha entre apenas dois candidatos no segundo turno e à migração de eleitores que haviam votado em candidatos de outras correntes políticas no primeiro. Entre os nomes citados no levantamento estão Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado como as maiores fontes de receitas. Os dados, porém, não permitem identificar individualmente como cada eleitor mudou sua escolha.
Perfil das cidades em que Lula venceu no Paraná
Ao analisar o perfil dos municípios em que Lula obteve percentuais elevados, Luiz Gustavo De Andrade, especialista em direito eleitoral da Escola Paranaense de Direito e observador internacional de eleições pela Transparência Eleitoral, destaca diferenças entre a mobilização eleitoral em cidades pequenas e em grandes centros urbanos.
“Em municípios pequenos, a mobilização eleitoral costuma ser bastante personalizada, com participação direta de lideranças políticas e comunitárias. A proximidade entre essas lideranças e os eleitores favorece o convencimento e o comparecimento às urnas. Além disso, as campanhas digitais ampliaram a circulação de mensagens políticas e reforçaram a mobilização presencial. O aumento dos votos ao Lula parece indicar que sua campanha em redes sociais foi mais eficiente na conversão de eleitores anteriormente indecisos ou ausentes”, aponta o especialista.
Entre os prefeitos e vice-prefeitos das cinco cidades com os maiores percentuais de votos para Lula, há representantes do PSD, partido que tinha candidato próprio à Presidência no primeiro turno. Em Jardim Olinda e Manfrinópolis, os prefeitos e vice-prefeitos são filiados ao PSD e PP, sendo este um partido que reúne representantes de diferentes campos políticos.
“Essa influência não significa transferência automática de votos. Nestas eleições presidenciais, fatores ideológicos e a identificação com os candidatos exerceram peso significativo”, completa o especialista.
Outro aspecto apontado no perfil desses municípios é a presença da agricultura familiar e a relevância de políticas de crédito rural, financiamento da produção e apoio aos pequenos produtores. Além disso, também há o fator do percentual de famílias inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) e beneficiárias de programas sociais.
Em Rio Bonito do Iguaçu, por exemplo, cerca de 1,5 mil famílias recebem o Bolsa Família. Segundo os dados da prefeitura, considerando uma média de 3 a 3,5 integrantes por domicílio, estima-se que entre 28% e 33% da população local seja diretamente alcançada pelo programa.
O conjunto desses fatores pode contribuir para as escolhas eleitorais, mas não permite atribuir o resultado a uma única causa. “O eleitor tende a avaliar os benefícios concretos que associa à atuação do governo federal, independentemente de sua identificação partidária”, indica.
No entanto, mesmo que haja influência deste cenário, o especialista indica que as estratégias atingem lideranças e movimentos já consolidados nesses locais. “Há influência histórica de organizações comunitárias, cooperativas, sindicatos rurais e movimentos ligados à agricultura familiar. O voto também pode refletir vínculos políticos e sociais consolidados ao longo de diferentes eleições”, conclui.
