O Ministério de Portos e Aeroportos aprovou a atualização do Plano Mestre do Complexo Portuário de Paranaguá e Antonina. O documento substitui o último plano, publicado em 2018, e aponta quais são as metas previstas e a visão de longo prazo para o desenvolvimento de todo o complexo, envolvendo as operações públicas e as privadas. As projeções vão até o ano de 2050.
“O instrumento estabelece diretrizes, metas e cenários de crescimento, articulando o planejamento portuário às políticas públicas de transporte, às demandas regionais e às cadeias logísticas de comércio exterior, assegurando que a expansão e a modernização ocorram de forma planejada, coordenada e sustentável”, explica o documento.
A comparação entre o Plano Mestre de 2018 e o de 2026 mostra uma mudança no perfil de gestão, passando de um modelo focado na infraestrutura dos portos para uma estratégia de gestão tecnológica de todo o complexo logístico.
Enquanto o plano de 2018 baseava-se na Lei nº 12.815/2013, a edição de 2026 incorpora as diretrizes da Portaria MInfra nº 61/2020. Na prática, a nova diretriz passa a integrar obrigatoriamente os Terminais de Uso Privado (TUPs) ao planejamento público, com o objetivo de otimizar o fluxo de mercadorias no Paraná.
O modelo de governança também foi alterado. Antes operando predominantemente sob o conceito de que a autoridade concede as áreas e o setor privado investe em equipamentos, a Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (APPA) formalizou um arranjo híbrido. O novo plano consolida a manutenção de equipamentos públicos de uso comum, como ocorre no Corredor de Exportação, combinada à gestão privada.
Quanto às obras, em 2018 o foco estava centrado na ampliação do cais e na projeção de novos píeres. Já o plano de 2026 elege o Projeto Moegão como solução principal para centralizar a descarga ferroviária e aumentar a eficiência.
Moegão
Intervenção de R$ 600 milhões, o Moegão foi desenhado para resolver um conflito histórico entre o transporte de cargas e a mobilidade urbana em Paranaguá, no Litoral do Paraná. A estrutura deve centralizar a descarga de trens no porto, eliminando a necessidade de várias manobras que os trens precisam fazer no sistema atual para entregar mercadorias em terminais diferentes.
Segundo o plano, o cruzamento do trem com o tráfego urbano gera gargalos diários no município. O novo desenho operacional projeta reduzir de 16 para 5 as passagens em nível (PNs) na área urbana. Além da melhoria na segurança e na fluidez do trânsito local, a capacidade de recepção de grãos por ferrovia dará um salto, passando dos atuais 550 para 900 vagões por dia, permitindo a descarga simultânea de até 180 vagões.
A obra do Moegão atingiu 95% de conclusão em abril de 2026. Contudo, embora a finalização esteja próxima, o sistema só funcionará quando os terminais privados estiverem conectados, o que deve acontecer a partir de 2027.
Pioneirismo nacional e a era dos “supernavios”
O documento também destaca que Paranaguá assumiu um protagonismo nacional ao formalizar a primeira concessão de canal de acesso aquaviário do Brasil, que teve contrato assinado em março deste ano. Com investimento privado estimado em R$ 1,23 bilhão, o contrato garante intervenções permanentes de dragagem, derrocagem e sinalização náutica sem sobrecarregar o orçamento público.
O objetivo dessa manobra é preparar o porto para a era dos chamados Ultra Large Container Vessels (ULCV) — cargueiros gigantes de até 400 metros de comprimento. Com o aprofundamento do canal previsto para ser concluído até 2032, Paranaguá passará a receber as maiores embarcações em operação no mundo. A intenção é aumentar a competitividade do Paraná na atração de rotas internacionais diretas em comparação com portos vizinhos.
“Se a frota atual não for expandida e modernizada continuamente para acompanhar as novas dimensões das embarcações projetadas para o futuro, a eficiência que hoje atua como um diferencial competitivo do Complexo Portuário poderá ser gradualmente comprometida por restrições operacionais e normativas, limitando a recepção dessas grandes linhas de navegação”, aponta o documento.
Os desafios: clima, BR-277 e leilão
O Plano Mestre aponta algumas questões estruturais que exigem atenção do setor público e produtivo. O tempo médio de espera para atracação em Paranaguá ainda é alto, atingindo 23 dias em períodos de pico da safra. Um dos fatores é o clima regional: são mais de 100 dias de chuva por ano, o que provoca paralisações que interrompem o embarque de granéis vegetais a céu aberto.
Também é citada uma alta dependência das estradas. Quase 80% de tudo o que chega ou sai do porto utiliza o modal rodoviário. A dependência da BR-277 reforça a necessidade de obras de ampliação na Serra do Mar e da migração contínua para o transporte sobre trilhos.
O Plano Mestre destaca que, com o vencimento do contrato de concessão da ferrovia em fevereiro de 2027, a renovação ou relicitação do trecho é importante para permitir todo o uso previsto do Projeto Moegão.
“A sustentabilidade do Complexo Portuário depende de investimentos estruturantes, capazes de ampliar a eficiência logística, reduzir conflitos urbanos e garantir maior resiliência do sistema. O projeto do Moegão surge como peça central dessa transformação”, destaca o texto.
Terminal Marítimo de Passageiros
No turismo, o plano traça diretrizes para a separação operacional entre o transporte de cargas e os navios de cruzeiro, prevendo estudos para um futuro Terminal Marítimo de Passageiros dedicado. A medida visa organizar a recepção de visitantes no Litoral sem interferir nos berços comerciais de movimentação de mercadorias.
