Migração interna

Por que tanta gente está vindo para o Paraná? Estado ganhou 327 mil novos moradores

Vista aérea urbana no fim de tarde mostrando o centro de Curitiba. Em destaque no meio da cena, sobressai-se uma catedral em estilo neogótico em tons amarelados, com duas torres pontiagudas. Ao redor e em primeiro plano, há uma praça arborizada com araucárias e calçadas em mosaico. A paisagem é cercada por diversos edifícios residenciais e comerciais de diferentes alturas, sob um céu claro com gradiente alaranjado no horizonte.
Curitiba é o principal destino dos novos moradores de outras regiões. Foto: Arquivo/Daniel Castellano/Gazeta do Povo.

Entre os Censo 2010 e 2022, o Paraná passou a receber mais novos residentes vindos de outros estados do Brasil. Segundo os dados da pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Estado recebeu 327.943 pessoas de outras regiões que não residiam no estado em até cinco anos antes da pesquisa.

Em relação ao Censo anterior, houve um aumento de 55.759 pessoas que escolheram o Paraná para viver, transformando o saldo que antes era negativo em positivo.

Curitiba foi a cidade que mais recebeu novos moradores vindos de outros estados, com 67.007 imigrantes, seguida por Maringá (18.059), Londrina (15.343), Foz do Iguaçu (14.212) e Cascavel (13.157).

Embora os municípios mais populosos concentrem os maiores números absolutos, cidades menores também se destacam quando a quantidade de imigrantes de outros estados e países é comparada ao total de moradores.

Nessa proporção, os maiores índices foram registrados em Francisco Alves, onde os imigrantes representavam 9,44% da população em 2022, seguido por Carlópolis (8,88%), Vitorino (8,45%), Bom Jesus do Sul (7,59%) e Medianeira (7,12%). Segundo o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), o movimento acompanha uma tendência de crescimento das cidades médias do Paraná.

“O crescimento populacional mais relevante observado em muitos municípios médios tem relação, entre outros fatores, com a migração de curta distância, dos municípios pequenos para os médios. Nessa migração de curta distância predomina a movimentação dentro do território paranaense. A continuidade da melhoria da condição socioeconômica no Estado pode manter esse processo de migração”, informou o Ipardes à Tribuna do Paraná.

O que torna o Paraná atrativo?

Se quem deixa o Paraná busca melhores condições de emprego, segurança e qualidade de vida, quem chega ao Estado também encontra nesses fatores motivos para a mudança. Foi a percepção de maior segurança, a oferta de atividades culturais e a diversidade de opções em Curitiba que influenciaram a decisão de Raquel Rocha.

Em 2024, Raquel conheceu Florianópolis, em Santa Catarina, e decidiu deixar Boa Vista, em Roraima, onde viveu por 20 anos, para morar no Sul do país. A cidade escolhida foi Curitiba, onde atualmente estuda para ser comissária de bordo. Depois de um ano de planejamento financeiro, ela chegou à capital paranaense no fim de 2025.

Na avaliação de Raquel, os custos com alimentação e transporte são menores em Curitiba do que em Boa Vista. A sensação de segurança, no entanto, foi outra. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, enquanto o Paraná registrou queda de 15,5% nos registros de mortes violentas em 2025, Roraima teve alta de 5,8% no indicador entre 2024 e 2025. Em relação à violência contra a mulher, Boa Vista registrou a maior taxa de estupro entre as capitais brasileiras, com 127,1 casos por 100 mil habitantes.

“Venho de um estado onde a taxa de homicídio e a violência contra a mulher são uma das mais altas do Brasil e, hoje, tenho a sensação de estar mais segura. Se me perguntam se vale a pena a mudança, digo que sim. Sinto que a qualidade de vida é melhor, mas também alerto sobre como as pessoas são mais reservadas, o que pode ser difícil no início”, explica Raquel Rocha.

Mercado de trabalho e saúde potencializam atração

Além da segurança, as oportunidades de trabalho também contribuem para tornar o Paraná um destino atrativo, inclusive para pessoas que não se mudaram inicialmente com esse objetivo. É o caso de Victor Ferreira, natural de Brasília, que conheceu Curitiba em 2019 durante uma visita a amigos e, menos de seis meses depois, decidiu se mudar para a capital paranaense.

Na época, Victor trabalhava em regime de home office, o que facilitou a mudança. Mesmo sem uma vaga definida no Paraná, ele avaliava que teria oportunidades caso precisasse de outro trabalho. “Se eu desistisse do home office, sabia que eu teria oportunidade na minha área aqui”, lembra.

A previsão se confirmou. Depois de trabalhar na área de Comunicação em Brasília, Victor voltou ao regime presencial em Curitiba, onde permaneceu no mesmo campo profissional, mas migrou do setor de Design para as áreas de análise de mercado e marketing.

Satisfeito com a mudança, ele recomenda Curitiba a amigos que também pensam em se mudar, mas ressalta que a adaptação envolve diferenças culturais e de rotina. “Cada lugar tem seus defeitos, mas é nítida a diferença do que eu convivia em Brasília do que eu vivo aqui em Curitiba. Até o clima de Brasília é completamente diferente do clima daqui”, afirma.

Apesar da diferença climática, Victor diz que as características de Curitiba contribuíram para sua adaptação. Diagnosticado com hipertensão, a oferta de serviços públicos de saúde também é apontada por ele como um fator positivo para a permanência na cidade. “Eu só uso o serviço público e os hospitais funcionam. Somado a isso, o que mais me ajudou a ter controle da hipertensão foi o clima, que é mais ameno, te permite respirar melhor e ter menos dores de cabeça”, afirma.

Migração gera novas políticas públicas 

Para o superintendente de Governança Migratória do Paraná, Gil Souza, a combinação entre oportunidades, oferta de serviços públicos e receptividade da população contribui para que o Estado receba pessoas de diferentes regiões do país, apesar de não ter uma política específica de atração. 

“A população paranaense sempre dá a oportunidade para as pessoas se desenvolverem. Então, quando veem que esse migrante é trabalhador, esforçado e quer conquistar o seu espaço, o paranaense é muito acolhedor. Não existe uma iniciativa direta do Governo do Estado promovendo a vinda das pessoas. Como temos visto esses fluxos, nós começamos a dar respostas equivalentes”, explica.

Como parte dessa resposta, o Governo do Paraná criou, em 2025, uma superintendência vinculada à Secretaria da Justiça e Cidadania (Seju) específica para tratar da questão migratória e lançou a Agência do Migrante, responsável por orientar e atender pessoas que chegam ao Estado. Antes, o acolhimento era realizado pelo Centro Estadual de Informação, que recebia, em média, 500 pessoas por mês. Com a criação da Agência, o número chegou ao recorde de 3.600 atendimentos somente em julho de 2026.

“Esse equipamento público atende toda a Região Metropolitana e dá uma resposta direta ao migrante. Quando o migrante chega, ele pode encontrar amparo em oito línguas diferentes, como espanhol, francês, crioulo e árabe”, complementa. A estrutura criada busca facilitar a adaptação dos migrantes e transformar uma chegada inicialmente temporária em uma possibilidade de permanência.

Além disso, o acompanhamento também alimenta o Observatório Regional de Governança Migratória, que reúne dados sobre perfil, qualificações, necessidades, empregabilidade e distribuição dos novos moradores, informações que podem orientar políticas públicas e investimentos em áreas como habitação, educação e desenvolvimento econômico. Independentemente de qual governo assumir o Estado a partir de 2027, Gil Souza afirma que a estrutura deverá permanecer como uma ferramenta para orientar decisões futuras.

“O observatório tem esse condão de fazer estudos e análises dos números migratórios e transformar isso em informação de qualidade, confiável, para o gestor público tomar melhores decisões nas diversas áreas e também para a academia promover seus estudos qualitativos”, conclui.

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