Quase 243 mil pessoas deixaram o Paraná para morar em outros estados brasileiros, segundo dados do Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os principais destinos são os estados vizinhos, escolhidos por motivos que vão desde oportunidades de trabalho e estudo até a busca por melhor qualidade de vida.
Sozinhos, Santa Catarina (39,6%) e São Paulo (25,3%) concentram 64,9% dos paranaenses que migraram para outros estados do Brasil.
A lista ainda aponta Mato Grosso (6,2%), Rio Grande do Sul (5,7%), Mato Grosso do Sul (5,6%), Minas Gerais (3,1%) e Goiás (2%) como prioridades para os paranaenses. Apesar desse fluxo de saída, a comparação com o Censo de 2010 mostra uma mudança importante no cenário migratório do estado.
Entre os dois levantamentos, o Paraná passou de um saldo migratório negativo para positivo. Na prática, o estado passou a receber mais moradores do que perdeu. Em relação ao Censo anterior, houve um aumento de 55.759 pessoas que escolheram o Paraná para viver e uma redução de 50.795 no número de moradores que deixaram o estado.
Segundo o diretor de Pesquisas do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), Julio Suzuki, o Censo não identifica de forma específica os motivos que levam uma pessoa a mudar de estado, mas alguns fatores costumam influenciar esse movimento.
“Sabe-se que questões econômicas, como aquelas relacionadas ao trabalho, são importantes. Motivações relacionadas ao estudo também influenciam o processo migratório, assim como a busca de uma melhor condição de bem-estar”, afirma.
Para a professora a Área de Geociências da Uninter, Vera Scheller Rocha, a preferência por estados vizinhos tem raízes históricas. Segundo ela, a migração entre Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul acompanha o processo de ocupação da região Sul desde a primeira metade do século passado.
“Isso não é uma questão recente, mas de colonização, iniciada ainda na década de 1940. O Oeste do Paraná, por exemplo, foi colonizado por gaúchos e catarinenses, o que explica esse movimento de retorno para os estados de origem até hoje. Os paranaenses já compreendem a dinâmica migratória porque a própria população do estado tem, em sua origem, a marca da migração”, explica.
Oportunidades de trabalho
Segundo Vera Scheller Rocha, o perfil dos migrantes varia conforme o destino. Quem se muda para Santa Catarina, por exemplo, costuma buscar uma melhor qualidade de vida. “Os migrantes vão para Santa Catarina, mas não vão para o Oeste daquele estado. Em geral, quem faz esse movimento já tem uma condição financeira melhor e procura o litoral, que oferece uma percepção maior de qualidade de vida”, explica.
Já São Paulo atrai um perfil diferente. A maior economia do país concentra profissionais em busca de melhores oportunidades de emprego, crescimento na carreira e expansão dos negócios. Foi justamente o mercado paulista que levou a empresária do setor de transportes Cleide Pichek a deixar Curitiba.
Proprietária da KPI Express, ela decidiu se mudar para estruturar uma nova filial da empresa após enfrentar dificuldades para encontrar um gestor que assumisse a operação no estado. Além dela, alguns funcionários que ocupavam cargos de liderança também foram transferidos da unidade curitibana.
“O nosso maior cliente enfrentava muitos problemas com agendamento de fretes em São Paulo. Havia atrasos e descumprimento das agendas, então ele nos chamou para assumir esse serviço. No começo trabalhamos com um parceiro, mas percebemos que apenas os agendamentos não sustentariam uma operação entre Curitiba e São Paulo. Precisávamos ampliar a atuação”, relembra.
A mudança, concretizada em 2025, não estava nos planos da empresária. Além da adaptação pessoal, foi necessário reformular toda a logística da empresa para atender à dinâmica da Região Metropolitana de São Paulo. “São Paulo é uma cidade que não para. Tudo é maior, mais populoso e mais intenso. Em Curitiba, um veículo consegue fazer cerca de 20 entregas por dia. Aqui precisamos dividir as rotas por CEP e, muitas vezes, destinar um veículo para cada região”, afirma.
Por estratégia, Cleide escolheu se instalar em Guarulhos. Segundo ela, o custo de vida é semelhante ao de Curitiba, mas a rotina mudou completamente. Enquanto na capital paranaense o expediente costumava começar às 9h, em São Paulo o trabalho inicia às 5h para aproveitar os horários de menor trânsito.
Apesar da adaptação, a empresária afirma que a decisão trouxe resultados positivos para a empresa. Hoje, a operação entre Curitiba e São Paulo se tornou o principal eixo de atuação da transportadora. Ainda assim, ela pretende retornar à capital paranaense quando a equipe paulista estiver totalmente consolidada. “Eu quero voltar para Curitiba. Hoje, quando vou para lá, reparo nas ruas, na vegetação. A mudança faz a gente valorizar coisas que antes passavam despercebidas”, diz.
Exportação de mão de obra
Para Vera Scheller, o Paraná também se destaca por exportar profissionais altamente qualificados para outras regiões do país. Se Santa Catarina atrai moradores em busca de qualidade de vida e São Paulo concentra oportunidades no mercado de trabalho, estados do Centro-Oeste e do Norte recebem paranaenses impulsionados, principalmente, pela expansão do agronegócio.
Segundo ela, a abertura de novas fronteiras agrícolas e o avanço da tecnologia no campo criaram uma demanda crescente por profissionais especializados. Como o Paraná reúne universidades, centros de pesquisa e um setor agropecuário consolidado, muitos desses trabalhadores acabam encontrando melhores oportunidades fora do estado.
“O Paraná forma muitos especialistas, mas o mercado local nem sempre consegue absorver todo esse contingente. Esses profissionais acabam recebendo propostas mais atrativas para construir carreira em outros estados. Não estamos falando apenas de mão de obra operacional, mas de agrônomos, pilotos de aeronaves, operadores de drones agrícolas e especialistas em tecnologia aplicada ao campo. O estado acaba exportando conhecimento e tecnologia”, afirma.
Ela lembra que esse movimento também não é recente. Nas últimas décadas, agricultores e profissionais ligados ao agronegócio migraram para novas fronteiras agrícolas do Centro-Oeste e da região conhecida como Matopiba, formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
Decisão permanente?
Foi esse caminho que o agricultor Fábio Rodrigues, natural de Cambará, percorreu há cerca de 20 anos. A história da família no campo começou em 1927, quando o avô deixou Itápolis (SP) para produzir café no Norte do Paraná. Décadas depois, a Geada Negra de 1975 obrigou a família a abandonar os cafezais e investir em culturas como soja e cana-de-açúcar.
Em 2002, durante um evento do setor, Fábio conheceu o potencial agrícola do sul do Maranhão e decidiu investir na região. A decisão contrariava o desejo do falecido pai, que preferia manter a família no Paraná. “Meu pai queria que permanecêssemos aqui, mas a nossa vontade era seguir o caminho que o meu avô fez quando migrou. Chegou um momento em que não havia mais espaço para crescer no Paraná. Comprar terra era inviável e os arrendamentos ficaram cada vez mais caros. Percebemos que precisávamos buscar outro lugar”, conta.
Os primeiros anos foram marcados por dificuldades. Além de conflitos fundiários e da falta de infraestrutura, a produtividade era baixa e os equipamentos precisavam ser transportados a cada safra. “Como não tínhamos dinheiro para comprar outro trator, terminávamos o plantio no Paraná, colocávamos as máquinas em caminhões e levávamos tudo para o Maranhão. O solo era muito diferente. Eu sou agrônomo, filho de agrônomo e pai de agrônomo, mas tivemos que reaprender a plantar praticamente do zero”, relembra.
A realidade começou a mudar a partir de 2013, com a inauguração do Porto de Itaqui, a chegada de grandes empresas do agronegócio e investimentos em armazenagem e logística. Hoje, na 17ª safra da fazenda, a produção se estende por aproximadamente 400 mil hectares.
Apesar da expansão, Fábio nunca rompeu os vínculos com o Paraná. “Não vendemos um palmo de terra no Paraná para comprar propriedades no Maranhão. Mantivemos as duas operações. Hoje divido meu tempo entre os estados: durante a safra passo cerca de 60% do período no Maranhão e 40% no Paraná, onde meu irmão e meu filho administram a pecuária e as lavouras”, afirma.
Para Vera Scheller, trajetórias como a de Fábio mostram que a migração raramente é definitiva. As mudanças dependem do momento de vida e das condições encontradas pelos paranaenses ao longo do processo. “A migração não é uma linha reta nem uma decisão permanente. Muitas pessoas saem, constroem a vida em outro estado e, em algum momento, acabam voltando ao Paraná”, conclui.
