Muito tumulto e pessoas reclamando, mas pouca negociação no primeiro dia de greve do transporte coletivo de Curitiba e Região Metropolitana. Em reunião no início da tarde de ontem, no Ministério Público do Trabalho, a ordem judicial foi de que fosse garantido o funcionamento da frota em, no mínimo, 60% durante os momentos de pico e 40% nos demais horários. No entanto, os representantes do Sindicato dos Motoristas e Cobradores nas Empresas de Transporte de Passageiros de Curitiba e Região Metropolitana (Sindimoc) e do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Curitiba e Região Metropolitana (Setransp) não avançaram nas negociações e a greve continua.

Apesar da reunião durar mais de uma hora e meia, a portas fechadas, não houve sequer sinais de acordo entre as partes. O presidente do Sindimoc, Denílson Pires, disse sair frustrado. O sindicato foi obrigado a colocar 60% da frota das 18h às 21h e das 5h às 9h, sob pena de multa diária de R$ 50 mil. ?Não é uma tarefa fácil, porque o trabalhador não quer saber se tem multa. Ele quer continuar o movimento. Estou bastante frustrado, pois esperava que não fosse tão drástica a medida do Ministério Público e também esperava ao menos uma sinalização positiva de negociação, mas nem isso houve?, disse Pires.

Sobre as negociações, o presidente do Setransp, Rodrigo Corleto Hoelzl, disse estar surpreso. ?Foi realmente uma surpresa o que aconteceu ontem. Porque nós, depois de uma série de sete reuniões, acabamos aceitando uma proposta (reajustes de 5% nos salários, cesta básica e plano de saúde) que veio do próprio sindicato. Não estamos entendendo?, afirma.

Também estavam na reunião de ontem o presidente da Urbs, Paulo Schmidt, e o diretor-presidente da Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba do Estado (Comec), Alcidino Bittencourt Pereira. Mesmo participando, Schmidt afirmou que só estava nessa negociação para tratar das questões de interesse público. ?Vários pontos foram decididos no que diz respeito à infra-estrutura disponível para a população: houve um acordo de que a partir das 18h (de ontem) os sindicatos assegurariam uma frota mínima de 60% nos horários de pico; também ficou acertado, em função de um termo de interdito proibitório, que não haverá qualquer forma de coibição de acesso às garagens, seja para saída dos ônibus ou entrada de funcionários (algo que ainda estava sendo desobedecido ontem à noite na Auto Viação Redentor).? O presidente da Urbs saiu da reunião com uma preocupação. ?O que nos preocupa são as depredações que estão ocorrendo, pois se reflete depois em cima da manutenção da tarifa?, afirma. Todos mencionaram que ficou estabelecido na reunião que se até quinta-feira não houver acordo, o Ministério Público Trabalho ajuizará um dissídio coletivo e chamará para ele a responsabilidade de resolver a questão e fixar o reajuste. No entanto, ess e prazo não foi registrado na ata do encontro, junto com as demais decisões.

Funcionamento

Segundo o presidente do Sindimoc, no início 100% dos 13, 8 mil funcionários tinham aderido à greve e eram poucos os ônibus que circulavam. Após 18h, horário determinado para a volta do funcionamento de 60% da frota – quase 1,6 mil ônibus, segundo o Setransp -, aos poucos o movimento retornava nos terminais. Porém, muitas pessoas ainda esperavam pelo ônibus, que não vinha. Muitas estações-tubos estavam vazias e sem cobradores.

Atendimento ao público ficou prejudicado na área da saúde

Os efetivos da Guarda Municipal e da Polícia Militar foram reforçados durante todo o dia de ontem para tentar impedir que mais ônibus fossem depredados pelos manifestantes. Além disso, os serviços de saúde ficaram comprometidos pela falta de funcionários.

Viaturas percorriam as canaletas do expresso, verificando possíveis paralisações de veículos, e a PM estava autorizada, via determinação judicial, a intervir nos piquetes e garantir que os ônibus não fossem impedidos de deixar a garagem das empresas. Apesar disso, algumas companhias estavam sentindo falta de proteção policial para liberar os ônibus.

A informação da Prefeitura, no entanto, era de que o efetivo da Guarda estava disponível a todas as 26 empresas que operam o transporte coletivo em Curitiba e Região Metropolitana. Os veículos estariam sendo escoltados até certo ponto após a saída das garagens. No caso dos alimentadores, que não possuíam o suporte policial das canaletas, a escolta era estendida a um percurso mais longo a partir da saída.

Prejuízos

Mesmo com as medidas de segurança para evitar que mais ônibus saíssem de circulação, a redução no número de veículos angariou prejuízos ao setor público: nas unidades de saúde, o número de atendimentos ficou 30% abaixo da média. Dos 439 equipamentos da educação (creches, escolas e centros de atendimento especial), 20 não funcionaram e outros 73 tiveram funcionamento precário. Os serviços de coleta do lixo também sofreram uma redução de quase 60% no período da manhã. À tarde, o Departamento Municipal de Lixo conseguiu colocar nas ruas 36 caminhões, após o destacamento de carros para buscar os coletores em suas residências. (LM)

Trânsito fica congestionado com a paralisação

Rosângela Oliveira e Lígia Martoni

Com a paralisação do sistema de transporte houve muito congestionamento, principalmente nas vias de acesso ao centro da cidade. Para tentar diminuir o atraso, alguns motoristas estavam trafegando pelas canaletas expressas. Na Marechal Floriano, por exemplo, o ?atalho? era interrompido na altura do Boqueirão, já que um ônibus biarticulado estava atravessado na pista com os pneus vazios.

A Prefeitura informou que a Diretoria de Trânsito (Diretran) reforçou o efetivo e deslocou viaturas para organizar o trânsito nos entornos das praças Rui Barbosa, Carlos Gomes, Tiradentes e Santos Andrade. Nas avenidas Sete de Setembro, Getúlio Vargas, Visconde de Guarapuava, Marechal Floriano Peixoto e Marechal Deodoro o trânsito também ficou confuso e o fluxo lento, inclusive com necessidade de desvios em alguns trechos. Diversas ruas que davam acesso ao centro ficaram congestionadas.

Quem tentou pegar taxi também precisou de paciência. As centrais de rádio-taxi ficaram congestionadas, e a média de espera apenas pelo atendimento telefônico era de cerca de 15 minutos. Já a chegada do veículo podia levar até meia hora. A estimativa foi de um aumento de mais de 100% nas corridas. O taxista Manuel Dittmann fez, em cinco horas, as 15 corridas que faz em um dia normal de trabalho. ?Com esse movimento, o número só não será maior pelo tempo de deslocamento?, falou. Nem todas as chamadas estavam sendo atendidas e a prioridade nas centrais era para as empresas cadastradas.

Frete

Outra opção de transporte eram os veículos cadastrados pela Urbs para lotação, que incluíam quaisquer interessados além de carros que trabalham com fretamento e transporte escolar. Durante a vistoria eram verificados documentação do motorista e estado geral do veículo. A tarifa máxima que poderia ser cobrada era de R$ 4, para qualquer percurso.

O segurança Luciano Araújo da Costa resolveu utilizar o veículo Corsa, ano 1994, para fazer fretes porque queria ?tirar o dinheiro da cerveja no final do dia?. Antes mesmo de fazer o cadastro junto à Urbs, já estava transportando passageiros na região da Barreirinha e Boa Vista. Em três horas de trabalho, já tinha ganho R$ 40 com a cobrança de uma taxa de R$ 3. ?Eu só vim fazer o cadastro porque trouxe um passageiro aqui na rodoferroviária?, afirmou. A Urbs afirmou que não teria condições de vistoriar quem estava fazendo o transporte sem o cadastro e, por isso, orientava que as pessoas só embarcassem em veículos que tivessem a identificação de ?Lotação? com o carimbo da empresa.

Coletivos e terminais depredados por grevistas

A greve dos motoristas e cobradores resultou em depredação de ônibus e terminais em Curitiba. No terminal do Capão Raso, funcionários uniformizados de várias empresas de ônibus quebraram guaritas e atravessaram ônibus com os pneus murchos nas pistas, impedindo a entrada dos que estavam circulando. Durante a tarde, os que chegavam ao local eram retidos.

Quatro viaturas da Rondas Ostensivas de Natureza Especial (Rone) foram até o local para tentar impedir que a manifestação barrasse os ônibus, mas, mesmo com armamento para intimidar os manifestantes, apenas dois veículos foram liberados. A Guarda Municipal também acompanhou a manifestação e, apesar do clima tenso, não houve agressões físicas entre manifestantes e policiais.

O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Curitiba e Região Metropolitana (Setransp) calculava na tarde de ontem 121 ônibus depredados. No entanto, ainda havia ônibus em circulação que não tinham sido avaliados.

Em geral, os ônibus tiveram os pneus rasgados ou esvaziados e vidros e portas quebrados. Nem mesmo os carros escaparam: durante a manhã, a estimativa era de pelo menos cem veículos com vidros quebrados e pneus danificados. A Urbs disponibilizou uma equipe para percorrer os terminais e estações-tubo da cidade verificando os prejuízos. O valor dos danos materiais, no entanto, ainda não foi levantado.

Empresas

Na Auto Viação Redentor, uma das empresas que opera o transporte coletivo em Curitiba e tem sede em frente ao terminal do Capão Raso, a tensão começou na madrugada e se estendeu durante o dia. Dois ônibus tiveram os pneus furados e foram posicionados de forma a impedir que outros deixassem a garagem da empresa. Além disso, os grevistas que participaram dos piquetes durante a noite atearam fogo em pneus, também para evitar a passagem e incitar quem foi trabalhar a aderir à paralisação. ?Estou tentando mandar ônibus para a rua, mas não tem como sair daqui?, disse o gerente da área de tráfego da empresa, Cláudio Cordeiro Filho. Um dos madrugueiros que a empresa conseguiu soltar antes da chegada dos manifestantes foi pego na rua e teve o banco do cobrador queimado.

Segundo o gerente, cerca de cinqüenta funcionários se deslocaram até a empresa, ontem, dispostos a trabalhar. ?Mas até mesmo a ignição de alguns veículos foi danificada para garantir que não andassem?, ressalta.

Já o funcionário João Teixeira, da Expresso Azul, disse que trocou sozinho pneus de 26 ônibus. ?Devo ter trocado 200 pneus?, estima. Na Auto Viação Nossa Senhora da Luz, até às 16h nenhum ônibus tinha conseguido deixar a garagem. ?Estamos tentando soltar aos poucos, mas muitos motoristas estão com medo de sair. Chega uma hora que não dá para mandar os ônibus para a rua, porque corremos o risco de abordarem e depredarem?, lamenta o diretor da empresa, Faissal El Katib.

Além de pneus queimados em frente às empresas, algumas pessoas que acompanharam as manifestações relataram arruaças durante a noite, inclusive com uso de bebidas alcoólicas durante os piquetes e agressões físicas entre membros da categoria. (LM)