Natural de Cascavel, região Oeste do Paraná, Edson Vasconcelos é engenheiro civil e empresário com atuação nos setores de infraestrutura e hotelaria. Presidiu a ACIC (Associação Comercial e Industrial de Cascavel) e coordenou o G7, o grupo das principais entidades produtivas do estado. Foi eleito presidente da FIEP em 2023 (para quadriênio 2023-2027), com a promessa de modernização da indústria.
O trabalho de Vasconcelos e da FIEP chamou a atenção do senador Sérgio Moro, que por meses se aproximou do setor frequentando fóruns e eventos da Federação pelo interior do Paraná. Com o convite para ser pré-candidato a vice na sua chapa, Moro aposta nas boas relações de Vasconcelos com o setor produtivo e espera apoio na formatação do seu plano de governo, com foco no crescimento econômico do Paraná.
Nesta entrevista exclusiva à Tribuna, Vasconcelos detalha as razões que o levaram a aceitar o convite e analisa os gargalos que impedem o Paraná de se tornar a segunda maior economia do país. Ele aborda temas críticos como o “atraso de 50 anos” da BR-277, o paradoxo dos custos logísticos — como o frete para o Norte do Brasil superar o envio de cargas para a China — e o risco ide um colapso energético que afaste investidores internacionais.
O diálogo fala ainda da necessidade de uma revolução “homem-máquina” na produtividade do Paraná e defesa da indústria (e os empregos que ela gera) como a ferramenta mais eficaz de justiça social. O presidente da FIEP também comenta a relação com o governo Ratinho Júnior, pontuando os avanços na qualificação profissional, mas alertando para a alta carga tributária (ICMS) e a urgência de uma gestão pública que gaste melhor e entregue serviços digitais com a agilidade do setor corporativo.
Confira a entrevista completa com Edson Vasconcelos, presidente da FIEP/PR, pré-candidato a vice na chapa de Sérgio Moro ao Governo do Paraná.

Tribuna: Como aconteceu o convite para ser pré-candidato a vice-governador na chapa do Sérgio Moro?
Edson Vasconcelos: Eu não tinha essa expectativa. É um trabalho árduo mostrar que a indústria é a base principal para uma economia saudável. Esse trabalho de ir para o interior, perceber as diferenças, discutir muito a política industrial. Mostrar que ela é o ponto inicial para se falar de justiça social e que justiça social, para nós, é conseguir levar oportunidades àqueles lugares mais distantes. Trouxemos para o debate o desenvolvimento econômico do estado, principalmente quando nós entendemos que o Paraná é o estado com melhor potencial para se industrializar no Brasil.
Eu acredito que isso chamou muita atenção do senador e, automaticamente, ele se aproximou para buscar mais informações. Nós sempre trabalhamos de forma propositiva com os governos municipais e estaduais — temos vários projetos com o governo atual —, sempre em uma linha propositiva. Isso trouxe uma percepção para o senador, que fez o convite. Não fazia parte dos meus planos, não sou da política. Mas vejo que é um momento para pôr em prática aquilo que a gente entende que precisa ser feito, dando suporte ao plano de governo para que ele tenha uma visão de desenvolvimento econômico mais consistente.
Tribuna: E como o convite foi recebido na Fiep?
Edson: Ele foi debatido de uma forma muito consciente e madura dentro da diretoria. Não faria sentido aceitar o convite de ser pré-candidato se a própria indústria não visse valor na possibilidade de colaborar, especialmente de forma muito mais efetiva em um projeto a médio prazo.
Tribuna: Houve uma sondagem anterior ou o convite veio de surpresa?
Edson: Não, foi o convite direto. O senador sempre esteve próximo, participou de vários eventos e de vários fóruns no interior. Muitos políticos acompanham o nosso trabalho, principalmente nesses fóruns. O próprio governo, secretários, até o antigo secretário da indústria e comércio acompanhou quase todos os nossos projetos. O senador viu de perto todo esse debate e se aproximou da Federação para entender as demandas do setor produtivo e nossa visão de crescimento para a economia do Estado. A economia é a soma de CNPJs e CPFs. Quanto melhor eles estiverem, mais empresas prosperam, mais empregos são gerados e pessoas com dinheiro no bolso significam economia forte. Temos que ter uma visão clara daquilo que pode melhorar.
Tribuna: Como foi a aceitação da diretoria?
Edson: Unânime. Nós temos um modelo que já funciona no Estado, um vice-governador que é de uma federação (Darci Piana, que vem da Fecomércio), então todos percebem a oportunidade que temos. É uma oportunidade muito interessante para colaborar com este projeto de governo.
Tribuna: O governo atual executou uma boa gestão dos assuntos caros à indústria ou faltou uma atenção maior? O que se pode destacar?
Edson: É um processo democrático natural. Cada governo tem um jeito de lidar, mas esta é a magia da democracia. Foram entregues muitas coisas boas nesse governo, enquanto outras não. É mais do que natural que o ciclo dos governos traga essa ambição por melhorar cada vez mais. Eu acho que o saldo é positivo, pois todo mundo quer fazer do Paraná o melhor lugar para a indústria no Brasil. Para nós, o empreendedorismo é um ponto importante e, para ser relevante, ele precisa de ambiente. Para ter ambiente, precisa de infraestrutura, desburocratização, ações regulatórias, energia, portos e aeroportos. É um conjunto de ambientes que melhora não só a performance do empreendedorismo, mas de toda a sociedade. Quando a indústria luta por estradas melhores, a população ganha também. Quando lutamos por uma matriz energética mais eficiente, para garantir a automação das indústrias, o povo também se beneficia.
Tribuna: Temos gargalos no Paraná e as estradas são sempre citadas. Esse ainda é um calo das indústrias?
Edson: A BR-277, que liga Foz do Iguaçu a Paranaguá, é quase a mesma BR-277 de 1970, quando foi inaugurada. Só que, se você pega a curva do crescimento do PIB, percebe que é totalmente incompatível. Não tem como falarmos em crescer sem almejar uma infraestrutura mínima. A infraestrutura rodoviária é um dos pontos de atenção, principalmente quando nós temos no interior a agroindústria mostrando e falando que as cooperativas projetam dobrar de tamanho na produção até 2030. Se já temos dificuldades hoje, imagine em 2030, que é daqui a quatro anos.
Tribuna: Como isso impacta negativamente este setor?
Edson: A produção agroindustrial tem características de valor por peso de produto não tão robustas como o setor de tecnologia. O frete e a logística influenciam demais. Hoje você consegue carregar um caminhão e levar para o Porto de Paranaguá para abastecer o mercado asiático, mas não consegue colocar o mesmo produto em um caminhão e levar para o Norte do país. O frete corrói o preço do nosso produto. As 22 mil milhas náuticas entre Paranaguá e Xangai custam 35 dólares a tonelada. Mil quilômetros rodoviários custam 60 dólares. Então a diferença da nossa competitividade é muito grande. Por isso nós lutamos tanto para ter eficiência logística.
Tribuna: A necessidade de se investir em malha ferroviária é histórica. Você vislumbra, em um futuro próximo, um aumento dessa malha?
Edson: É fundamental por “n” motivos. Primeiro que, se você não tiver a ferrovia, a sobrecarga do sistema rodoviário vai trazer um sobrepreço do frete. A oferta dos contratos ferroviários são constantes, com contratos de abastecimento anual. As cargas que passam pelo Paraná precisam da malha ferroviária, inclusive para não sobrecarregar o sistema atual. A gente sempre brinca: “Nós não sabemos os caminhos que levam a Roma, mas todos passam em Ponta Grossa”. Se a gente não cuidar da carga que passa por aqui, vamos ter sobrecarga. Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Paraguai estão crescendo na produção e eles também usam o nosso porto. Para nós, ferrovia é essencial. Nós precisamos, de qualquer maneira, rever a nossa malha ferroviária.
Tribuna: E existe uma perspectiva de melhora em um horizonte próximo?
Edson: Agora temos uma janela de oportunidades. Temos três grandes demandas, sendo uma delas a expansão da Malha Sul. Queremos que tenha a malha Paraná/Santa Catarina; 80% da carga da Malha Sul toda vem do Paraná. A Ferroeste precisa se conectar a essa nova malha, precisa ser uma operadora única e precisamos, de fato, de uma nova licitação. Nós temos uma dificuldade muito grande sobre a possibilidade de uma renovação no mesmo modelo. O que está aí não está nos atendendo.
Tribuna: E quando sai essa licitação?
Edson: Está prevista. Há uma previsão inicial para setembro e licitação em dezembro, mas nós estamos tentando mudar o modelo. Esse modelo em que o Ministério da Infraestrutura está trabalhando não coloca a Ferroeste como uma anexação da Malha Sul. Inclusive pedimos que isso seja resolvido antes da nova licitação. O grande problema é que ainda não saíram as audiências públicas para discutir a licitação e começar em setembro. Então parece que, por ser ano eleitoral, vai ficar para o ano que vem.
Tribuna: Como a demora em resolver isso impacta o Paraná?
Edson: Para você ter uma noção, o perfil do produto da carga está mudando. Antes a gente levava muita soja e milho para o porto, mas hoje a gente está levando contêiner com carne. Um contêiner refrigerado, indo de trem, sai na ordem de R$ 4,5 mil. Se for via rodoviária, sai a R$ 6,3 mil. Aqui já é uma diferença muito grande. Nós temos um terminal hoje em Cascavel que concentra várias cooperativas e só consegue mandar 30% da sua produção pelo trem. Não tem trem suficiente. E tem a questão do tempo, pois leva sete dias para levar de lá ao porto, o que põe em risco a qualidade do produto.
Tribuna: Como vocês enfrentam a falta de mão de obra para a indústria?
Edson: É um grande gargalo. Quando se tem falta de mão de obra, temos a impressão de que o empresário vai atrás de tecnologia para supri-la. Mas em um país que não tem uma taxa de juros adequada, o empresário não consegue ter acesso a essa atualização tecnológica. Quando falamos que o colaborador brasileiro produz quatro vezes menos que um norte-americano, é porque nos Estados Unidos ele produz quatro vezes mais com o apoio da tecnologia. O Brasil tem essa dificuldade de conseguir resolver o problema da empregabilidade, mas não necessariamente pela falta de mão de obra. É a relação homem/máquina que precisa melhorar.
Aquelas vagas de trabalho mais repetitivas, de baixo valor agregado, vão sumindo, vão sendo robotizadas. Mas a falta de mão de obra qualificada é o problema. A economia da Índia não é tão tecnológica pois tem muita mão de obra disponível. Aqui não. Precisamos dar capacitação ao trabalhador para crescermos como economia. Precisamos entender como fazer essa revolução homem/máquina, subir essas pessoas para conseguirmos mais faturamento, para não depender somente da quantidade de pessoas. Se chegarmos em um momento em que todas as vagas estão ocupadas, sem evolução tecnológica, a gente trava.
Tribuna: Existe oferta de qualificação para esta mão de obra?
Edson: Existe muita. Mas nós temos hoje um dilema. O Bolsa Família é um programa essencial para a sociedade, desde que a passagem por ele seja temporária. O programa é para ajudar quem precisa em um momento específico. Se a pessoa para ali, tem algo errado, ainda mais quando falamos que tem falta de mão de obra. O Brasil não é uniforme, não é homogêneo. O Sul do país tem as menores taxas de desemprego. Precisamos entender: a economia do estado é a soma de ativos tecnológicos produtivos com a força de trabalho. Quando você restringe essa força de trabalho e não melhora a capacidade tecnológica, você coloca uma mão pesada na economia. Quanto mais essa economia crescer, mais ela vai distribuir renda para os estados, para o município, e permitir fazer política social. E aí a gente tem um equilíbrio razoável. Então nós temos que destravar isso.
Tribuna: Como?
Edson: Nós precisamos melhorar a capacidade e ampliar o nosso potencial econômico. Hoje o Paraná é a quarta força econômica do país, passou o Rio Grande do Sul. Na indústria de transformação já é a terceira força. A indústria vai puxando o estado. Nós queremos ser a segunda força, mas é difícil.

Tribuna: O que falta?
Edson: Nós precisamos fazer com que as indústrias queiram vir para o Paraná. Elas vão perguntar: o que o Paraná tem de diferente? Nós temos que ter um painel com todas elas. Mostrar que a energia do Paraná é melhor do que neste ou naquele estado. As estradas, os portos, a burocracia. Aí a migração da indústria acontece. Tendo mais indústrias, pode faltar mão de obra. Mas, daí, as indústrias que virão para cá precisam ter alta performance tecnológica. O valor agregado aumenta no emprego também. É um círculo virtuoso. Temos que melhorar a performance. Quem vai querer ir lá para um quinhão distante se em Ponta Grossa a logística é muito mais favorável? Isso é política industrial.
Tribuna: Onde ela precisa ser mais eficiente?
Edson: Na matriz energética, por exemplo. Nós estamos com condições de falar que lá no Sudoeste tem uma matriz energética favorável para uma certa indústria de tecnologia, que vai dar valor agregado por lá e que não depende tanto de infraestrutura e logística. Então este mapa é quem vai dizer se o Paraná pode ou não ser o primeiro ou segundo estado em industrialização do país. Você deve buscar empresas de classe mundial que são beneficiadas por políticas industriais corretas. A gente tem o exemplo de uma farmacêutica que não vende para a cidade, vende para o mundo. Se eu trouxer cinco, vinte empresas desse setor, ótimo. Elas não concorrem entre si, só estão buscando o melhor domicílio industrial. Se faltar gente, não tem problema, desde que haja tecnologia.
Tribuna: Essa visão já está funcionando?
Edson: Batemos na política industrial 24h por dia. Precisamos de algumas mudanças, é claro. Este ano a FIEP terá propostas para todos os candidatos. Precisamos ser propositivos. O empresário precisa de previsibilidade, de um estado célere, de desburocratização. Os licenciamentos ambientais hoje, por lei, são extremamente rígidos. E tudo bem, não tem problema. Só que rigidez não precisa ser morosidade. O rígido tem que ser célere.
As indústrias que hoje dependem de licenciamento ambiental sofrem. A China refez toda a sua infraestrutura em 20 anos. No Brasil, às vezes este é o tempo para conseguir uma licença para construir um porto. O porto é um caso específico. Nós temos boa parte da produção paranaense passando por Santa Catarina. O porto é meio, não é fim. O fim é o cliente do outro lado do oceano. E Santa Catarina está prestando um serviço de classe interessante para a produção.
Tribuna: Como o Paraná está nesse mapa de atrativos de novas empresas? Precisa ajustar muita coisa?
Edson: Precisa ajustar. Nós temos pontos positivos, mas temos que melhorar, cuidar deles. Eu recebi aqui o presidente de uma empresa multinacional que escolheu o Paraná. Vai montar uma fábrica em Ponta Grossa. Perguntei por que ele escolheu a cidade, e ele foi direto: no Paraná não precisa de escolta armada. Então segurança é também um fator de relevância. Se você perceber a quantidade de empresas que estão saindo de São Paulo e do Rio de Janeiro, percebe como isso é importante. Aviação regional para nós é importantíssimo. Diretores de uma empresa internacional que cresce no interior não querem ficar se não tiverem uma logística para executivos. Os clientes não conseguem chegar lá. Então a aviação regional para nós é um fator vital.
Tem também a matriz energética, que é preocupante. A Copel não está conseguindo atender a contento. Ela precisa fazer um conjunto de investimentos em subestações e redes de transmissão que só vão dar resultado daqui a dois anos e meio. Mas o problema está aí hoje. Eu gostaria de uma empresa grande lá no Sudoeste, mas não tenho capacidade energética agora. O Paraná é pujante, tem uma geopolítica interessantíssima, estamos do lado de São Paulo. Nosso interior cresce muito comparado a outros estados. Onde tem indústria, tem um PIB per capita alto. Uma grande indústria traz um “caminhão” de dinheiro, empregos de alto valor agregado, oxigênio para manter o comércio e serviços. Se não tem indústria, o dinheiro não circula.
Tribuna: Qual é o grande atrativo do Paraná para trazer essas indústrias?
Edson: Por incrível que pareça, nossa questão logística é boa. O Brasil todo está em um colapso portuário, mas nós temos a vantagem de ter um porto — Minas Gerais não tem. Temos uma indústria vocacionada, então as empresas orientadas para a indústria do alimento são importantíssimas. Nós não temos tanta disponibilidade de mão de obra, mas culturalmente a nossa capacidade de engajamento laboral é diferenciada; somos um povo trabalhador. Se você traz uma indústria como a LG ou a Xbri, você traz também dezenas de outras menores que vão abastecê-las. Essa política é fundamental. Nós precisamos agora melhorar a capacidade do industrial paranaense para que ele possa criar joint ventures e parcerias para buscar recursos de fora, conhecimento e tecnologia. A FIEP faz um trabalho incrível com o “Paraná for Business”, que é voltado para preparar nossas empresas para mercados de alto valor agregado.
Tribuna: Outros estados vibram e lucram com conquistas industriais, como a BYD, que construiu uma fábrica gigante no Nordeste. Como vencer nessas disputas?
Edson: A reforma tributária vai equalizar a guerra fiscal, mas, por exemplo, a Tata Motors está se instalando em Londrina. Ela não veio só atrás de benefício fiscal, mas sim pela geopolítica: localização melhor, perto de São Paulo e perto de Curitiba. Eu acho que nós temos várias vantagens.
Tribuna: E onde a política entra nessa equação?
Edson: Nós fizemos um curso de extensão e trouxemos o Cássio Taniguchi, que contou a história da CIC. Ele falou que na época não tinha benefício fiscal nenhum, não tinha diferencial competitivo. O que ele fez na época foi puro relacionamento, bater de porta em porta, networking mesmo. Várias e várias visitas. Então é assim que deve ser o comportamento do estado. O empresário tem que se sentir confortável. E este relacionamento fez com que as empresas viessem para cá.
Tribuna: Como que o senhor avalia o desempenho do governo Ratinho Júnior no que diz respeito à indústria?
Edson: A indústria talvez não tenha a mesma percepção da população em geral. Nós temos o ICMS modal mais caro do Sul e Sudeste. São 19,5%, contra 17% de Santa Catarina. Nós temos um atraso nas obras do pedágio, de 2021 para 2026. No terceiro ano era para termos obras, mas atrasou. Isso prejudica nossa infraestrutura. Eu acredito que ele teve uma bela parceria com a FIEP no que diz respeito à qualificação de mão de obra. O “Qualifica Paraná” é fantástico. A indústria tem características de cobrança diferentes. Isso vai ser sempre assim.
O governo atende quem chora mais. A indústria sempre vai “chorar”, porque ela precisa de uma atenção diferente. Para nós, alguns pontos são de extrema importância, mas as decisões são lentas. Qualquer decisão tomada hoje na infraestrutura portuária e ferroviária só vai repercutir daqui a oito anos. Então, para nós, esses projetos de médio e longo prazo são extremamente importantes. Entendo que nós precisamos ter uma posição mais clara quanto à geração do desenvolvimento econômico. O social é pago pela vaga de trabalho. Então quanto mais vagas de trabalho de alto valor agregado, mais nós vamos ter recursos para fazer um social bem-feito. Eu acho que nós precisamos achar uma forma de potencializar isso.
Tribuna: Como?
Edson: Quanto mais empresas, mais há uma guerra saudável pelo colaborador e mais você tem capacidade de aumentar os dois. O problema é quando você concorre pelo colaborador e um tenta tomar o colaborador do outro, gerando pressão inflacionária salarial — mas ele continua trabalhando na mesma máquina. Esse aumento aqui vai levar ao aumento de preço na gôndola. Então, na inflação, se ele ganhou R$ 1 aqui, perdeu R$ 2 na gôndola. Se a gente consegue melhorar a performance da produtividade, nós vamos gerar deflação na gôndola. Nós precisamos achar uma forma de melhorar a performance das empresas por meio da produtividade.
Tem um trabalho que é da “porteira para dentro”, que é a melhora da performance do próprio empresário: colocá-lo na mesa com o mercado exterior, trazer rodadas de negócios, compradores de fora, melhorar a cultura empreendedora. A outra coisa é o ambiente. Então nós precisamos destravar o interesse do empreendedor cada vez mais. Ter novas empresas, empreender e trazer valor agregado aos nossos empregos.

Tribuna: Como evitar que a alta carga tributária das indústrias repercuta no bolso do trabalhador?
Edson: O Estado precisa gastar melhor. Nós precisamos que o “conjunto estado” gaste bem. Temos que achar uma forma para que o servidor público e os cidadãos na ponta percebam o estado com mais competência. Então, quando nós falamos do mundo digital e de IA, isso tem que ter um reflexo no poder público também. E quando nós falamos em isso ter reflexo aqui, não é demitir pessoas ou cortar o tamanho da folha. Não é isso. É melhorar a performance do atendimento.
Tribuna: E cortar, se necessário?
Edson: Com certeza. O que é dispensável, o que é excesso, não tem nem questionamento. É como o Bolsa Família: fraude se combate, não se discute. Desperdício se corta. Mas há sempre um receio quando nós falamos sobre gastar melhor. Gastar melhor é conseguir fazer com que o cidadão veja que o serviço para ele está melhor, com menos estrutura e menos cargos comissionados.
Tribuna: Seria ele não sentir que está pagando menos imposto, mas que o dinheiro está sendo melhor aplicado?
Edson: Pois é, mas essa melhora da performance digital na ponta do atendimento tem que ser percebida. O Paraná já é um dos estados que têm os maiores índices de migração dentro do país. Santa Catarina é o campeão brasileiro hoje em ato migratório; nos últimos anos recebeu cerca de 300 mil pessoas. Nós temos um saldo de 80 mil. O bônus demográfico é favorável, mas para a economia é ruim quando você tem sobra de pessoas sem trabalho, vivendo do Estado. A pior coisa para um pai ou uma mãe é ver o filho ter que sair de casa porque não tem oportunidades. A indústria pode colaborar se a política industrial for boa. A indústria distribui renda, não é aquele monstro que as pessoas pintavam. Ela é tecnológica e paga os melhores salários. A guerra mundial que nós estamos vivendo entre Estados Unidos e China é pela capacidade de manter a sua indústria. Todo mundo já entendeu que a indústria é um dos grandes pilares da economia.
Tribuna: Qual o projeto que a FIEP desenvolve que mais causou impacto nesta gestão?
Edson: Eu acho que o Observatório do Pedágio é um grande projeto. Ele trouxe resultados robustos para a economia paranaense, na ordem de R$ 9,5 bilhões.
Tribuna: De onde vieram esses resultados?
Edson: A luta da federação foi para que não houvesse a outorga no leilão e que não houvesse limite de desconto, que era de 17%. Nós conseguimos quebrar essas duas travas. A quantidade de desconto acima dos 17% gerou uma economia na ordem de R$ 7,5 bilhões. A diferença veio dos depósitos de outorga que ficaram no Paraná e não foram para o governo federal. Outra coisa que nós fazemos é uma vigilância plena, porque não é só a promessa da melhor concessão; é um contrato que tem que ser acompanhado para ser cumprido. O Observatório do Pedágio faz um trabalho de acompanhamento muito de perto e isso, para nós, é uma força da qual o estado deveria se apropriar.
Tribuna: E aquela polêmica do custo exagerado com os serviços de jardinagem da FIEP?
Edson: Totalmente resolvido. No dia em que a notícia foi trazida, nós já soltamos uma nota com auditoria dizendo que não eram R$ 53 milhões, eram R$ 3 milhões. Mas é visível que foi um movimento político contra a possibilidade do meu nome ser colocado como pré-candidato. Percebemos que a democracia funciona em paz apenas para alguns.
Tribuna: Está preparado para entrar nisso? Política não é para qualquer um.
Edson: Eu acredito na nossa contribuição nesse processo democrático de debater boas ideias. Quem está na vida pública ou no poder público também tem que estar aberto para ponderações e para críticas construtivas. Nós nunca levamos críticas que não fossem construtivas ou que não tivessem uma solução agregada. Acredito que vamos colaborar muito com o processo democrático.




