Governo do Paraná

Lula reeleito e Moro governador: como fica a relação entre Paraná e governo federal

Fotografia composta por dois painéis verticais dispostos lado a lado, retratando Luiz Inácio Lula da Silva e Sergio Moro em contextos institucionais distintos. Em primeiro plano, no painel da esquerda, Lula aparece em plano médio, vestindo um fato cinzento, camisa social branca e gravata clara estampada, enquanto segura um microfone com a mão direita e sorri ligeiramente com o olhar voltado para a direita. Ao fundo, observa-se uma parede azul lisa. No painel da direita, Sergio Moro surge em plano médio, vestindo um fato azul-escuro, camisa social branca e gravata azul, com uma expressão séria e o olhar fixo para a frente. Ao fundo, o ambiente sugere um plenário ou auditório institucional com iluminação difusa.
Especialistas indicam que a interlocução deve acontecer entre ambos os governos. Foto: Ricardo Stuckert e Jefferson Rudy/Agência Senado.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente neste domingo (26), com 51,79% dos votos válidos no país. No Paraná, Flávio Bolsonaro (PL) venceu a disputa presidencial nos dois turnos. Embora Lula tenha ampliado sua votação no estado em mais de 511 mil votos entre as duas etapas, terminou o segundo turno com 37,42% dos votos válidos, contra 62,58% do adversário.

No primeiro turno, Sergio Moro (PL) foi eleito governador do Paraná, com 50,10% dos votos válidos. A partir de 2027, o Paraná será governado por uma das principais figuras de oposição a Lula, cenário que levanta questionamentos sobre como será a relação com o governo federal e se haverá possíveis retaliações políticas.

Ex-juiz da Operação Lava Jato, Moro mantém um histórico de antagonismo político e jurídico com Lula, marcado pelos processos que levaram à prisão do petista em 2018 e pela posterior anulação das condenações e declaração de parcialidade de Moro pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Com os representantes escolhidos, a relação entre o governo paranaense e a administração federal será importante para a articulação de investimentos, a continuidade de obras e a execução de políticas públicas que dependem de recursos da União, apesar das divergências políticas entre os dois governos.

Em manifestação após o resultado das urnas, Moro afirmou que “a maioria expressiva dos paranaenses se posicionou contra Lula” e disse que o desfecho nacional não correspondeu às expectativas. O governador eleito também mencionou questionamentos da oposição que, segundo ele, precisam ser esclarecidos. Apesar das críticas, declarou que seu compromisso será fazer do Paraná um estado de oportunidades, desenvolvimento e esperança.

Resultado segue tendência nacional

Para o professor e economista José Pio Martins, ex-reitor da Universidade Positivo (UP), a reeleição de Lula pode ser explicada, em parte, pela dificuldade de derrotar um presidente que já está no poder. Mesmo com um resultado diferente do indicado pelas pesquisas eleitorais, o desfecho segue uma tendência da política brasileira, marcada pela preferência por candidatos conhecidos.

“Considerando o tamanho e a complexidade do Brasil, além de ser um país em que a sociedade depende muito do setor estatal, é muito difícil derrotar um candidato que já está no poder e disputa a reeleição”, afirma. Martins também destaca que essa preferência não está necessariamente ligada a uma posição ideológica. “O brasileiro é conservador e não estou falando de esquerda ou de direita, mas da tendência de apostar naquilo que já conhece.”

Além das medidas anunciadas pelo governo na reta final da campanha, na análise do jornalista e economista João Zisman, colunista da Tribuna do Paraná, outro fator importante foi a mobilização dos eleitores ao longo da disputa. Segundo ele, o resultado do primeiro turno surpreendeu parte do eleitorado e contribuiu para intensificar a participação na etapa final. 

O crescimento da votação de Lula no Paraná, mesmo em um estado de maioria eleitoral conservadora, mostra que o cenário político local não é homogêneo. O resultado nacional, porém, não representa necessariamente um enfraquecimento da direita no Paraná. 

Revanchismo e composição

Apesar das divergências políticas entre Lula e Moro, a articulação entre os governos federal e estadual será necessária para garantir investimentos, dar continuidade a obras e viabilizar políticas públicas que dependem de recursos da União. Para José Pio Martins, a própria estrutura federativa brasileira exige essa interlocução.

“No Brasil, temos um Estado nacional muito poderoso e os 26 estados, além do Distrito Federal, com autonomia bastante limitada em relação à União. É uma federação pela metade. Isso significa que precisa haver relações entre os estados e o governo federal. Não há como ser diferente”, aponta.

Segundo o professor, o Paraná mantém relações com instituições como BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, além de participar de projetos desenvolvidos em conjunto com o governo federal. Moro, portanto, terá de estabelecer interlocução com a administração de Lula para garantir a continuidade dessas relações.

Para o jornalista João Zisman, colunista da Tribuna do Paraná, uma eventual disputa pessoal não deveria prejudicar os interesses do estado. Embora considere improvável uma relação próxima entre Lula e Moro, ele avalia que as equipes dos dois governos podem manter o diálogo institucional.

Composições partidárias e apoio às lideranças

O presidente estadual do PT, Arilson Chiorato, rejeita a possibilidade de revanchismo contra a população paranaense. Apesar das críticas a Moro e ao campo político que ele representa, Chiorato afirma que o estado não será discriminado pelo governo federal. “Mesmo que Sergio Moro seja governador, vamos tratar bem o povo paranaense. Não haverá discriminação contra o estado. Vamos tocar a vida”, declarou.

O dirigente petista avalia que o Centrão deverá continuar participando do governo federal, como ocorreu em administrações anteriores, enquanto setores mais radicais do PL podem acabar isolados. Para ele, a vitória de Lula consolida o resultado das urnas e abre espaço para que os partidos se reposicionem politicamente.

A articulação entre partidos também poderá aproximar os governos federal e estadual. Na avaliação de Zisman, nomes como o deputado federal Ricardo Barros (PP), o ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca e o ex-senador Álvaro Dias são possíveis elos entre o Palácio Iguaçu e Brasília. Ratinho Junior também poderá contribuir para a interlocução, a depender dos próximos movimentos políticos.

À Tribuna do Paraná, Ricardo Barros afirma que cabe a Moro organizar seu grupo de apoio e escolher aliados com capacidade de diálogo com o governo federal. “O cenário do Paraná é responsabilidade do Sergio Moro. Cabe a ele construir suas alianças aqui no Paraná. É ele quem deve estabelecer, em seu grupo de apoio, pessoas que tenham boa interlocução com o governo federal”, declarou.

Barros diz não prever dificuldades para a continuidade de obras ou para a conquista de novos investimentos, desde que prevaleça uma relação institucional entre os governos. O deputado defende que as divergências políticas não devem impedir a cooperação entre as administrações.

“Quem elege o prefeito é o povo; quem elege o presidente é o povo; quem elege o governador é o povo. A saúde tem financiamento tripartite, assim como a educação. Cabe a nós termos civilidade e mantermos uma relação institucional para resolver os problemas da população”, afirmou.

A articulação política também passa pelas prefeituras, que terão papel relevante nas eleições municipais de 2028. Na avaliação de Zisman, a presença do PSD e do MDB nas administrações municipais dá força a essas siglas e pode influenciar os próximos alinhamentos. 

Segundo ele, os prefeitos não precisam definir imediatamente de que lado estarão: poderão avaliar os resultados dos governos federal e estadual antes de tomar decisões, enquanto a capilaridade dos partidos nos municípios seguirá como um fator importante para a disputa política.

Além de administrar a relação com Lula, Moro terá de transformar capital eleitoral em capacidade de gestão. Zisman observa que o governador eleito ainda não tem experiência direta na administração pública e terá pela frente um estado com 399 municípios e uma economia diversificada. A associação com a Lava Jato ajudou a consolidar a imagem política de Moro, mas a gestão estadual exigirá resultados e habilidade para negociar com diferentes forças.

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