Lucimar do Carmo / GPP

Segundo o Dnit, a sinalização e os mecanismos de segurança serão entregues até o mês de novembro.

?50 anos de espera, graças a Deus chegamos ao final?, comemora o chefe de gabinete da prefeitura de Bocaiúva do Sul, Élcio Berti, que para chamar a atenção federal para os problemas da Estrada da Ribeira, BR-476 que liga Curitiba a Adrianópolis, foi 15 vezes para Brasília, fechou a estrada com pedágio, arrecadando R$ 36,50, quantia que fez questão de enviar ao Ministério dos Transportes, além de colocar uma bomba de chimarrão na BR-116 e criar um oviniporto. ?Não foi fácil?, comenta.

Enfim, os 94 quilômetros de asfalto, que faltavam entre Bocaiúva a Adrianópolis e começaram a ser feitos em agosto de 2000, foram concluídos. Somente a pavimentação. Segundo o Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes (Dnit), eles ainda têm até novembro para entregar a obra com sinalização e demais mecanismos de segurança previstos, o que não inclui, segundo o Dnit, acostamento. O custo total da obra fica em cerca de R$ 53 milhões. ?Fizemos a pavimentação e estamos trabalhando no alargamento, reforço e passagem de pedestre de algumas pontes?, afirma o engenheiro do Dnit, Celso Ribeiro.

Agora que a Estrada da Ribeira está completa, será que, do Trevo do Atuba a Adrianópolis, passando por Bocaiúva e Tunas do Paraná, os usuários estão satisfeitos com a via? A reportagem de O Estado, percorreu esses 121 quilômetros da BR-476, para conferir como está a estrada. Logo no início, a situação é complicada: a estrada começa sem faixa, sem sinalização nem acostamento e o asfalto apresenta ondulações e buracos mal-resolvidos. Há, ainda, uma ponte em estado alarmante, onde, segundo moradores, um caminhão já caiu por não tê-la notado. ?O trânsito está congestionado, da forma que perdemos em qualidade de vida, acesso e segurança?, afirma o prefeito de Colombo, José Camargo (PPS).

Em Colombo, o ponto crítico é alcançado no Alto do Maracanã. ?Diversas vidas perdidas ali. É um risco muito grande. Já é problema de muito tempo e nos últimos dez anos vem acentuando?, completa o prefeito. O comércio e os motoristas perdem e os pedestres nem sequer conseguem atravessar. ?Aqui todo dia acontece acidente. O maior problema é que não tem sinaleiro e é muito estreito para o fluxo de carros que tem?, aponta o motorista, José Forconde, 47 anos. ?Para atravessar a rua é uma complicação. Os carros vêm em alta velocidade, falta acostamento, lombada ou passarela. Faz 18 anos que vejo isso assim?, comenta Iara Aparecida, 35 anos, ao tentar atravessar.

Apesar de todas as dificuldades, no trecho entre Colombo e Bocaiúva do Sul, há quem lucre com as perdas. ?Vem dois,três caminhões por dia trocar as molas, que custam de R$ 150, 200 a R$ 700?, revela Pedro Sachena, 32 anos, mecânico em um posto de molas na beira da estrada.

Os problemas são muitos, mas a solução é simples. ?A duplicação e um conjunto de obras que facilitem e tragam segurança. A expectativa é que aconteça o quanto antes?, pede Camargo. Como informa o prefeito, a duplicação seria realizada pelo governo de Estado, há ordem de serviço dada na última terça, em duas etapas: a primeira até o Alto Maracanã e a obra completa até o Contorno Norte.

Muitas ondulações entre Colombo e Bocaiúva do Sul

?O asfalto para cá (Adrianópolis) agora ficou melhor, apesar de não ter acostamento, mas para lá (Colombo), até a Roseira, é horrível?, afirma Jamil Airton Santos, 56 anos, motorista de táxi em Bocaiúva do Sul.

A estrada segue, de Colombo a Bocaiúva, com ondulações. Para tentar fugir do problema, os carros trocam de pista, à procura da ?menos pior?. Além das ondulações e do acostamento ausente, outro problema do trecho é o mato que invade a pista.

?Está sem roçar à beira da estrada, faz mais de anos. Eu tenho medo de andar na beira da estrada, não tem lombada nem acostamento e o dia todo passa caminhões e carros, um podando o outro. Mas minha filha mora ali na frente e sempre atravesso com meus netos até lá?, conta Terezinha Carons, de 56 anos, moradora do quilômetro 34 da Estrada da Ribeira. Além dela, muitos moradores, a pé, a cavalo ou de bicicleta, têm a mesma dificuldade.

O dono de uma pousada, no quilômetro 50, teve de pedir para os empregados limparem o mato que cobria a pista. ?Para deixar melhor a recepção. A estrada estava trancada de terra, mato e água. Acho que a responsabilidade é do governo, mas…?, comenta Leonardo Ribeiro, um dos funcionários, de 19 anos.

Saindo da cidade em direção a Tunas o asfalto já fica bem melhor, mas é uma curva sobre a outra com pouca sinalização e difícil visibilidade, uma situação que também preocupa. ?Há um mês e meio, nessa curva aqui na frente, dois caminhões e dois carros pequenos caíram, na mesma semana. Precisamos tirar esse barranco (aponta) para garantir mais visão, seria uma segurança para todos, não sei porque não liberam?, comenta o dono de uma mercearia no quilômetro 30, Joãozinho Veiga. (NF)

No trecho final a sinalização é satisfatória

No trecho entre Tunas e Adrianópolis, a sinalização sai de traz do mato, que agora está mais limpo, e fica mais visível, assim como as recentes faixas. Somente na parte mais nova é que ainda não há esses elementos. Os moradores lembram das dificuldades da época em que o asfalto não os alcançava, comemoram o acontecimento que esperavam há anos e falam de alguns empecilhos que vieram com o asfalto.

?Muitas vezes acontecia da ambulância ficar na estrada. Era triste. Agora a gente nem acredita, mas a carona ficou difícil porque aumentou o movimento e as pessoas que agora passam aqui vêm de outro lugar e não conhecem a gente então não param?, afirma Rosilda Zonato, 43 anos.

Entre muitos problemas, de poucos anos atrás, as professoras falam do fato de os alunos terem ficado, várias vezes, no barro da estrada. E o dono de um bar, em Adrianópolis até colocou fotos do caos na parede do estabelecimento. ?O período mais crítico foi de 2000 até 2005. Teve agricultor que era potência e que acabou vendendo tudo e desistindo por conta da estrada ?, afirma o dono do bar, Sinval Barbiot, 40 anos.

O prefeito, Osmar Maia (PMDB), está satisfeito, mas não esquece as perdas. ?O Vale estava esquecido, depois de 43 anos o asfalto foi feito. O trânsito aumentou quase 30%, estamos abertos para indústrias e investimento e o ônibus para Curitiba já tem mais dois horários. Se Deus quiser agora vamos crescer. Antes não dava, perdemos uma grande empresa de chumbo e a população, não tinha emprego. Antes havia 15,5 mil habitantes, hoje estamos com 7,5 mil. Acho que nem todos voltam, mas vai melhorar?, anima-se o prefeito. (NF)

Na divisa de Tunas do Paraná falta visibilidade

O asfalto de fato ficou bem melhor, mas o movimento de bitrens é intenso. No limite entre Bocaiúva e Tunas do Paraná, o perigo aparece em áreas de visibilidade complicada. ?A estrada está boa, mas malsinalizada. Você precisa parar por uma emergência, mas não tem acostamento. Tem lugar que o mato cobre e a visibilidade é péssima?, afirma o motorista de um bitrem que transporta madeira, Adriando Barrado, 26 anos.

Apesar de os problemas existirem, os moradores de Tunas do Paraná têm mais o que comemorar. ?Era terrível quando não tinha asfalto. Ficava liso quando chovia e na seca era pó. Não tinha movimento, o pessoal não passava, não tinha como transitar. Agora, o movimento já melhorou bem e a gente lucra com isso?, conta o funcionário de um posto em Tunas, Eduardo Oneda dos Santos.

A prefeitura também celebra a ?nova? conquista. ?Até nós o asfalto chegou há dois anos. Esse agora só falta a sinalização e outros acabamentos, lombadas. Com certeza Tunas e Adrianópolis ganha. Não só facilita o acesso como trará empresas e melhor será explorado o turismo na região?, afirma a prefeita Nalinez Zanon (PFL).

Como informou a prefeita, por conta do asfalto, o Parque das Lauráceas, segundo ela o maior parque em área de mata atlântica, vai ser reaberto e inserido no roteiro turístico da cidade. A estrada também fez com que Tunas do Paraná ganhasse um posto de Polícia Florestal, onde funcionará também a Polícia Rodoviária Federal. ?Agora pediremos ao Estado apoio e suporte para desenvolver o potencial do município. Quando o asfalto passou por Tunas, segundo o IBGE, havia 3.611 habitantes. Hoje essa população beira os 12 mil, tudo devido ao acesso. Abriram-se caminhos para nós. A vida chegou ao Vale do Ribeira?, comemora a prefeita. (NF)