Falta de luz

Energia elétrica instável ameaça produção e gera prejuízos no interior do Paraná

Oscilação de energia provoca prejuízos em propriedades do interior.
Oscilação de energia provoca prejuízos em propriedades do interior. Foto: Pedro Riffel / colaboração / arquivo

As quedas e oscilações de energia elétrica têm provocado prejuízos que chegam a milhares de reais por dia para produtores do interior do Paraná. Além das perdas na produção, quem depende de equipamentos elétricos precisa recorrer a geradores para manter as atividades funcionando, assumindo custos extras com combustível e manutenção.

O problema não se resume a episódios isolados. Em julho de 2026, a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Sistema FAEP) encaminhou uma representação ao Ministério Público do Paraná (MPPR) e ao Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) para pedir a apuração da qualidade do serviço prestado pela Companhia Paranaense de Energia (Copel). Segundo produtores, a situação é recorrente há anos.

As perdas envolvem principalmente a pecuária paranaense, que depende da energia elétrica para manter os sistemas de produção em funcionamento. No primeiro semestre de 2026, quedas de energia provocaram a morte de mil frangos prontos para o abate em um único dia nos aviários Riffel. O local recebe cerca de 65 mil aves a cada dois meses e, quando os sistemas de exaustores e comedouros param, os frangos podem sufocar devido ao calor.

Em fevereiro, quedas de energia também fizeram com que um produtor de Tupãssi, no Oeste do Paraná, tivesse um prejuízo estimado em R$ 9 milhões com a perda de 900 mil quilos de tilápia. Os aeradores, equipamentos responsáveis pela oxigenação da água dos tanques, queimaram devido às oscilações de energia, provocando a morte dos peixes.

“Há anos o Sistema FAEP cobra a Copel em relação à necessidade de serviços e investimentos que garantam estabilidade no fornecimento de energia elétrica, manutenção adequada da rede e atendimento compatível com a urgência das atividades rurais. Em cadeias como piscicultura, avicultura, suinocultura e bovinocultura de leite, poucas horas sem energia provocam mortalidade de animais, descarte da produção e gastos elevados com geradores”, afirma o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.

Chuvas impõem riscos aos produtores

O cenário voltou a chamar atenção após as chuvas do início de setembro, quando 180 mil unidades consumidoras ficaram sem energia no Paraná entre segunda-feira (31) e terça-feira (1º). Até quinta-feira (3), cerca de 2 mil unidades em áreas rurais ainda aguardavam o restabelecimento do serviço, principalmente na região Centro-Sul, de acordo com a Copel.

Um dos afetados pela falta de energia foi o piscicultor Claus Lemmertz, de Marechal Cândido Rondon. Durante o período de chuvas, um cabo se rompeu e deixou a propriedade sem luz, aumentando a pressão sobre os geradores utilizados. Mesmo após visitas das equipes da Copel, segundo ele, o problema não foi solucionado.

“A Copel demorou para fazer a manutenção e, na hora de voltar a energia, uma chave ficou aberta. Boa parte dos produtores ficou sem energia a noite inteira por causa dessas chaves e teve gasto com óleo diesel por causa de um serviço mal atendido”, relatou.

Meses atrás, por causa das oscilações, Lemmertz teve um prejuízo estimado em R$ 4 mil após um de seus geradores estragar. Atualmente, o piscicultor mantém dois equipamentos, cada um com consumo aproximado de 25 litros de diesel por hora. Se precisar manter os dois geradores ligados durante 24 horas, o gasto extra chega a R$ 7,8 mil por dia.

“Cheguei ao ponto de tirar o gerador da automação. Na hora que acabar a energia, vou ter que ir lá e eu mesmo fazer a mudança, porque tem muita oscilação”, disse. “Isso já não é um problema de meses, já são anos que está ruim. Desde que a Copel foi privatizada, não é mais como era uma vez.”

Solução é demorada

Segundo o piscicultor, além das quedas de energia, outro problema é a demora para solucionar as ocorrências. “Uma coisa que se podia resolver em 15 minutos vai três ou quatro horas, até que eles conseguem resolver. Até as equipes que vêm fazer manutenção se queixam”, completa.

Em Porto Amazonas, nos Campos Gerais, Felipe Oliva também ficou sem luz durante o período. A propriedade manteve a energia em 220 volts, mas perdeu a fase necessária para o funcionamento dos equipamentos em 110 volts. O transtorno era causado por um detalhe aparentemente simples: um parafuso solto na conexão do transformador. Mesmo assim, o reparo só ocorreu depois que o produtor encontrou, por acaso, uma equipe da Copel que atendia outra ocorrência nas proximidades.

Após 48 horas sem o atendimento das equipes técnicas, Oliva descobriu, por meio de um agente que atuava na região, que seu protocolo sequer estava registrado no sistema. Se não tivesse questionado o funcionário, segundo ele, o problema provavelmente não teria sido resolvido.

Produtor de gado e de culturas de grãos, Oliva depende de energia elétrica para conservar medicamentos e sêmen utilizado na inseminação artificial. Para evitar perdas durante a interrupção mais recente, chegou a conectar a geladeira ao carro e utilizá-lo como fonte de energia. Dessa vez, segundo ele, não houve perda material.

Apesar de não ter registrado prejuízo mais recente, Oliva relata um histórico ainda mais antigo de problemas. Durante a pandemia, enfrentou uma interrupção de aproximadamente 36 horas, em um período de verão. Na ocasião, a falta de energia comprometeu a conservação de medicamentos e vacinas. Além disso, o produtor afirma já ter perdido uma bomba d’água, uma câmera de segurança e um roteador da Starlink por causa de oscilações na rede.

Para o produtor, a dificuldade não está apenas na interrupção do fornecimento, mas também na falta de uma explicação técnica sobre as oscilações que atingem a propriedade. Segundo ele, já recebeu orientações para investir em equipamentos de proteção, como no-break, gerador e dispositivos contra surtos elétricos.

A avaliação, no entanto, é de que o custo acaba recaindo sobre o consumidor para compensar um problema que deveria ser solucionado pela própria rede. “Eu pago a conta da Copel em dia. Eu só queria que a energia viesse e, quando ela não venha por alguma razão, seja rápida a retomada do sistema e, quando ela venha com alguma oscilação, não seja algo que frite meu equipamento”, avalia.

Sem luz há quase uma semana

Moradores do Patrimônio do Caratuva, entre Ibaiti e Arapoti, no Norte Pioneiro, relatam que estão sem energia elétrica desde 29 de agosto, depois que uma chuva leve atingiu o local.

Um dos afetados, o morador Paulo Barbosa, conta que já perdeu diversos alimentos congelados. Como a localidade é predominantemente rural, ele explica que é costume das famílias manter estoques em geladeiras e freezers, já que a ida a supermercados não é frequente. Barbosa afirma que fez mais de dez ligações para a Copel no período, além de ter enviado e-mails, mas ainda não obteve previsão de retorno do serviço na região.

Copel afirma que trabalha nos religamentos

Em nota enviada à Tribuna do Paraná, a Copel informou que estão sendo realizados serviços de campo para o restabelecimento da energia nas regiões listadas.

“Nessas localidades, os religamentos estão sendo feitos de forma gradativa com a realização de manobras técnicas e serviços de recomposição de cabos rompidos, substituição de postes e troca de equipamentos. A região está entre as mais afetadas pelos efeitos dos temporais recentes, com ventos fortes, chuvas, granizo e descargas elétricas, que derrubaram árvores sobre as linhas, ocasionando quebras de postes e de equipamentos da rede elétrica”, afirma a empresa.

De acordo com a Copel, os temporais do início desta semana causaram danos severos à rede elétrica em todas as regiões do Paraná, somando 638 postes quebrados, grande extensão de cabos rompidos e equipamentos destruídos. “No momento mais intenso dos eventos climáticos, na noite de segunda-feira (31), cerca de 180 mil consumidores ficaram desligados em todo o Paraná. Em trabalho contínuo, as equipes da Copel reduziram ao máximo o número de interrupções e seguem os trabalhos até o religamento de todos os clientes”, finaliza.

A Companhia também afirma que em alguns lugares há dificuldades de acesso.

Vídeo: Copel

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