A experiência vivida por um casal curitibano mostra como pode ser difícil a tentativa de ajudar uma criança em situação de risco social. Comovidos com a condição de um garoto de 13 anos, que passava fome nas ruas do centro, Maja da Rosa e Diego de Assis tentaram levá-lo de volta à família, o abrigaram e o entregaram a uma assistente social da prefeitura. Mas poucas horas depois, voltaram a encontrar o menino sozinho na rua.

A história aconteceu entre os dias 19 e 20 deste mês e deixou o casal revoltado. Maja relatou o caso nas redes sociais, cobrando providências do poder público, e entrou em contato com o Paraná Online para denunciar o ocorrido. “Não quero apenas resolver a situação dele, mas fazer um apelo a nossa sociedade para que cuidemos mais das nossas crianças”, escreveu.

Tudo começou quando Diego caminhava pela Praça Tiradentes, na noite de sexta-feira (19). “A criança pediu o salgadinho que ele estava comendo. Ele deu e resolveu pagar um cachorro quente, pois ele deveria estar com fome. Conversando com ele, viu que estava com frio e meio desorientado e se dispôs a acompanhá-lo até em casa, pois era em torno de 22h. O garoto estava retraído, com muito medo e receio dos adultos”, conta Maja.

A partir daí, segundo o relato de Maja, a coisa começou a ficar mais complicada do que aparentava. “O menino levou o Diego até um prédio que não condizia com sua realidade. Estava tudo escuro e ele disse que sua mãe tinha saído e que iria esperar ali fora. Meu marido percebeu que havia algo errado e convidou a criança para vir passar a noite em nossa casa”.

Fujão

Na manhã seguinte, Maja levou o garoto à Delegacia da Mulher, onde descobriu que ele era uma criança já “institucionalizada”. Ou seja, o menino deveria estar vivendo em um abrigo, sob a tutela do município. “Fiquei aguardando a Kombi da Fundação de Ação Social (FAS) e conversamos muito. Ele disse que o pessoal que cuidava sabia apenas brigar com eles. Comovida e revoltada, me comprometi a apadrinhá-lo para acompanhar de perto o que estava acontecendo. Fiz ele me prometer que não ia fugir mais, pois assim eu saberia onde encontrá-lo”.

Maja conta que o carro da FAS, com uma assistente social, chegou por volta das 10h30. “Ele entrou no transporte de forma calma e o levaram embora. Em torno de 16h eu estava no centro e vi que esta mesma criança estava na rua novamente! Não consegui alcançá-lo para perguntar o que ocorreu, pois ele sumiu no meio da multidão. Como uma criança entregue a uma assistente social está de novo na rua poucas horas depois? Por que prefere passar frio e fome do que ficar na instituição?”, questiona.

Ninguém é mantido no abrigo da FAS contra a vontade

Em busca das respostas para o questionamento do casal, o Paraná Online entrou em contato com a Fundação de Ação Social (FAS), que respondeu através de nota oficial. “O adolescente em questão é abrigado na Unidade de Acolhimento Institucional Casa do Piá, por determinação judicial. No entanto, o jovem frequentemente se evade do local por iniciativa própria, devido ao forte vínculo estabelecido com a situação de rua”, informa o comunicado.

Segundo o órgão público, não é possível segurar a criança na instituição. “As unidades de acolhimento institucional não são equipamentos de privação de liberdade, tampouco local destinado para cumprimento de medida socioeducativa. Não podem, portanto, manter ninguém em acolhimento contra sua vontade”.

A FAS revela ainda que a Casa do Piá atende 25 crianças e adolescentes e apenas dois menores têm histórico de fugas. Também orienta para que todo cidadão que encontrar uma criança ou adolescente em situação de rua, de negligê,ncia familiar, vítima de maus tratos ou de abuso ou exploração sexual, que denuncie ao Conselho Tutelar, ao Nucria (Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente),  ao telefone 156, da prefeitura, ou ao Disque 100, o número nacional para denúncias de abuso e exploração de menores