Os caminhos perseguidos pela China levaram-na a ser um país de sistema político e econômico híbrido, aquele ainda bastante atrasado e este em franco desenvolvimento. O país mais populoso do mundo foi, por décadas, uma dura e fechada ditadura comunista, em que tudo era proibido, a não ser que fosse expressamente permitido, regra que aliás sempre regeu a maioria dos países de regimes totalitários.

No Brasil do passado, a regra era “para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei”. Na China foi sempre o chamado puritanismo marxista para os amigos e, para os inimigos, a prisão ou a morte. Até mesmo a liberdade de pensamento e criação intelectual, já para não falar na de expressão, foram duramente coibidas durante a chamada Revolução Cultural. Esse sistema político refletia-se e era também reflexo da política econômica fechada, os meios de produção nas mãos do Estado. A economia marxista não deu certo. Fracassou, mesmo aqueles países que tanto se esforçaram e alguns ainda se esforçam, através de falsa propaganda, exibindo inexistentes progressos. A China partiu para novos caminhos. Continuou a ditadura política comunista, levemente amainada. Mas na economia, até pragas virulentas, como a Coca-Cola e o McDonald?s, foram admitidas. Hoje, a economia chinesa é quase capitalista, com a presença de capitais privados nacionais e estrangeiros. Há economia de mercado, reluzem os luminosos, surgem os outdoors e até a invasão de música ocidental de má qualidade e amplos resultados econômicos.

Uma boa hora para Lula e uma gigantesca comitiva oficial e de empresários ir procurar os negócios da China. Afinal de contas, a economia do gigante do Oriente vem crescendo quase 10% ao ano e, mesmo agora em que se fala em reduzir esse ritmo, para evitar inconveniente inflação, parece que se contentarão com algo em torno de 7 ou 8%. Um espetáculo do desenvolvimento, como aqui se sonhou.

Mal chegou a Pequim a comitiva brasileira e já se anunciaram 24 acordos comerciais e científicos entre Brasil e China, sendo dez memorandos de intenção entre os dois governos e 14 acordos entre empresas privadas.

Isso tudo não aconteceu em tão poucas horas de “jet leg”, pois já estavam encaminhados. Mas a presença da comitiva brasileira presidida por Lula pode consolidar esses entendimentos e ampliá-los, tornando a China um terreno melhor conhecido e, no futuro, mais bem explorado pelo nosso empresariado privado e estatal.

O prestigioso jornal Financial Times, de Londres, viu nessa invasão brasileira na China “uma mudança para a América (do Norte) no seu próprio quintal”. Bush, preocupado em matar muçulmanos no Iraque e com a própria reeleição, estaria de olhos fechados para o surgimento de um novo bloco econômico de dois gigantes, Brasil e China. E a China poderia transformar-se, breve, no segundo maior parceiro comercial brasileiro, desbancando a Argentina e, obviamente, reduzindo o papel que em nosso comércio exterior exercem os Estados Unidos da América. A cogitação do jornal não é absurda. Mas só vale se beneficiar todos os brasileiros. Se não, estaremos consolidando uma democracia política. Nossa economia continuará, como agora, longe de ser democrática. Nos gabaremos de liberdades políticas e do direito inalienável de ver um terço da nossa população passando fome. O negócio da China tem de ser para todos os brasileiros.