O papa Francisco criticou a “opressão, maus tratos e humilhação” dos povos indígenas durante uma missa ministrada em espanhol e outros três idiomas maias – tzotzil, tzeltal e ch’ol – nesta segunda, dizendo que o mundo tem muito a aprender com a cultura local.

“Seus povos, como os bispos latino-americanos reconheceram, sabem como interagir harmoniosamente com a natureza”, disse Francisco.

“No entanto, em muitas ocasiões, de forma sistemática e organizada, seus povos foram mau entendidos e excluídos da sociedade”, disse o pontífice em uma arena esportiva para mais de 100 mil pessoas. “Alguns consideram seus valores, culturas e tradições inferiores. Outros, intoxicados pelo poder e pelo dinheiro, roubaram suas terras ou as contaminaram. Como isso é triste!”, completou.

A cerimônia foi uma celebração da herança multicultural mexicana. Ela incluiu dançarinas em vestidos maias bordados, dançando ao som de violino; crianças nativas em ponchos escuros e uma banda de marimba; e mestiços em trajes urbanos que cantavam canções religiosas acompanhadas de um violão.

O evento aconteceu no Estado de Chiapas, um dos mais pobre do país e também onde as religiões protestantes tiveram maior penetração na população.

Francisco, que tem chamado a atenção para a realização de missas para povos nativos das Américas, emitiu um decreto autorizando o uso de línguas nativas na liturgia, parte da tentativa da igreja de impulsionar seus esforços missionários entre os habitantes da região. Cerca de 1,1 milhão de pessoas no estado falam em línguas locais, de acordo com dados do governo mexicano.

“Para a igreja, para a sociedade, os povos indígenas não podem continuar marginalizados”, disse Felipe Arizmendi, bispo de San Cristóbal, uma cidade colonial que foi batizada em homenagem ao bispo que, no século 16, defendia os nativos contra a opressão dos conquistadores espanhóis.

Durante a cerimônia, o papa recebeu duas bíblias, as primeiras traduzidas em tzotzil, uma das línguas maias, e em nahuatl, o idioma dos astecas.

A cidade de San Cristóbal é também onde serviu o bispo Samuel Ruiz, que durante muito tempo recebeu críticas de outros setores da igreja por seu ativismo em favor dos povos descendentes dos maias. Alguns de seus críticos dizem que Ruiz ultrapassou os limites ao ser um dos protagonistas da teologia da libertação – corrente cristã influenciada pelo marxismo e que pregava que a liberação da injustiças sociais e políticas deveria ser o primeiro objetivo da religião.

Em 1990, muitos dentro do governo mexicano e na igreja associavam a atividade do bispo Ruiz em comunidades indígenas perto de San Cristóbal pelo nascimento do movimento Zapatista.

Espera-se que Francisco homenageie a memória de Ruiz durante sua visita. Fonte: Dow Jones Newswires.