O ministro da Defesa, Nelson Jobim, contestou a tese do vice-presidente José Alencar que, ontem, quando estava no exercício da Presidência da República, declarou que o Irã tem o direito de ter armas nucleares para “fins pacíficos”, com objetivo de “dissuadir” os inimigos. Para Jobim, permitir que um país, naquela “área complicada”, tenha uma bomba atômica, ainda que para dissuasão, permite “deslanchar uma atomização daquela região, que é instável”. E emendou: “e não vale a pena começar isso”.

Jobim, que acompanhou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na viagem à Washington, durante a Conferência de Segurança Nuclear, defendeu em conversa com o Estado, que o Irã submeta seus projetos à fiscalização da AIEA – Agência Atômica da ONU, “para acabar com a suspeição”.

O ministro negou, no entanto, que o presidente Lula não tenha alcançado sucesso no seu objetivo durante a viagem. “Ele conseguiu, porque foi lá para comunicar que nós vamos ao Irã, independentemente do modo de pensar de um ou outro”, disse, referindo-se à viagem da comitiva brasileira marcada para Teerã, dentro de um mês.

O ministro Jobim acrescentou que espera que “os Estados Unidos compreendam que não há condições políticas de se pretender que o Conselho de Segurança da ONU aplique sanções contra o Irã antes do início das discussões do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), em maio”.

Na opinião do ministro da Defesa, o fato de o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ter saído do encontro com Lula e com o premiê da Turquia, Recep Erdogan, em Washington, no qual pediram ao americano que desse mais tempo ao Irã, defendendo as sanções “de modo agressivo”, não significa que elas serão aplicadas. “O problema é conseguir apoio para votar isso”, afirmou Jobim, lembrando que, ao contrário do que se andou afirmando anteriormente, a China não está apoiando deliberadamente sanções contra o Irã.

“Os chineses estão chegando aqui hoje (presidente Hu Jintao, da China, que desembarcou no Brasil nesta noite). Nós vamos conversar com eles. Vamos conversar com os indianos, com os sul-africanos (todos integrantes do BRIC, cuja reunião terá início nesta quinta-feira). Vamos ter uma série de rodadas de conversas e acho que não há espaço para votar sanção ao Irã agora”, declarou Jobim.

Perguntado sobre a possibilidade de assinatura de uma nota conjunta dos países que integram o Bric contra a imposição de sanções ao Irã, o ministro Jobim respondeu que acha que não, sugerindo que este não é um assunto para ser tratado em nota, e desconversou dizendo que este tipo de questão é conduzida pelo Ministério das Relações Exteriores.

Jobim voltou a defender a necessidade de serem mantidas conversas com o Irã, evitando que o país fique isolado, e reiterou que o Brasil vai insistir com eles para que se submetam às regras da AIEA. Para o ministro, não é possível que “por informações indiretas” sejam impostas sanções ao país, mas sugeriu que eles sejam também mais flexíveis.