O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu hoje (02), no programa de rádio "Café com o Presidente", a integração da América do Sul, sob a liderança do Brasil, como meio de diminuir a dependência do País dos Estados Unidos e da União Européia. O presidente Lula atribuiu a vitória do Brasil nas três últimas controvérsias julgadas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) – os casos da carne de frango salgada, do algodão e do açúcar – à busca da "unidade" com Brasil com as demais economias em desenvolvimento e ao "princípio de que a união faz a força". "Alguém poderia perguntar: mas vocês querem brigar com os Estados Unidos e com a União Européia? Não. Não queremos brigar porque são dois parceiros extremamente importantes para nós", defendeu. "Mas nós não queremos ficar dependentes deles. Nós queremos negociar com mais autonomia. Nós queremos negociar defendendo os interesses soberanos do Brasil. E, graças a Deus, nós estamos conseguindo isso", argumentou.

Há uma semana, Lula havia se vangloriado de ter retirado a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) da pauta do governo. O presidente está ciente da ausência de empenho política da União Européia para a retomada das discussões do seu acordo com o Mercosul.

Para ele, a criação da Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa), que ainda não conta com estrutura definida, seria a iniciativa básica para a estratégia de redução da "dependência" do Brasil em relação aos seus maiores parceiros comerciais.

Na avaliação do presidente, por contar com a maior economia, a maior população e o maior potencial científico e tecnológico, o Brasil tem a "obrigação" de oferecer as condições para o crescimento econômico dos países da vizinhança. Pressupondo que a oferta sempre será aceita por todas Nações da região – apesar da evidente reação da Argentina, a aliada estratégica do Brasil – Lula acredita que essa é a melhor via para consolidar a unidade sul-americana. Essa união, por sua vez seria a fórmula adequada para fazer frente às "regras do jogo no mundo comercial" ditadas pelas grandes potências.

Como resultado dessa orientação, segundo ele, o Brasil venceu os três últimos contenciosos na OMC. "E nós ganhamos por quê? Porque nós acreditamos. Porque nós juntamos força. Porque nós adotamos o princípio de que a união faz a força e isso está permitindo que a gente tenha uma participação mais efetiva e muito mais forte nesse mundo globalizado", teorizou.

Mais uma vez, o presidente Lula mesclou os objetivos estratégicos da sua política externa – o reforço das relações do Brasil com as economias em desenvolvimento – com uma das metas da política comercial – a de levar as medidas desleais no comércio internacional ao julgamento da OMC. Apesar de ter algumas economias emergentes como aliadas em processos na organização, como a Tailândia na recente vitória do caso do açúcar, a vitória deveu-se exclusivamente à formulação impecável do processo pelo Itamaraty, com apoio do Ministério da Agricultura, dos setores privados e de escritórios de advocacia especialmente contratados.

Manga e Picanha

Em uma justificativa para suas ações no exterior, o presidente aproveitou o programa de rádio para afirmar que não perde a oportunidade de expor a qualidade do produto brasileiro. Para sua viagem oficial ao Japão, no final deste mês, Lula informou que pediu ao embaixador em Tóquio, Ivan Canabrava, para providenciar uma churrasqueira. A finalidade, esclareceu ele, será "oferecer uma boa picanha, uma boa costela, uma boa maminha" ao primeiro-ministro, Junichiro Koizumi. "Para ele (Koizumi) falar: "puxa vida! Essa carne aqui é extraordinária!", concluiu.

De acordo com o próprio presidente, trata-se da retomada de uma iniciativa que surtiu efeito no ano passado, quando Koizumi visitou o Brasil. Na ocasião, lembrou-se Lula, oferecera um prato de manga ao convidado e o alertara que desembarcaria no Japão com uma caixa da fruta "para vocês não botarem defeito na manga brasileira". Pouco depois, o governo japonês eliminou as travas, mantidas por 28 anos, e começaram os embarques.

As referências de Lula, entretanto, ignoraram o longo e difícil investimento do País na negociação do fim da barreira fitossanitária aplicada pelo Japão à manga, assim como os atuais esforços do Ministério da Agricultura e do Itamaraty para que Tóquio elimine as barreiras sanitárias à carne brasileira. "Eu quando vou lá para fora, eu vou para vender a qualidade do povo brasileiro, para mostrar que nós somos um povo orgulhoso. E isso está dando resultado", afirmou.