As pesquisas de opinião pública revelam que o governo desce a ladeira. Lula tem sido até aqui poupado pela população, que lhe concede indulgências. Acredita em seus bons propósitos, em sua sinceridade e é convencida por sua retórica de boa qualidade, a despeito de seu baixo grau de instrução formal. As pesquisas mais recentes, porém, já revelam que ele próprio, além de seu governo, vem descendo muitos degraus no conceito da opinião pública, pela persistência e até multiplicação dos problemas que enfática e generosamente prometeu resolver e, até agora, não conseguiu.

Na democracia, os mandatos com tempo certo e as repetidas eleições tornam este fenômeno de queda de prestígio importante, porém não crucial. Faz parte do jogo. É preciso que o povo tenha o direito e condições de avaliar, aplaudindo ou desaprovando os governos. Os pleitos são a ocasião apropriada para o julgamento definitivo. No caso do atual governo, no entanto, existem preocupações adicionais e mais graves. Acontece que não é só o governo que vai bem ou mal, sobe ou desce a ladeira do prestígio popular. O País passa por problemas repetidos e cada vez mais graves e, a seguir nesse ritmo, é de se temer a ingovernabilidade.

O governo vinha controlando com certa facilidade sua base parlamentar (dizem os oposicionistas que na base do “dá cá, toma lá”), mas acaba de sofrer reveses significativos. Depois de ter, por medida provisória, proibido os bingos em todo o País, como resposta ao escândalo Waldomiro Diniz e contra até sua opinião formada de que o jogo deveria ser reformulado, mas continuar, o governo sofreu um duro golpe. Os senadores rejeitaram a medida provisória. Existem conversas de que o governo reestudará o assunto, tentando de alguma forma reeditar sua proibição. Difícil. Mas a derrota foi um escorregão ladeira abaixo.

A antes sólida base parlamentar do governo sofreu outra derrota, dizem que por cochilo. Mas esta não é hora de dormir. Na formação da comissão parlamentar que examinará a proposta do salário mínimo, que o governo quer de apenas R$ 260,00, a oposição conseguiu maioria. Conquistou a presidência, a relatoria e o petista que foi admitido naquele importante colegiado é Paulo Paim, vice-presidente do Senado Federal, defensor histórico e intransigente de um salário mínimo mais decente. O PT apressou-se a afastá-lo. Nessa comissão, a proposta é de R$ 270,00 ou mais. Esses fatos são relevantes e reveladores de queda de prestígio do governo, mas o que mais preocupa é que se multiplicam as agitações sociais. O crime, especialmente no Rio, já virou guerrilha urbana, a ponto de o governo federal ter de se dobrar aos apelos para disponibilizar contingentes das Forças Armadas, em socorro à polícia de Garotinho. A Polícia Federal, embora tenha estabelecido uma curta trégua, tem estado em greve por melhores vencimentos e o diálogo com o governo chegou a um duro confronto. No INSS, a greve repete-se, prejudicando a clientela daquela instituição previdenciária. Na Receita Federal, também. Há ameaça de uma greve geral do funcionalismo público federal, por motivos salariais. E os sem-terra e sem-teto continuam invadindo. Já não é só o governo que desce a ladeira. O Brasil está indo junto para o brejo. E o governo Lula, que até agora não pôde ou não soube resolver os seus problemas, poderá enfrentar a ingovernabilidade.