A queda dos preços dos produtos agrícolas – que hoje ajuda empurrar para baixo a inflação – pode funcionar como uma espécie de bomba de efeito retardado para a agricultura do País.

A preocupação foi expressa em cenário do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A avaliação é de que os preços baixos e o crédito restrito levarão "a uma redução significativa da área plantada e do uso de insumos para a próxima safra de verão".

O consultor do Ipea Gervásio Castro de Rezende explicou que houve retração de renda no setor e restrições de financiamento. O câmbio valorizado e o recuo de cotações internacionais influenciaram os preços.

O especialista afirmou ainda que o baixo uso de insumos como fertilizantes reduz o potencial da produção e deixa a lavoura mais exposta a problemas climáticos. "Agora não tem mais o que fazer, é torcer para que São Pedro ajude", comentou.

Rezende disse que já há previsões de menor área da safra no mercado. A Agroconsult, por exemplo, estima uma queda de 7,6% na área plantada da safra de verão. O cenário da consultoria leva em conta, ainda, uma "queda generalizada no nível de tecnologia, com destaque para a adubação média", e teme que um "pequeno problema climático" pode virar "um grande problema".

Os dados do Ipea mostram que nos 12 meses que vão de setembro de 2004 a agosto passado os produtos agrícolas apresentaram deflação de 7,6% no atacado – os bens industriais registraram alta de 4,4%. Para a Agroconsult, a deterioração na intenção de plantio está ligada ao fraco resultado da comercialização das safra 2004/05, à indicação de provável baixa rentabilidade para a safra 2005/06 e à "queda de disponibilidade de crédito para o custeio".

Projeções da Agroconsult indicam que poderá haver queda de 25,9% na produção de arroz, o que deverá encarecer o preço do produto no ano que vem, além do trigo, cuja produção recuaria 22 8%, com impacto de aumento da importação do produto. A safra total ainda cresceria modestos 2,8%, para 116 milhões de toneladas, bem abaixo do potencial que era inicialmente projetado para a safra 2004/05, de 136 milhões – a produção efetiva ficou na ordem de 113 milhões.

Política "anticíclica" – "O setor está em situação adversa, com renda menor, e tinha muita dívida contraída na fase boa", comentou o especialista do Ipea. Gervásio também questiona a política agrícola e defende a utilização de uma espécie de política "anticíclica" de financiamento para o setor. Segundo ele, não adianta "botar gasolina" nas fases de alta setorial, com excesso de oferta.

"O setor já está estimulado. Não tem de acelerar a euforia. Quando chega a depressão, como agora, o drama é pior porque o produtor está endividado", comenta. Essa alternativa permitiria um apoio mais efetivo ao setor em momentos desfavoráveis como o atual.