A promulgação da Emenda Constitucional 141/2026, que estabelece a redução da jornada máxima de trabalho para 40 horas semanais e a obrigatoriedade da escala 5×2, mantendo os salários integrais, atinge diretamente setores com funcionamento contínuo. No Paraná, as concessionárias de rodovias e obras de infraestrutura precisarão se readequar, já que nesse setor há a necessidade de manter equipes atuando dia e noite expõe os desafios contratuais e financeiros dessa transição.

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De um lado, a mudança é comemorada por categorias que enfrentam rotinas pesadas no trecho. De outro, concessionárias e especialistas alertam para a necessidade urgente de reequilíbrio econômico-financeiro nos contratos com o poder público para evitar a paralisação de investimentos ou pressões sobre as tarifas cobradas dos motoristas.

Do ponto de vista jurídico e econômico, a adequação dos contratos exige cuidados para não desestruturar as empresas. O advogado Rodrigo Gawlik Junior, especialista em Infraestrutura Viária, ressalta que a nova regra altera os índices de produtividade e a planilha de custos formulada na época da licitação.

Para Gawlik Junior, o prazo de 12 meses concedido para prestadores de serviços ao Estado reorganizarem os turnos é viável operacionalmente, mas apertado para os trâmites burocráticos. “As tabelas de preços e produtividade dos órgãos públicos tomaram como base a jornada de 44 horas e precisam ser atualizadas. Os pedidos de reequilíbrio demoram para ser analisados e pagos, e o risco é a empresa ter que arcar com esse custo extra enquanto aguarda a revisão do contrato”, pontua o especialista.

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Completa essa análise o advogado Bernardo Strobel Guimarães, mestre e doutor em Direito do Estado pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Ele enfatiza que, em serviços contínuos como rodovias, menos horas por trabalhador exigem mais contratações por turno ou o pagamento de horas extras.

“A emenda reconheceu esse impacto ao prever que a nova jornada em contratos públicos e concessões só passa a valer após aditivo de reequilíbrio ou ao fim de um ano”, explica Guimarães. Ele lembra que a recomposição do equilíbrio financeiro não ocorre de forma automática, exigindo comprovação dos custos por parte das concessionárias.

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“Esse reequilíbrio pode vir por reajuste de tarifa, prorrogação do prazo da concessão, ajuste nos investimentos previstos ou aporte público. A recomendação às empresas é não esperar o prazo de um ano acabar para buscar a repactuação, evitando que a discussão vá parar na Justiça”, orienta.

Como se posicionam as concessionárias que atuam no Paraná

As principais empresas que gerenciam as rodovias no Paraná encaram a mudança de diferentes formas.

A Via Araucária, responsável pela administração de 473 quilômetros de rodovias federais e estaduais no Paraná (Lote 1), ligando Curitiba, Região Metropolitana, Campos Gerais e Centro-Sul do estado, informou que conduz as readequações necessárias dentro do âmbito de gestão interna, respeitando os prazos e garantindo a continuidade normal dos serviços nas pistas. A concessionária frisou que, no momento, não há previsão de alterações nas tarifas de pedágio em função da nova jornada.

Administradora de trechos principais de rodovias federais no Paraná, como a BR-116 e a BR-376, a Arteris destacou que as operações adotam predominantemente o modelo de escala 12×36, formato que não sofre impacto direto ou imediato com as regras da Emenda Constitucional 141/2026.

A Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR) e as concessionárias, incluindo o Grupo EPR, responsável por administrar 627,52 km de malha rodoviária que passam por 39 municípios das regiões Norte, Noroeste e Oeste do Paraná, informaram que criaram um grupo de trabalho focado na coleta de dados técnicos.

O objetivo é mapear detalhadamente os impactos financeiros e operacionais no setor de infraestrutura viária para apresentar um diagnóstico consolidado dos próximos passos.

Sindicato analisa mudança

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada do Paraná (SINTRAPAV/PR), Raimundo Ribeiro Santos Filho, enxerga na mudança a possibilidade de mais tempo para outras atividades.

“Nossa categoria vive fora de casa, em alojamentos e barracos, porque as obras de estradas são itinerantes e cortam vários municípios. Ter mais tempo para descanso, lazer e família é um ganho inestimável. Além disso, o trabalhador menos cansado comete menos erros e fica menos exposto a riscos de acidentes”, afirma.

O dirigente acrescenta que a transição não deve ser vista como ameaça de demissões, mas como um incentivo para a contratação de novos profissionais para cobrir as folgas. Ele aponta que, nos contratos em que o pagamento é feito por hora, o ajuste terá reflexo na tabela salarial e no cálculo de horas extras, exigindo atualizações nas negociações coletivas.