Rio (AE) – O ex-presidente da Fundação Rede Ferroviária Federal de Seguridade Social (Refer) Jorge Moura quer convencer a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios a investigar os fundos exclusivos de investimentos dos fundos de pensão.

Moura ouviu de deputados da CPI que falta pouco para que seja marcada a data do depoimento dele. Com a convocação aprovada, Moura tem conversado com deputados como Eduardo Paes (PSDB-RJ), Gustavo Fruet (PSDB-PR), Denise Frossard (PPS-RJ) e Jeferson Perez (PDT-AM) para convencê-los da necessidade da investigação.

Para o ex-presidente da Refer, a comissão está como "cabra-cega", tentando encontrar desvios de recursos dos fundos para interesses políticos.

"Está faltando alguém parar mostrar a direção", analisa Moura, que pretende levar à comissão o nome do empresário Haroldo de Almeida Rego Filho, mais conhecido como "Pororoca", que também foi convocado pela CPI. "Pororoca" seria um conhecido corretor que atuaria nas sombras dos fundos de pensão há décadas. Segundo Moura, "Pororoca" atuou no Refer em associação com o ex-secretário de Comunicação do PT e ex-assessor da Casa Civil Marcelo Sereno e o deputado Carlos Santana (PT-RJ), cuja mulher é uma das diretoras do fundo. Eles negam.

Moura disse que o foco da sub-comissão que investiga os fundos de pensão deve ser o levantamento dos fundos exclusivos de investimento, que terceirizam a política de investimentos em boa parte dos fundos para um banco ou corretora. Para ele, que foi aliado do PT até deixar o Refer, em 2004, estes fundos podem esconder uma das fontes do esquema de dinheiro montado pelo empresário Marcos Valério Fernandes de Souza.

"Esses fundos são chamados de barrigas de aluguel. Não existe gestão compartilhada. Os gestores tomam as decisões com o dinheiro do fundo e ainda têm contrato que os eximem de responsabilidades. A jogada está no administrador complacente com o que fazem os gestores dos fundos. Vou sugerir que a CPI levante que fundos de pensão têm fundos exclusivos e quais os bancos e corretoras envolvidos. Em seguida, devem quebrar o sigilo dessas instituições. É preciso abrir essa caixa-preta, que não aparece com transparência nos balanços publicados pelos fundos", disse Moura.

Ex-deputado e funcionário de carreira da Rede Ferroviária, Moura deixou a direção do Refer pouco depois de a diretoria-financeira do fundo tentar aprovar a terceirização da carteira de investimentos. Apesar de afinado com Sereno, que controlava, politicamente, o fundo, ele discordou. A idéia, que não foi concretizada, aumentou as desconfianças do Conselho Fiscal, que denunciou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) uma série de operações financeiras suspeitas que resultaram em perdas de quase R$ 4 milhões. Os detalhes do relatório foram revelados em agosto. Moura pretende levar aos deputados informações que tem recolhido sobre a atuação das corretoras da família Almeida Rego em outros fundos de pensão, até mesmo estaduais. Ele cita como exemplo o Nucleos Instituto de Seguridade Social, fundo de pensão dos empregados da Eletrobrás Termonuclear (Eletronuclear). A gerente-financeira da fundação, Fabiana de Castro, foi demitida depois que o parentesco com os Almeida Rego foi descoberto. Sob a atuação dela, o Nucleos comprou cotas no valor de R$ 29 milhões de um fundo de investimento gerido por uma empresa que tem entre os sócios um filho e um irmão de "Pororoca".

Para Moura, os empréstimos de Valério ao PT não passam de fachada e estavam casados com muitos investimentos dos fundos de pensão, como CDBs dos bancos Rural e BMG. "Além de apontar caminhos para a investigação, quero ajudar os parlamentares a encontrar mecanismos para blindar os fundos daqui para frente. Vamos ter outro governo daqui a pouco e temos de evitar esse problema", disse Moura.