O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou de seu primeiro périplo pelo Velho Mundo, onde procurou convencer as grandes potências para a causa dos fracos e oprimidos, disposto a trabalhar duro, como prometido. Uma semana fora, e a primeira coisa foi vistoriar a casa. Encontrou-a desarrumada e, pior que isso, os responsáveis pela manutenção da ordem entre si descontentes e desentendidos. Ordenou, então, o fim das dissidências em benefício do governo. Nem que para isso tenha que ?enquadrar? os rebeldes.

Coisa antiga que veio à tona, agora com mais vigor que antes. Por exemplo: o senador Eduardo Suplicy andou cobrando a saída do ministro Anderson Adauto, dos Transportes, que até agora não conseguiu convencer o Brasil de sua inocência nos desvios de dinheiro de uma prefeitura que atendia a seu comando; a senadora Eloísa Helena que, durante o Fórum Social de Porto Alegre, falou à imprensa ameaçando sair do partido por discordar, entre outras coisas, da autonomia a ser concedida ao Banco Central do jeito que aí está, e coisas do gênero. Mas antes, segundo ela, que se coloca entre os construtores do PT, os caciques do momento vão ter que engoli-la como é. Isso significaria o mesmo que dizer “ou eles, ou eu”. Depois, vêm os desentendimentos acerca do programa Fome Zero, dos juros altos, das metas de inflação, da condução das reformas, sem falar na eterna pressão e descontentamento pelas nomeações feitas e por fazer…

Das reuniões havidas, o presidente do partido, José Genoíno, saiu com a incumbência de enquadrar os dissidentes que eventualmente não se dispuserem a acatar a ordem dada. É a segunda vez, em menos de um mês, que isso acontece. E a primeira delas – está ainda fresca na memória sua cena de choro de revolta – aconteceu também com a senadora Eloísa Helena, inconformada com a nomeação de Henrique Meirelles para o comando do Banco Central. “A unidade do PT é fundamental para a sustentação do governo”, sentenciou Genoíno, já se desincumbindo da tarefa.

A briga de fundo, quem acompanha sabe: o PT, com suas pontas todas, parodiando Shakespeare, não sabe ainda se é (governo) ou não é (governo). Há uma corrente que fica, outra que vai. Há os que não pretendem abrir mão do hábito fácil da crítica e os que, invocando compromissos históricos, têm ânsias de vômito com algumas parcerias como essa com o ex-presidente José Sarney. Lula tem repetido o discurso da realização, independentemente de cor, raça, credo ou ideologia, mas a ideologia de alguns companheiros não conjuga o verbo compartilhar, nem cooperar em terreno minado por ideologias outras. Não foi por outro motivo que Genoíno já arrancou dizendo que “ninguém pode ser dono da história do partido”.

Por mais que se esforcem todos – a começar pelo próprio Genoíno – no sentido de fazer parecer que “não há divergência ou crise”, porque o PT é um partido plural acostumado ao debate interno e que sabe preservar a unidade de ação, é evidente que a unidade de ação requerida agora é em torno do governo. Nada mais. Respeita-se a liberdade de pensamento e de expressão de todos, mas trata-se de “opinião pessoal”. O comando pertence – “se alguém pode se achar dono é o presidente da República” – a Lula. Vejamos até quando. A sorte da nação, em parte, depende disso.