Genebra (AE) – A União Européia (UE) sinalizou ontem que a retomada das negociações com o Mercosul para um acordo de abertura comercial não pode ainda ser dada como certa após a suspensão da rodada Doha. ?Eu tenho que refletir a respeito disso?, disse o comissário europeu Peter Mandelson ao ser questionado numa entrevista à imprensa sobre o tema. ?Eu preciso conversar com os meus amigos do Mercosul sobre isso.? Esses contatos, principalmente com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, não deverão acontecer antes do início de setembro quando Mandelson retornar de férias.

As negociações entre o Mercosul e a UE estão praticamente paralisadas desde o ano passado. A posição dos europeus, até agora, era de que o processo de aproximação bi-regional teria que esperar a conclusão da rodada multilateral da Organização Mundial do Comércio (OMC), que serviria como parâmetro para um acordo entre os dois blocos. Com a suspensão da rodada, que analistas estimam que pode demorar até alguns anos para ser retomada, o governo brasileiro espera que as negociações com a UE sejam retomadas em breve. Na ótica de muitos integrantes do Itamaraty, um acordo com Bruxelas poderá ser até facilitado pela paralisação do processo de negociações multilaterais.

Mas segundo analistas europeus, essa expectativa do Brasil e de outros países do Mercosul pode ser excessivamente otimista. Eles observam que a UE vem dando sinais nos últimos meses de que não vê o Mercosul como uma das prioridades de sua agenda comercial. Além disso, os problemas internos do bloco sul-americano – que na avaliação de muitas autoridades européias poderão ser agravados com a inclusão da Venezuela – são considerados enormes obstáculos para a conclusão de um acordo comercial.

?EUA oferecem pouco?

Mandelson voltou a responsabilizar os Estados Unidos pelo fracasso nas negociações da rodada Doha. ?Todos os lados precisam demonstrar flexibilidade, mas os Estados Unidos não demonstraram nenhuma flexibilidade no final?, disse. ?Os Estados Unidos estão pedindo coisas demais e oferecendo muito pouco em troca aos demais.? Segundo o comissário, essa não é a atitude esperada de um país com ?a função de líder?.

Mandelson disse que, como prova do compromisso do governo norte-americano com a conclusão da rodada Doha, espera que o presidente George Bush vete a renovação da Farm Bill – pacote de subsídios para o setor agrícola norte-americano – e renove a autoridade para promoção comercial, instrumento que oferece poderes especiais para a Casa Branca negociar acordos comerciais e que expirará em julho de 2007.

O comissário ressaltou que o multilateralismo continuará sendo a ?prioridade central? da agenda comercial da UE, mas não descartou que o bloco buscará também fechar acordos bilaterais. Segundo ele, a retomada da rodada Doha acontecerá assim ?que as circunstâncias permitirem?.

Para evitar que os ?países em desenvolvimento mais necessitados? sejam prejudicados com a paralisação da rodada da OMC, Mandelson propôs um pacote com medidas de estímulo comercial a essas economias mais pobres.