O ex-diretor do Banco Central e atual sócio do banco Brasil Plural, Mário Mesquita, afirmou que “novos downgrades” da nota soberana do Brasil serão prováveis até o início de 2016 sem progresso na área fiscal. Segundo ele, não há indicações que partam da relação do governo com o Poder Legislativo de que medidas para correção das contas públicas serão adotadas no curto prazo.

“Na tendência atual, a razão da dívida bruta e PIB deve chegar a 80% em 2018”, comentou, em evento realizado na capital paulista. Com a crise, ele apontou que será preciso um redesenho do Estado de Bem Estar Social no Brasil, especialmente sobre os gastos da Previdência.

Mesquita salientou que numa conjuntura de forte retração da economia em 2015, que deverá se estender no ano que vem, o crédito no Brasil não está crescendo, o que não justifica a adoção de medidas macroprudenciais pelo governo.

Dezembro

O ex-diretor do Banco Central afirmou que o mês de dezembro “será marcante”, com normalização monetária nos EUA e adoção de estímulos para o sistema financeiro e o nível de atividade na Europa. “A divergência de políticas monetárias deve levar a movimentos cambiais no exterior. A maior volatilidade cambial deve continuar lá fora”, destacou.

Na avaliação de Mesquita, há um cenário de altas graduais de juros nos EUA que devem ocorrer a partir de dezembro e continuar ao longo de 2016. Contudo, ponderou que se houver aumentos salariais bem acima do esperado nos Estados Unidos, o Federal Reserve poderá intensificar o ritmo de elevação das taxas de juros.

Levy

Para Mesquita, seria negativa uma eventual saída do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, do cargo que ocupa desde janeiro. “Se o ministro Levy viesse a sair do governo, o mercado se ressentiria sim”, disse.

O ex-diretor do BC afirmou que o País passa uma transição de governança, marcada com a atuação independente dos órgãos da Justiça e Ministério Público Federal na Operação Lava Jato. “A Lava Jato trará efeitos positivos para o País”, apontou.

Tempestade perfeita

Também presente no evento em São Paulo, o ex-diretor do BC e atual sócio da Ibiuna Investimentos, Mário Torós, afirmou que “a tempestade perfeita no Brasil chegou e vai encher muitos Cantareiras”. Na avaliação dele, a crise que o País enfrenta ainda “está na metade” do seu percurso, pois considera que a recessão registrada em 2015, com agravamento de indicadores sociais, terá continuação em 2016.

“Estamos comprados em inflação e dólar. Não compraria nenhum papel longo. Não vejo oportunidade em se posicionar em ativos brasileiros”, ponderou Torós.

O ex-diretor do BC manifestou ceticismo com a possibilidade de que as forças políticas atuem de forma conjunta para tirar o País das profundas crises política e econômica. “Não vejo o partido que está no poder fazendo concessões para pacto político”, disse. “A história do Brasil mostra que este tipo de postura dos políticos não ocorre. Para mim, isso é conversa para boi dormir.”

EUA

Especificamente sobre os EUA, Torós, afirmou que o índice S&P “está caro em si e também em relação a outras bolsas do mundo”, com destaque para o mercado de ações na Europa e Japão. “Os retornos de empresas do S&P devem continuar bem com a recuperação dos EUA”, apontou. “Por outro lado, a inflação implícita americana está muito baixa e temos posições compradas nisso.”