Rio

– A Petrobras vai aumentar os preços dos combustíveis “quando for conveniente”, afirmou ontem o presidente da estatal, Francisco Gros, em entrevista durante visita ao Piscinão de Ramos, na zona norte do Rio. “Estamos acompanhando atentamente os preços do barril de petróleo no mercado internacional, particularmente os preços dos derivados, e também a oscilação do dólar”, disse Gros. “Consideramos este momento extremamente volátil, tanto pelo risco de ataque ao Oriente Médio como por conta das eleições. Por isso, as decisões são tomadas diariamente com base neste acompanhamento.”

Ele não afastou a hipótese de os preços serem reajustados antes das eleições de 6 de outubro e negou que o processo eleitoral represente “preocupação” para a estatal ou que possa influenciar na decisão de reajustes nos preços. “Trata-se de um processo democrático e não há qualquer preocupação da empresa com isso. A Petrobras tem política de preços própria e a decisão sobre um eventual aumento é exclusiva da empresa”, disse.

Na análise do presidente da Petrobras, o fator que mais afeta hoje o preço do combustível nacional é a tensão crescente no Oriente Médio. “Mas esta é uma preocupação que não cabe somente à Petrobras. É um risco mundial e que não deve ser analisado somente pela ótica do petróleo.”

Sem conceder reajustes desde o dia 1.º de julho, a Petrobras vem contendo em seu caixa a diferença entre o preço da gasolina produzida no País e o preço do mercado internacional. Além disso, a elevação no câmbio contribuiu para aumentar esta diferença.

Estudo realizado pelo Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), do Rio de Janeiro, aponta que, se fosse considerada a alta no mercado internacional entre o dia 1.º de julho e 10 de setembro, somada à defasagem cambial, o preço da gasolina teria hoje um repasse de 17,4%, chegando a R$ 2,00 na bomba de combustível.

O presidente da Petrobras diz que desconhece estudos semelhantes. O diretor do CBIE, Adriano Pires, questiona o fato de o preço internacional do barril de petróleo cru (US$ 0,1869 o litro) hoje ser mais alto do que o da gasolina comercializada nas refinarias do País (US$ 0,1794, o litro). “Isso é impossível, considerando que a gasolina é um derivado do petróleo e passa por várias etapas antes de chegar ao consumidor”, explicou.

Segundo Pires, os cálculos que apontam a defasagem consideram que no dia 1.º de julho os preços da gasolina nos mercados interno e internacional eram equivalentes, estacionados na faixa de US$ 0,196 o litro. Já o preço cobrado pelo litro da gasolina no mercado internacional hoje (10) foi 7,7% maior do que o valor inicial de julho, chegando a US$ 0,2106, enquanto o preço da gasolina da Petrobras caiu 8,7%, para US$ 0,1794. “É com certeza um prejuízo para os cofres da Petrobras”, analisa Pires. Além deste prejuízo, também saem perdendo as tradings, que com a manutenção dos preços da Petrobras ficam impedidas de importar produtos e ainda as únicas duas refinarias privadas brasileiras -Manguinhos e Ipiranga. As duas refinarias estão diminuindo o ritmo de produção para reduzir o prejuízo de suas operações. Isso porque as duas empresas trabalham com matéria-prima mais cara que o produto final, já que não podem aumentar os preços dos combustíveis sem que a Petrobras o faça.

Em recente cálculo feito por um executivo, a refinaria de Manguinhos – controlada pelo grupo hispano-argentino Repsol-YPF, perde entre R$ 0,06 e R$ 0,07 por litro produzido, o que acarretaria um prejuízo mensal de R$ 4 milhões. Por isso, a empresa reduziu sua capacidade de produção de 15 mil para 10 mil barris de petróleo processados por dia e adiou o programa de investimentos na ampliação da capacidade de refino, orçada em US$ 100 milhões.