O filme não é novo, e o final nunca é aquele desejado. Na tarde de segunda-feira, 1.º de março, o presidente Nestor Kirchner ameaçou decretar moratória em um discurso inflamado no Congresso Nacional. A Argentina pode não pagar mais os juros da dívida externa nem os compromissos internacionais, a começar por uma parcela do último empréstimo concedido pelo FMI, que vence na próxima semana. A capital federal passa por dias de tensão, com ameaça de greve geral e represálias do mercado financeiro.

Claro que, para consumo interno, o discurso e a atitude de Kirchner foram acatadas pela população. “Não vou pagar o FMI com a fome e a exclusão social do meu povo”, atirou o presidente, que não nega ser chegado a rompantes de populismo. Foi a cartada decisiva dele, que após receber um país quebrado e conseguir nos primeiros meses de mandato uma certa estabilidade, necessita de recursos para promover o “espetáculo do crescimento”.

Até porque a convulsão social de outros anos ameaça voltar. Estão previstas para o início da semana que vem manifestações de pequenos comerciantes, dos taxistas (que prometem não trabalhar à noite) e da oposição. Em consulta feita ontem, a maioria da população acredita que a inflação vai aumentar nos próximos meses, e o principal instituto de estatística da Argentina divulgou que a renda familiar diminuiu 1,58% nos últimos sessenta dias.

Moeda

O peso, que por muito tempo esteve em paridade com o dólar, agora está praticamente parelho com o real -hoje, são necessários 2,90 pesos para comprar um dólar. E o custo de vida é semelhante ao de Curitiba (ou de outra grande capital do Brasil), com a diferença da renda média do argentino ser no momento menor que a do brasileiro.

Os muitos contrastes, depois da crise

Passar pelas amplas avenidas de Buenos Aires é ter a impressão de estar na Europa. Foi sempre o que os argentinos quiseram transparecer aos turistas, muito por uma vontade intrínseca de estar lá e não na América do Sul. Mas uma observação mais atenta revela que mesmo a ?Paris da América?, como é chamada por aqui, vive ainda os reflexos da gravíssima crise que assolou o país há três anos, e que segue rondando o Prata.

Os subúrbios da capital federal assustam pelo abandono. Ao contrário das grandes cidades brasileiras, que demonstram claramente a pirâmide social nas periferias, Buenos Aires vive da ostentação de outrora, e bairros eminentemente residenciais (mais próximos do aeroporto de Ezeiza) que do centro têm seus prédios em péssimo estado de conservação. A riqueza do país literalmente passa ?por cima?, já que a estrada que liga o aeroporto ao centro é em grande parte elevada.

Apesar de não passar pelo desespero da época da desvalorização do peso e dos escândalos governamentais, que desaguaram na renúncia do presidente Fernando de la Rúa e na ascensão deEduardo Duhalde, ainda há muitos mendigos no centro. Próximo aos hotéis mais importantes, crianças pedem abertamente algumas ?monedas?, enquanto garotas de programa abordam todos que passam.

Mesmo com o clima de desconsolo econômico, chegar a Buenos Aires traz ao visitante uma sensação de imponência. A chegada pela Avenida 9 de Julio, a mais importante do centro, ainda surpreende os turistas pela grandeza e pela história, marcada em cada prédio e em cada monumento, como o Obelisco. Os bares e restaurantes da Recoleta e de Puerto Madero seguem atraindo, confirmando a vocação boêmia de Buenos Aires.

A capital também está mais segura, fruto do ?respiro? da economia argentina nos últimos meses. Com isso, os turistas de toda parte do mundo aparecem, lotam os hotéis e dão a Buenos Aires o ar cosmopolita que os moradores da cidade tanto alardeiam. E que, no final das contas, é o que restou de intacto na paisagem, um tanto manchada nos últimos tempos. (C.T.)