São Paulo  – As expectativas do mercado para o tamanho do corte da Selic na reunião do Copom que começou ontem e termina hoje continuam concentradas em torno de 1,5 ponto porcentual. Essa é, no entanto, a expectativa majoritária sobre o que “fará” o Copom, não sobre o que “poderia fazer” ou sobre o que “deveria fazer”. Neste caso, a maior parte dos analistas diz que haveria espaço para um corte de dois pontos porcentuais. Para uma pequena parcela, até mais do que isso.

“Um corte de dois pontos é perfeitamente compatível com os atuais números da atividade econômica, com os índices correntes de inflação e com as expectativas futuras de inflação. Acontece que o governo não passa quase um dia sem reforçar que o approach será gradualista, e o mercado vem lendo esse gradualismo como um corte de 1,5 ponto”, comenta o economista e estrategista do Banco Pátria, Luís Fernando Lopes. Essa ênfase das autoridades do Banco Central na defesa do gradualismo é citada como o principal motivo para a expectativa majoritária em torno do corte de 1,5 ponto da Selic.

Esse é o recado que o mercado vem lendo nos discursos recentes do presidente do BC, Henrique Meirelles, reforçado pelos seus diretores em encontros específicos – por exemplo, o do diretor de Política Monetária, Luiz Augusto Candiota, com os dealers de “pré” realizados na sexta-feira. Para o economista chefe do Llyds TSB, Odair Abate, essa percepção em torno do 1,5 ponto foi reforçada pela última ata do Copom, que em sua opinião sugere implicitamente tal magnitude como um corte bastante agressivo.

“Dá a impressão de que esse tamanho de corte, na ótica do BC, é expressivo”, diz Abate. “Como não houve alteração expressiva nas informações disponíveis sobre as trajetórias econômicas entre esta e a última reunião do Copom, acreditamos que o BC vá manter a homogeneidade nos cortes e aplicar o 1,5 ponto, embora ache que exista espaço para mais do que isso.”

Gradualismo

Mesmo os que apostam que o Copom “fará” um corte de dois pontos porcentuais afirmam que isso não significará um abandono do gradualismo defendido pelas autoridades do Banco Central. “Cada um entende esse gradualismo como quiser”, afirma o economista-chefe do Unibanco, Alexandre Schwartsman, que aposta em um corte de dois pontos. “Se o Copom cortar 5 pontos, a Fiesp provavelmente vai considerá-lo gradualista.”

Para ele, o Copom está querendo manter uma trajetória de queda que mantenha os juros de médio prazo (seis meses e um ano) menores que as taxas do overnight (a taxa over Selic, muito próxima da taxa básica). “Imagine uma situação em que a Selic caísse agora dos 24,5% para 17,5%: as taxas de juros de médio prazo embicariam, só que para cima. Isso prejudicaria a atividade, que está lastreada nessas taxas”, explica o economista do Unibanco. Isso não ocorreria, no entanto, com um corte de dois pontos porcentuais.

Na sexta-feira, Meirelles destacou a queda das taxas de médio prazo (swap x pré) do mercado como um fundamento que permitirá a retomada da atividade nos próximos meses. Na opinião de Schwartsman, essa reação da curva longa de juros é uma variável importante que o BC vem acompanhando nas suas decisões de política monetária. “É pior ir fundo demais nos cortes para depois ter de voltar.”