Basta observar o próprio lixo doméstico para reconhecer o quanto de alimento é mal aproveitado no dia a dia e que uma parcela significativa do orçamento familiar vai parar no lixo. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que esse desperdício corresponde a um terço da comida produzida no mundo, que fica pelas lixeiras de toda a cadeia, ou seja, consumidores, vendedores, agricultores e transportadores. Mas é dentro da cozinha de cada um que essa realidade pode ser transformada a partir de receitas que levam em conta o aproveitamento integral dos alimentos. E essa mudança no cardápio pode significar um corte de pelo menos 50% dos gastos com alimentação.

A nutricionista do Programa Sesi Cozinha Brasil, Ana Paula Remer, diz que essa economia é bem simples de perceber. “Quando compramos um cacho de banana ou uma melancia pagamos pelo alimento completo, mas estamos acostumados a aproveitar apenas a polpa, descartando entre 30% a 50%, dependendo do alimento. No programa ensinamos como usar tudo em benefício do bolso e da saúde, já que são nas partes normalmente descartadas, como os talos, sementes e cascas, que os nutrientes e as fibras se concentram em maior quantidade”, orienta.

E se metade do que iria para o lixo é usada na preparação de novos pratos, não é difícil concluir que a necessidade de novas compras para recompor a dispensa também ganha dias a mais no calendário, fazendo com que naturalmente sobre dinheiro no decorrer do mês.

Programa

O Sesi Cozinha Brasil existe desde 2004, percorrendo todo o país promovendo educação alimentar gratuitamente. Mais de 40 mil pessoas, somente no Paraná, já frequentaram os cursos, que promovem a educação alimentar, com foco em qualidade nutricional, economia e receitas saborosas. A tecnologia social que respalda todo o curso é reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e vem sendo estendida para outros países, como Uruguai, Guatemala e Honduras.

Em Curitiba, a próxima edição do Cozinha Brasil será realizada entre os dias 10 e 13 de junho, das 13h30 às 16h50. Informações sobre a agenda de cursos podem ser obtidas pelo telefone (41) 3271-9526 ou pelo email: cozinhabrasil@sesipr.org.br.

Saúde também sai ganhando

Na avaliação nutricionista Rosalva Jacobsen de Almeida, além de impactar positivamente sobre o orçamento familiar, essa transformação no cardápio das pessoas melhora a saúde de quem insere as receitas no seu dia a dia. Um simples picadinho de carne dobra de volume se misturado à casca da melancia, por exemplo. O sabor não é comprometido e a quantidade de fibras e nutrientes da refeição aumenta significativamente.

“Qualquer casca ou semente já na largada aumenta o valor nutricional de qualquer prato, por conta das fibras que estimulam os movimentos peristálticos do intestino. Por isso a recomendação é aproveitá-las em qualquer oportunidade. Quanto mais rápido é o processo de saída do alimento do corpo, mais saudável ele é, tanto que uma das primeiras mudanças percebidas pelas turmas é a eliminação de problemas relacionados a intestino preso”, garante.

A auxiliar de cozinha Jucilene Franco de Freitas, que participou do curso do Sesi Cozinha Brasil em Mandirituba, explicou que já estava sentindo os benefícios do novo cardápio tanto nas despesas, quanto na disposição. “Estou mais disposta desde que comecei a ingerir mais frutas e verduras. Em um dia comi um mamão e no outro fiz um bolo com a casca, que ficou delicioso e eu nem imaginava que era possível”, celebra.

Praticando economia

Gerson Klaina
Rosalva dá dicas valiosas sobre como utilizar alimentos por completo.

O Paraná Online acompanhou o curso do Sesi em Mandirituba, realizado na semana passada, para garimpar o que pode ser determinante na preparação das refeições. A nutricionista Rosalva Jacobsen de Almeida traz a cada receita uma série de detalhes que quebram paradigmas.

Dá para economizar gás de cozinha, deixando o arroz branco de molho na água por 30 minutos. Aqueles caldos de carne em tabletes, que são ricos em química e pobres em nutrientes, podem ser confeccionados de forma saudável congelando em uma forma de gelo o caldo que sobra do cozimento de um frango ou uma carne bovina, por exemplo.

Também dá para eliminar o óleo ao refogar o alho e a cebola na água. “Basta cobrir o fundo da panela com água, aquecer e colocar a cebola e o alho até amolecerem. Eles não vão dourar, mas a receita seguirá o curso normal e sem gordura saturada”, descreve.

Outra recomendação importante é sempre espremer o alho. “Assim ele libera alicina, que é uma substância maravilhosa para o organismo, pois aumenta a imunidade e diminui o colesterol”, aponta.

Outra dica valiosa de Rosalva é em relação ao chamado suco da horta (confira a receita), que serve para desintoxicar o organismo, em especial o fígado. “A couve deve ser misturada à água no liquidificador, para que o organismo tenha acesso ao isioticionato, substância que promove essa faxina no organismo”, recomenda Rosalva, destacando que o ideal é beber o suco sem peneirar e aproveitando toda a couve (folhas e talos).