Foto: Aliocha Maurício/O Estado

Curitiba se prepara para receber estrangeiros.

A tão aguardada Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre biodiversidade e biossegurança, que começa amanhã e se encerra no dia 31 de março, promete aquecer a economia de Curitiba nos próximos dias. Mesmo sem estimativa oficial de quanto os dois eventos – COP8 e MOP3 – irão movimentar juntos em termos de cifras, o certo é que alguns setores já estão comemorando os números.

É o caso da rede hoteleira, que prevê até dobrar a taxa de ocupação por conta dos dois eventos. A previsão da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira no Paraná (Abih-PR) é que a taxa de ocupação na hotelaria em Curitiba chegue a 90%, bem acima da média de 41%. Para o presidente da Abih-PR, Henrique Lenz César Filho, é preciso fazer a análise de cada um dos eventos, separadamente.

?No primeiro – a 3.ª Reunião das Partes do Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança (MOP3), que acontece de 13 a 18 de março -, não haverá grande número de participantes, cerca de mil. Mas são ministros, chefes de Estado, vêm com verba melhor e vão ficar em hotéis cinco estrelas?, explicou o presidente da Abih-PR. Nesse primeiro evento, segundo Lenz, a taxa de ocupação deve variar entre 60% e 70%.

Já no segundo evento – a 8.ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP8), que acontece entre 20 a 31 de março -, a taxa de ocupação pode chegar até a 90%, prevê Lenz. ?O número de participantes será bem maior, cerca de 4 mil pessoas. A ocupação hoteleira deve ser de 80% a 90%?, afirmou. Nesse segundo grupo, os estabelecimentos com padrão de três e quatro estrelas devem registrar maior demanda. Segundo a Abih-PR, Curitiba dispõe de aproximadamente 16 mil leitos – a maioria deles (cerca de 10 mil) se insere no padrão três e quatro estrelas.

Apesar dos números positivos, Lenz diz que o ganho extra servirá apenas para ?pagar as contas acumuladas em janeiro e fevereiro?. ?Janeiro e fevereiro são meses péssimos, a taxa de ocupação é baixíssima?, afirmou. E não é só brasileiro que costuma deixar tudo para a última hora. A maior parte das reservas nos hotéis, segundo Lenz, ocorreu na semana que passou. ?Até então, havia muita solicitação de informações, pesquisas. As reservas mesmo estão acontecendo esta semana.?

Para Lenz, o evento da ONU é a oportunidade que Curitiba tem de mostrar ao mundo suas qualidades. ?O evento, além de ser um cartão de visitas para Curitiba, também trará formadores de opinião. São jornalistas, produtores, que estarão conhecendo a cidade. E Curitiba tem que mostrar que tem estrutura para a hotelaria, eventos?, disse. Para que tudo saia perfeito, a Abih entrou em contato com o corpo consular para prestar informações sobre a cultura e alimentação dos países que mandarão representantes para o evento.

Muitos hotéis também contrataram funcionários temporários – principalmente bilíngües. É o caso do Hotel Quality, no bairro Batel, que contratou três pessoas para a recepção – que falam idiomas como alemão e japonês – e outros dois garçons, também bilíngües. A cozinha internacional, segundo a gerente-geral Karen Stank, também estará voltada para atender paladares específicos, do café-da-manhã ao jantar. Com relação à taxa de ocupação, ela está em 80%, segundo Karen – acima da média nesta época do ano, que oscila entre 55% e 60%.

Ainda no ramo de gastronomia, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Paraná (Abrasel-PR) estima que o movimento deva aumentar 40% nos próximos dias. O presidente do Conselho da Administração da Abrasel, José Henrique Carlan, porém, prefere não falar em números. ?É difícil mensurar. O movimento será bom, principalmente porque vai coincidir com outros eventos, como o Festival de Teatro e o aniversário da cidade?, afirmou. Carlan lembrou, no entanto, que nem todos vêm a Curitiba para gastar. ?Há muitos representantes de países em desenvolvimento, que vêm com orçamento pago?, ponderou.

Setor turístico reclama que foi esquecido pela organização

Para se tornar o território das Nações Unidas e, principalmente, na tentativa de ?encher os olhos? dos participantes do COP8-MOP3, Curitiba investiu pesado em reformas e restaurações dos principais cartões-postais da cidade. Caso do Jardim Botânico, que exigiu investimento de R$ 970 mil para a sua revitalização. A Ópera de Arame, outro ponto bastante visitado pelos turistas, exigiu bem mais: cerca de R$ 1,4 milhão, valor que foi aplicado na reforma da estrutura, garantindo a segurança dos visitantes e do público de shows e espetáculos. Nem o Jardim Zoológico foi esquecido: ganhou guaritas novas, banheiros, substituição de barras de proteção, que somaram cerca de R$ 230 mil.

Para o presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagem no Paraná (Abav-PR), Antônio Azevedo, tamanho investimento pode não ser revertido economicamente. ?A organização foi muito fechada. Exigiu-se muito da cidade, do Estado, mas não se preocuparam com o retorno financeiro?, apontou Azevedo. Segundo ele, as agências – especialmente do turismo receptivo – apostavam em passeios até o litoral, Serra do Mar, Foz do Iguaçu. ?O pessoal se preparou para isso, mas a demanda não ocorreu?, afirmou, sem esconder a frustração. ?Estamos decepcionados e lamentamos. Não foi dada a oportunidade de mostrar não só Curitiba, como o Paraná e o Brasil.?

Para o presidente da Abav-PR, criou-se muita expectativa sobre o COP-MOP, que não irá se concretizar. ?Estou muito cético. Acho que será um evento normal, importante, mas muito técnico. O movimento no segmento (de turismo) não está sendo aquilo que se esperava?, afirmou.

Apesar de tudo, Antonio Azevedo vê os preparativos com bons olhos. ?Pelo menos a cidade se revitalizou, ficou mais bonita. Porém, não é um evento só que ?faz verão?. Curitiba tem que ter estrutura para o turismo. E precisa de estrutura técnica e não política?, arrematou. (LS)