O “grande vilão” do spread alto no país é a baixa oferta de crédito, na avaliação do vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel José Ribeiro de Oliveira. O spread é a diferença entre os juros que a instituição financeira paga para ter o dinheiro (basicamente a taxa juros Selic) e a taxa cobrada do cliente na hora do empréstimo. A redução do spread é considerada uma condição para o barateamento do crédito ao tomador final e está sendo estudada pelo governo.

Oliveira argumenta que na economia quando há uma oferta maior, o preço cai, o que também vale para o crédito. “Temos uma baixa oferta de crédito e isso contribui para que os bancos determinem os custos que querem cobrar. Por isso, temos taxa de juros tão alta e o consumidor, refém, não consegue mudar”, afirma.

Ele lembra que a relação entre o crescimento da economia (Produto Interno Bruto – PIB) e o crédito já foi bem menor – era de 28,1% em dezembro de 2005, por exemplo, e passou para 41,3% ao final de 2008. Entretanto, há países com taxas acima de 100%. “A margem líquida do banco, que é o lucro, tem patamares elevados, por conta da baixa oferta de crédito e da concentração bancária”.

“Tem bancos que estão lá fora que se dão por satisfeitos com uma rentabilidade de 4% ao ano. Aqui a rentabilidade é de 30%, 35% ao ano. Eles chegam aqui e têm espaço para cobrar mais. Lá fora não cobram porque a competição não permite”, afirma.

Para Oliveira, não é necessário esperar a crise financeira internacional passar para adotar medidas para estimular a oferta de crédito no país. “Tem coisas que já poderiam ter sido feitas, como reduzir ainda mais a Selic”, afirmou. O vice-presidente da Anefac lembra que quando a Selic está alta, os bancos optam por investir em títulos públicos, que são remunerados pelos juros básicos e têm retorno seguro. “Até 2005, a grande fonte de renda dos bancos era aplicar em títulos do governo. Com a Selic caindo os bancos não privilegiam o títulos públicos, aplicam em crédito”, enfatiza.

Outra medida sugerida é reduzir ainda mais os depósitos compulsórios (dinheiro que os bancos são obrigados a deixar depositados no Banco Central) e estabelecer a obrigatoriedade de as instituições financeiras aplicarem em crédito. Depois do agravamento da crise financeira internacional, o Banco Central adotou várias medidas de liberação de compulsórios para ampliar a liquidez (dinheiro disponível) no mercado. “Os compulsórios ainda estão muito acima do que se pratica fora do país. Em países similares ao Brasil como Índia, China Rússia, os compulsórios são entre 3% e 4% sobre o valor da movimentação financeira, os depósitos à vista. No Brasil é de 45%”.

Para Oliveira, o governo também pode exercer pressão sobre os bancos para reduzir os spreads e por conseqüência o custo do empréstimo, por meio das instituições públicas. Com a redução dos juros dos bancos públicos, por conta das concorrência as instituições privadas são levadas a também baixarem os custos dos financiamentos para o tomador.

Oliveira também defende a redução dos impostos cobrados na intermediação financeira (valor cobrado entre a captação e o empréstimo). Segundo ele, o Brasil é o único lugar do mundo em que há cobrança de tributos na intermediação financeira. De acordo com o Banco Central, os impostos representaram, em 2007, pouco mais de 8% do spred bancário.