Depois de ter perdido o gás, devido a suas posições contemporizatórias com o governo do PT a que sempre serviu com denodo, a Central Única dos Trabalhadores está estudando sua volta ao cenário político brasileiro com uma proposta nova. Baseada na idéia do Fome Zero, que não deu nem dará certo enquanto persistir esse exército de desempregados de norte a sul, a central está propondo ao companheiro Lula e à nação o projeto ?Desemprego Zero?. Simples: se não houver desemprego, não haverá fome.

Talvez devesse ter sido este o raciocínio do presidente Lula que, ao tomar posse um ano atrás, manifestou sua esperança (para não dizer que fez promessa) de chegar ao final de seu governo com todos os brasileiros de barriga cheia, fazendo pelo menos três refeições ao dia. Do jeito que as coisas andam, mais brasileiros chegarão ao final do governo Lula sem fazer refeição alguma.

A CUT desenterra assim aquela que foi a principal promessa de campanha do candidato Lula, uma vez da esperança: criar dez milhões de empregos novos no curto arco de tempo de quatro anos. É um desafio incômodo, à vista inclusive do resultado obtido no primeiro ano do governo – ainda – aprendiz. Feitas as contas, isto é, computando-se os escassos empregos gerados, os desaparecidos e o crescimento da massa economicamente ativa, Lula ficou devendo à nação 693 mil postos de trabalho no ano que passou. Sua dívida, nos próximos três anos é, portanto, não de dez milhões, mas de dez milhões mais esses quase setecentos mil. Divididos por três anos que faltam, Lula precisa se mexer para criar quase três milhões e seiscentos mil empregos novos por ano.

Não conseguirá, está visto. Ninguém acredita mais. Nem os bem empregados com medo de perder o trabalho que têm, sempre recebendo menos, muito menos os desempregados, que acordam todo dia pela manhã pedindo a Deus e ao anjo da guarda forças para continuar no bom caminho.

O quadro brasileiro do desemprego alarma com o índice de desocupados que já chega, na média geral, aos 12,2% de nossa população economicamente ativa. Mas há regiões, como na Grande São Paulo, onde esse índice vai além de 20%. Uma catástrofe. Na Unicamp alguns professores fizeram as contas e chegaram à conclusão que o País precisa crescer em média 5% durante quatro ou cinco anos seguidos para obter algum resultado significativo no nível de emprego. Mas a projeção oficial para este ano é de 3,5% de crescimento econômico, o que deve significar, na melhor das hipóteses, um aumento de 1,5% (no máximo 1,7%) no emprego formal. Isso equivaleria a cerca de um milhão de vagas.

Novamente, feitas as contas, Lula chegará ao final do ano que mal começa devendo: cerca de dois milhões e quatrocentos mil empregos.

Com cerca de doze milhões (esse é um número estimado, e há quem garanta que o número é bem maior) de desempregados no País, mais os milhões de subempregados que temos, não se pode conceber como é que o metalúrgico que virou presidente tenha tão rapidamente esquecido (ou relegado a plano inferior) de uma prioridade de primeira grandeza. Sem trabalho, aumentam todos os demais índices – do analfabetismo, à fome, à segurança.

Não se sabe como é que a CUT está imaginando o desdobramento desse programa ?Desemprego Zero?. Mas a idéia (mesmo inspirada na utopia – ou ironia? – do Fome Zero, tem tudo para merecer mais crédito e, o que é mais importante, adesão do povo) é tentadora. Não existem dúvidas de que este é o pior e o maior mal da atualidade, que precisa ser combatido com todas as forças e em todas as instâncias. Mas cadê o espetáculo do crescimento?