Está praticamente acertado o afastamento do tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e
do secretário-geral, Silvio Pereira, da cúpula petista. Para impedir que as
ligações perigosas do partido atinjam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e
para juntar os cacos da legenda na mais grave crise política do governo e do
partido, dirigentes do Campo Majoritário pediram aos dois que se licenciem de
seus cargos na reunião da executiva nacional, adiada de hoje para terça-feira O
presidente do PT, José Genoino foi convencido por Lula a ficar.

"Agüente
firme", disse Lula a Genoino, que adiou a reunião da executiva para discutir o
futuro dele e dos companheiros. O presidente do PT vai convocar uma reunião do
diretório nacional para sábado e deverá acatar sugestão da esquerda petista, que
propõe criar uma comissão interna para averiguar as finanças do PT e as
denúncias.

Lula alega que somente Genoino pode evitar que o PT desande
nessa hora. Mas Genoino está muito abalado e por mais de uma vez avaliou a
conveniência de renunciar, apesar da negativa oficial. O mais novo terremoto
sobre a cúpula do governo e do PT foi provocado com a revelação, pela revista
Veja, de que o publicitário Marcos Valério – apontado pelo deputado Roberto
Jefferson (PTB-RJ) como distribuidor do "mensalão" – avalizou empréstimo de R$
2,4 milhões para o PT, em 2003. Pior: como o PT não pagou uma parcela, o próprio
Valério quitou prestação de R$ 349,9 mil.

A descoberta dividiu ainda mais
o partido e causou outro desgaste monumental ao Planalto. Foi então que, em
reuniões de emergência realizadas ontem à tarde eee hoje, integrantes do Campo
Majoritário chegaram à conclusão de que não dá mais para segurar Delúbio e
Silvio.

Em conversas reservadas, petistas confirmaram que os dois já
concordaram com a saída. Procurados pela reportagem, eles não responderam às
ligações. Na última reunião do diretório nacional, dia 18, Delúbio foi
categórico: disse que não tinha nada a temer e que não se afastaria do cargo
"nem mesmo se Lula pedisse". As dívidas do PT nacional somam R$ 20 milhões. A
maior parte foi contraída depois das campanhas de 2002 e 2004.

O
comentário na cúpula do PT é de que Delúbio traiu a confiança de Genoino. Silvio
não foi mencionado na reportagem de Veja, mas teve o nome citado várias vezes
por Jefferson, que o acusou de tráfico de influência para a distribuição de
cargos no governo. Além disso, também aparece na agenda de Marcos Valério. As
agências do publicitário – DNA e SMPB – têm contratos com o governo Lula no
valor de R$ 144,4 milhões.

O estado emocional de Genoino preocupa Lula e
seus amigos. "Eu não tenho nada a ver com isso", repetiu o presidente do PT, no
último fim de semana. Primeiro, Genoino declarou que Marcos Valério "nunca"
tinha sido avalista do PT. Diante das provas, disse que tinha recebido
"informação equivocada" da Secretaria de Finanças, comandada por
Delúbio.

Embora a maioria do partido confie em Genoino, muitos acham que
ele deve se afastar do cargo, como o senador Eduardo Suplicy (SP) e o deputado
Chico Alencar (RJ). Os que defendem a permanência alegam que sair seria
confessar uma culpa que ele não tem. "É evidente que a pressão é grande, mas
Genoino não vai renunciar", afirmou o secretário de Relações Internacionais do
PT, Paulo Ferreira. "A situação é insustentável. Delúbio e Silvio devem pedir
licença, mas isso não basta. Na reunião do diretório nacional, deveremos
discutir toda essa crise, que bate no PT e no governo. Não há como separar os
dois", afirmou Romênio Pereira, um dos vice-presidentes.

O senador Paulo
Paim (PT-RS) admitiu estar "perplexo". "Seria hipocrisia dizer que não estamos
preocupados."