Um dos sete suspeitos de envolvimento na chacina da invasão Icaraí, ocorrida na noite de sábado, foi preso às 16h30 de ontem. A polícia encontrou o homem, de 30 anos, dentro de uma lanchonete no Cabral, conversando com seus advogados sobre sua possível prisão. O nome do detido não foi divulgado a pedido dos advogados à Justiça.

De acordo com o delegado Hamilton da Paz, titular da Delegacia de Homicídios, o preso é um dos seis assassinos que estavam nos três veículos e passaram atirando nos moradores da invasão. O suspeito gozava de liberdade provisória, após passar um tempo preso por porte ilegal de arma.

Outros envolvidos no massacre estão identificados e também tiveram as prisões temporárias decretadas pela Vara de Inquéritos Policiais, ainda na madrugada do crime.

Diante disso, a polícia tem poucos dias para reunir as provas contra o detido, para que possa transformar a prisão provisória em preventiva. Mesmo assim, explicou da Paz, já há embasamento suficiente para ligá-lo ao crime. Na delegacia, o homem permaneceu em silêncio e disse que só irá se pronunciar em juízo.

Armas

A polícia confirmou, através das cápsulas encontradas espalhadas pela vila e próximas aos corpos dos mortos, que os marginas usaram uma carabina calibre 30, além de pistolas 380, 9 milímetros e ponto 40.

O sexteto agiu a mando do líder do tráfico na região, que quis vingar a morte de seu sobrinho de 16 anos, assassinado uma semana antes, na Vila Lotiguassu, vizinha à Icaraí.

“Ele quis se vingar de uma vila inteira”, comentou o delegado. A polícia descartou a hipótese que o caso tenha sido uma disputa de forças entre traficantes da região. Desde momentos após a chacina, as Polícias Civil e Militar têm trabalhado ininterruptamente atrás dos suspeitos.

O delegado conta com o auxílio da população para localizar os suspeitos e identificar outros envolvidos. “Quem tiver informações, pode denunciar anonimamente”, disse. Os telefones da Delegacia de Homicídios são: (41) 3262-1837, 3262-2641 e 3363-0121.

Presença policial não acalma

Marcelo Vellinho

Átila Alberti
Viaturas percorrem o bairro, desde a noite de sábado.

Um dia e meio após a chacina o clima na região ainda era de temor no bairro. Mesmo com a presença de diversas viaturas, na manhã de ontem, era possível perceber, no rosto dos moradores, a preocupação e o medo.

Nas construções da Rua Helena Carcereri Piekarsi, uma das ruas por onde os criminosos passaram atirando, se destacavam os buracos deixados pelas balas, mostra do poder de munição dos assassinos.

Os poucos moradores que se manifestaram a respeito da barbárie mantinham o tom de revolta. “Agora a polícia apareceu, depois que já mataram todo mundo. Quando a gente ligou dizendo que iam passar atirando, não nos deram atenção”, indignou-se uma moradora, que preferiu não se identificar. Ela contou que, no final da tarde de sábado, surgiram comentários que marginais da Vila Icaraí iriam invadir a Vila União e atirar em quem estivesse pelas ruas.

Toque de recolher

Outros moradores disseram que indivíduos passaram num carro e avisaram que ninguém deveria sair de casa, porque haveria tiroteio. No entanto, no velório do gesseiro Everaldo dos Santos Silva, 25, familiares contaram que nem todos sabiam do suposto toque de recolher. “Meu pai mora aqui e não ouviu falar disso. Provavelmente o Everaldo também não sabia de nada&rd,quo;, contou o irmão da vítima.

Desabafo indignado

Mara Cornelsen

Dezenas de telefonemas e e-mails chegaram à Tribuna. Eram de pessoas revoltadas com a chacina da invasão Icaraí, que pedem providências para o combate à violência. Um dos mais comoventes foi o do padrinho do bebê de 5 meses, que foi morto junto com a mãe.

O nome dele não será revelado por motivo de segurança. Trata-se de um homem de 30 anos, que morou por mais de 20 na invasão e lá ainda tem pais, parentes e amigos. Seu compadre, Elias, pai do bebê, também morou lá por muito tempo, mas conseguiu vencer na vida e atualmente residia com a esposa no Ecoville.

Desolado, o padrinho conta que Elias foi visitar os pais dele naquela noite. Como seu pai é pastor evangélico, a família participou do culto numa igreja da invasão. Quando os três saíram, o carro que ocupavam foi perfurado por mais de 30 tiros. A mulher e o bebê morreram. Elias, que é executivo de uma marca de cosméticos, está “com a vida dilacerada”, como diz seu compadre.

Desesperança

Num desabafo, o padrinho lembra que a violência no local é de conhecimento de todos, mas que nada se faz para evitá-la. “A polícia só aparece com o fato consumado. Sempre foi assim e sempre vai ser assim. Todos que moram lá são marginalizados e vistos como bandidos. Estou chocado, sem saber o que fazer ou para onde correr. Não acho que os culpados por isso serão punidos, como nenhum culpado por outras barbáries ocorridas naquele local foi até hoje.”

Garoto-pivô deveria estar preso

Janaina Monteiro

O massacre de sábado poderia ter sido evitado caso o adolescente, sobrinho do traficante que ordenou a matança, ainda estivesse detido. O garoto, de 16 anos, era suspeito de matar um mecânico e teria sido morto com 15 tiros, na semana passada, em represália ao homicídio.

“O jovem foi solto porque o promotor encontrou fragilidade nas provas que havia contra ele”, contou a delegada Nilceia Ferraro da Silva, titular da Delegacia do Adolescente. Dessa forma, apenas o comparsa continuou detido.

“O Ministério Público deveria dar mais atenção aos casos de adolescentes suspeitos de assassinatos”, disse Nilcéia, ao afirmar que o número de adolescentes envolvidos em homicídios está aumentando a cada dia em Curitiba.

Policiais também reclamam

Redação

A desordem e a violência na invasão Icaraí deixaram indignados membros da polícia e políticos. “Isso é reflexo da falta de investimentos no setor”, reforçou um delegado em vias de aposentadoria, que não quer ser identificado para não sofrer retaliações.

A falta de policiamento ostensivo preventivo, antes tarefa exclusiva da Polícia Militar, é apontado como um dos principais motivos do avanço da criminalidade. Atualmente, com grupos especiais, os milicianos também fazem investigações outrora exclusividade da Polícia Civil.

Já a Polícia Civil, visivelmente sucateada sofre com falta de pessoal. “Estagiários de Direito e funcionários de prefeituras eram aproveitados para trabalhos internos, para que policiais de carreira pudessem investigar alguma coisa. Mas agora nem isso é possível”, revela outro delegado.

A maioria dos inquéritos é mal feita, o que propicia impunidade. “Quando o caso vai para a Justiça, faltam elementos para condenar o criminoso ou ele logo volta às ruas, mais fortalecido e ousado”, lembram os policiais.

Políticos

Na Assembleia Legislativa e na Câmara, a violência foi tema de muitos pronunciamentos. Os deputados da bancada governista derrubaram mais um pedido de convocação do secretário da Segurança Pública, Luiz Fernando Delazari, para informar ações do governo para conter a violência. Os vereadores também discutiram as mortes do fim de semana.