A Câmara Municipal de Curitiba realiza, nesta terça-feira (17), uma audiência pública para discutir propostas de implantação de escolas cívico-militares na rede municipal. A audiência, proposta pela vereadora Vanda de Assis (PT), reúne representantes da sociedade civil, sindicatos e entidades sociais para discutir pontos centrais da proposta:

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  • O modelo é viável?
  • Quais são os interesses?
  • O que muda na prática?
  • Por que implementar?

À Tribuna, a parlamentar afirmou que a audiência surge diante da preocupação com o avanço de projetos que podem alterar a estrutura da educação pública municipal. “Quando surgem projetos desse tipo, é fundamental abrir espaço para debate público. A audiência é justamente o instrumento democrático para garantir transparência, escuta e participação social antes de decisões que podem impactar toda a rede municipal de ensino”, afirmou.

Segundo a vereadora, o tema ganha força em um momento em que professores e profissionais da educação cobram medidas como melhoria na estrutura das escolas, realização de concursos públicos e valorização das carreiras. 

Ela também criticou a tramitação acelerada de propostas relacionadas ao tema no Legislativo. “Os projetos passaram rapidamente por comissões importantes, como Constituição e Justiça, Educação e Serviço Público, ignorando inclusive a inconstitucionalidade do modelo”, disse.

Vereadora Vanda de Assis (PT). Foto: Divulgação / CMC
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Atualmente, a Câmara analisa propostas apresentadas pelos vereadores Tathiana Guzella (União Brasil), Guilherme Kilter (Novo) e Eder Borges (PL). O projeto de Guzella já está pronto para votação em plenário e estabelece diretrizes para a adoção do modelo cívico-militar, sem obrigar sua implementação pelo município.

A autora do texto defende que o projeto responde a demandas por mais segurança nas escolas. “Antes de apresentar o projeto, me reuni com algumas comunidades no gabinete do bairro, quando faço prestação de contas, e todos, sem exceção, pediam mais segurança quando se tratava do assunto”, afirmou. 

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Segundo ela, críticas ao modelo partem de interpretações equivocadas. “Dizem que professores serão substituídos por militares, mas isso não foi proposto. É justamente o contrário: trata-se de fortalecimento pedagógico”, argumentou.

Como é a proposta?

Segundo a redação do projeto 005.00149.2025, o Programa de Escolas Cívico-Militares tem como objetivo “aprimorar o processo de aprendizagem, fundamentado nos elevados padrões dos colégios militares do Exército e da Polícia Militar já existentes”. A autora sustenta que a proposta se baseia em resultados observados em experiências já adotadas no âmbito estadual.

De acordo com o texto, o programa busca melhorar a qualidade do ensino e indicadores educacionais, como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). A vereadora Tathiana Guzella afirma que o projeto prioriza, em um primeiro momento, o desempenho educacional dos estudantes. Em seguida, segundo ela, a proposta também pretende reforçar a segurança de alunos e professores e estimular o respeito aos valores familiares e sociais.

Para isso, o texto prevê a criação de um núcleo com profissionais da Polícia Militar do Paraná ou da Guarda Municipal de Curitiba. Esse grupo atuaria no apoio à organização escolar, na segurança das unidades e na realização de atividades extracurriculares de caráter cívico-militar.

Na avaliação da vereadora, a presença desses profissionais contribui diretamente para a segurança no ambiente escolar. Como exemplo, ela menciona o caso ocorrido em um CMEI no bairro Abranches, na última quinta-feira (12/3). “Isso aconteceria se nós tivéssemos a presença de uma força de segurança pública na frente do CMEI?”, questiona.

A parlamentar também relaciona a proposta à necessidade de reforço de valores no ambiente educacional. “Antes das brigas, eram dos adolescentes, mas agora já vemos crianças brigando, muitas vezes, por falta de uma estrutura familiar. Cabe à escola ensinar, mas a educação deve vir da família”, afirma. “Eu vi, como delegada, que muitos dos adolescentes infratores tinham a falta dessa educação já na infância.”

Vereadora Tathiana Guzella (União). Foto :Divulgação / CMC

O que está em jogo?

A vereadora Tathiana Guzella afirma que o projeto não prevê retirada de direitos, mas a criação de diretrizes para que o poder público invista na qualidade do ensino e em ações que reforcem valores cívicos e éticos. Já a vereadora Vanda de Assis se posiciona de forma contrária à proposta.

“O modelo militar parte de uma lógica de disciplina e controle que é incompatível com o projeto pedagógico da educação pública. Disciplina não se constrói com medo ou repressão. Ambientes autoritários produzem silenciamento, afastamento dos estudantes e muitas vezes mais violência dentro da própria escola”, argumenta.

Para a parlamentar, as escolas precisam de investimento em profissionais e estrutura adequada. Ela defende a ampliação de equipes multiprofissionais, com psicólogos e assistentes sociais, além da valorização dos educadores. Na avaliação dela, a destinação de recursos para o pagamento de integrantes do núcleo militar pode comprometer investimentos diretamente ligados ao ensino.

“Em vez de investir na valorização dos professores e na melhoria das condições de ensino, cria-se uma estrutura paralela baseada em vigilância e controle. Se queremos melhorar a educação pública, o caminho é investir em profissionais qualificados e garantir estrutura para que as escolas funcionem”, completa.

Será realidade em Curitiba?

Questionada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Educação de Curitiba informou que não há, até o momento, iniciativas do Executivo para implementar escolas cívico-militares. A autora da proposta, Tathiana Guzella, afirmou que, no início da elaboração do projeto, se reuniu com a pasta para ajustes no texto.

Segundo ela, houve sinalização de interesse no modelo por parte da secretaria, acompanhada da recomendação de retirada de qualquer obrigatoriedade no projeto. A medida, segundo a vereadora, garante autonomia para que o Executivo decida sobre uma eventual implementação.

No entanto, o secretário da pasta não estará presente na audiência. A vereadora Vanda de Assis criticou a ausência atribuída à incompatibilidade de agenda. “Quando o Executivo se recusa a participar de um debate aberto sobre políticas que afetam milhares de estudantes, o que fica evidente é uma grave falta de respeito com o debate democrático e com a própria comunidade escolar”, afirmou.

A audiência está marcada para começar às 18h30, é aberta ao público e terá transmissão pelo canal oficial da Câmara Municipal de Curitiba no YouTube.