O litoral do Paraná foi ponto de partida para uma nova jornada internacional de um filhote de elefante-marinho-do-sul (Mirounga leonina). O animal foi resgatado em dezembro do ano passado na praia de Matinhos. Debilitado e com quadro de pneumonia, ele ficou quase um mês sob os cuidados da equipe multidisciplinar do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (LEC-UFPR), responsável pela execução do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS) no Paraná.
Recuperado e devolvido ao oceano no dia 21 de janeiro, em área próxima ao Parque Estadual Marinho da Ilha de Currais, o elefante-marinho-do-sul conseguiu continuar com a rota migratória.
O monitoramento por transmissor satelital – inserido pela equipe – indica que o filhote já se encontra na Argentina, a menos de 800 quilômetros da Península Valdez, uma das principais áreas de ocorrência e reprodução da espécie.
Conforme o rastreio das equipes, o elefante-marinho-do-sul percorreu mais de 1.500 km em menos de um mês.
Segundo a coordenadora do PMP-BS/LEC-UFPR, professora Camila Domit, o caso chamou atenção desde o início por se tratar de um filhote. “O registro de um filhote de elefante-marinho no Paraná é algo inédito e indica uma situação diferenciada, que exige resposta rápida e avaliação criteriosa, tanto sobre o estado do indivíduo quanto sobre os fatores ambientais que podem estar influenciando esses deslocamentos”, explica.
Durante o processo migratório, cerca de 15 dias após a soltura, o elefante-marinho foi avistado em La Coronilla, no Uruguai. O registro permitiu que o animal fosse acompanhado por parceiros da ONG Karumbé, referência na conservação marinha no país. A articulação entre equipes do Brasil, Uruguai e Argentina reforça o caráter internacional da conservação de espécies migratórias. “Esse caso demonstra que a conservação não tem fronteiras. Estamos falando de uma espécie subantártica que cruzou diferentes países em poucas semanas. A cooperação entre instituições é fundamental para garantir proteção ao longo de toda a rota migratória”, reforça Camila.
Transmissor satelital: tecnologia a favor da ciência e da conservação
Antes de ser solto novamente no oceano, o filhote passou por coleta de amostras biológicas, marcação por microchip e, de forma inédita no estado, pela instalação de um transmissor satelital, permitindo sua identificação e o acompanhamento diário de sua trajetória.
O transmissor foi instalado pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), no âmbito das atividades do PMP-BS, projeto do qual a instituição é responsável técnica pela Área SC/PR. O equipamento é leve e seguro, sendo projetado para se desprender naturalmente ao longo do tempo, sem causar danos ao animal.
“Essa possibilidade de monitorar em tempo real tanto o deslocamento como o comportamento do animal no oceano nos fornece dados sobre como ele usa o ambiente. Com a análise dos dados de mergulho e da temperatura da água onde ele esteve, podemos ter uma ideia melhor de como esses animais escolhem os locais para onde vão”, explica o biólogo André Barreto, coordenador geral do PMP-BS Área SC/PR.
O monitoramento já demonstra que o filhote segue em direção às áreas naturais de ocorrência da espécie na Argentina, aproximando-se da Península Valdez.
Um novo capítulo para o filhote
A trajetória do filhote — de Matinhos à costa argentina — representa um caso bem-sucedido de reabilitação, mas também um exemplo de como o desenvolvimento da ciência, estratégias de monitoramento ambiental sistemáticas e cooperação são fundamentais para a conservação de espécies migratórias em um cenário de mudanças ambientais globais.
“Cada etapa dessa história reforça a importância do monitoramento contínuo e das ações colaborativas. Agora, seguimos acompanhando os próximos capítulos dessa jornada, que começou no Paraná e segue rumo às áreas ao sul e de uso frequente pela espécie no Atlântico Sul”, conclui Camila.
Sobre o PMP-BS
A realização do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS) é uma exigência do licenciamento ambiental federal, conduzido pelo Ibama, para as atividades da Petrobras de produção e escoamento de petróleo e gás natural na Bacia de Santos. No estado do Paraná, Trecho 6, a execução é realizada pela equipe do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (LEC/UFPR) (@lecufpr e www.lecufpr.net).
