Com 333 anos completos neste domingo (29/03), a história de Curitiba é contada nas ruas. Não por acaso, os curitibanos cultivam um fascínio pelas próprias vias, como a Rua do Outono, Rua 24 Horas, XV de Novembro. Turísticas ou discretas, é nelas que a vida acontece enquanto, há pelo menos uma década, a arte urbana vem atribuindo novos significados a esses espaços.

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Se antes grafites e grandes murais eram pouco presentes no cotidiano, hoje eles se integram à paisagem do Centro e ajudam a redefinir o olhar sobre a cidade. Entre essas obras, os retratos de Helena Kolody, Poty Lazzarotto e Paulo Leminski se tornaram parte da cidade. E o que todos eles têm em comum? A assinatura de Gardpam, identidade artística de Fernando Ferlin.

Paranaense, Fernando chegou a Curitiba ainda na infância, aos sete anos, e fincou raízes. Desde cedo, carregava consigo o desejo de intervir no lugar onde vivia. “Desde a minha adolescência, tive um pensamento de poder transformar o local e a comunidade onde eu vivo”, relembra. Entender como transformar essa inquietação em ação, no entanto, veio mais tarde.

Anos depois, enquanto cursava Terapia Ocupacional na Universidade Federal do Paraná (UFPR), decidiu romper com a rotina. Ao lado da esposa, Pamela, e das duas filhas pequenas, passou sete meses vivendo em um carro. Nesse período, a família percorreu 21 estados brasileiros, em uma experiência que ampliou o olhar dele sobre o país e a arte.

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Mesmo já inserido na arte urbana, a vivência na estrada aprofundou o contato de Fernando com outros artistas e formas de expressão. Foi nesse percurso que o grafite e o muralismo ganharam um novo significado, aproximando-se de algo que ele já conhecia: a terapia.

“Não é só uma atividade recreativa para mim mesmo. É um antídoto”, afirma. Para Fernando, cada obra vai além da estética e carrega a possibilidade de provocar reflexão. “Conforme as pessoas observam, elas podem ter a percepção de que algo toca mais profundamente sobre aquela arte.”

Mural de Helena Kolody, no Centro de Curitiba. Foto: Arquivo/Átila Alberti/Tribuna do Paraná.

Valorização de quem marcou a história de Curitiba

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Em 2025, Curitiba recebeu 2,9 milhões de turistas de outras cidades do Brasil, além de 28 mil visitantes do Chile e 24 mil da Argentina. Dados do Instituto Curitiba Turismo mostram que as atividades mais procuradas incluem museus, parques, bosques e feiras.

Com incentivos para consolidar a cidade como sede de shows internacionais, polo de negócios e grandes eventos, o comportamento dos visitantes segue um caminho já esperado. Ainda assim, a preferência pelos itens mais buscados do ranking indica um interesse que vai além dos espaços e que passa também pelas pessoas. 

Segundo o artista, ao começar a retratar rostos conhecidos dos curitibanos, a proposta era valorizar agentes culturais que marcaram a história local. “No nosso país, valorizamos mais os trabalhos braçais e a formação acadêmica. Aprendemos desde cedo que precisamos trabalhar, mas nunca que podemos ser artistas, músicos e escritores. E isso é importante”, conta Gardpam.

Como forma de honrar aqueles que ajudaram a construir a identidade cultural de Curitiba, os murais são um presente para resgatar a própria memória. Desde 2023, ele tem espalhado pela cidade imagens de nomes que projetaram a capital paranaense como um polo artístico. O trabalho é independente, financiado por campanhas promovidas em seu próprio perfil.

Próximos murais de personalidades em Curitiba

Apesar dos desafios, os projetos de Gardpam seguem em andamento. Entre os próximos planos está um mural em homenagem ao ex-prefeito e ex-governador do Paraná, Jaime Lerner, e do artista Plá, na Rua XV. Novas obras como presentes ao cotidiano dos curitibanos, de gente para gente.