Curitiba antiga

Você sabia? Antes do primeiro teatro, touradas eram entretenimento em Curitiba

Antes do 1º teatro oficial, inaugurado em 1884, touradas e outras atrações itinerantes ocupavam as praças de Curitiba
Arte: Larissa Nouchi/CMC

Em 1855, o jornal Dezenove de Dezembro defendia a importância do teatro como um “elemento de civilização e progresso”. Apesar do apelo, Curitiba levou quase três décadas para ter um teatro oficial. O Teatro São Theodoro, primeiro da cidade e embrião do atual Centro Cultural Guaíra, só foi inaugurado em 28 de setembro de 1884.

Antes disso, a vida cultural da capital era movimentada por espetáculos itinerantes. No século 19, circos, trupes teatrais mambembes e até touradas ocupavam largos e praças públicas. Companhias vindas do Brasil e do exterior montavam estruturas provisórias para apresentações que reuniam grande público e faziam parte do processo de transformação de Curitiba, então uma cidade considerada pequena e ainda em transição do rural para o urbano.

Touradas em Curitiba

As touradas, realizadas na cidade entre 1856 e 1916, chegaram a ser vistas como símbolo de modernidade e progresso, embora também tenham gerado críticas pela violência contra os animais. Em alguns casos, os eventos mobilizavam milhares de pessoas e chegaram a registrar episódios de risco, como o desabamento de arquibancadas em 1895, que deixou vários feridos.

As touradas também eram chamadas de corridas de touros, praça de touros, circo de touros e de tauromaquia. O primeiro registro da imprensa local em relação às touradas foi em 13 de fevereiro de 1856, quando o diretor da companhia comunicou ao “respeitável público” o novo divertimento da cidade, que desde 1837 já teria passado “por todas as Províncias deste Império”. A estreia do espetáculo ocorreria no dia 21 de fevereiro, mas, em função do período de quaresma, foi transferida para o domingo de Páscoa. 

“Domingo 23 do corrente, se o tempo permitir, terá lugar o primeiro divertimento de corridas de touros”, registrou o “Dezenove de Dezembro”, na edição de 19 de março de 1856, sobre o circo montado em frente ao Palácio do Governo, que ficava entre as ruas das Flores e da Carioca, a atual rua Riachuelo.

As companhias itinerantes se instalavam em praças públicas da cidade, à época ainda chamadas de largos. A exemplo de outros divertimentos, como bailes públicos e rinhas de galo, era necessário o pagamento de impostos à Municipalidade – neste caso, da “licença tauromáquica”.

Com o passar do tempo, se antes eram vistas como símbolo de civilidade e progresso do Império, as touradas, no fim do século 19, já enfrentavam resistência e críticas pela brutalidade contra os animais. No estudo sobre a tauromaquia, Victor Andrade de Melo e Leonardo do Couto Gomes citam que um deputado constituinte por Pernambuco, Pedro Américo de Figueiredo e Melo (18431905), apresentou, em 1892, projeto de lei com o objetivo de proibir as corridas de touros e “todos os espetáculos cruéis e contrários à índole nacional”.

Os últimos registros de touradas realizadas em Curitiba são de 1916. À época capital da República, o Rio de Janeiro vetou a realização de touradas por meio de decreto, em maio de 1908. Em Curitiba, isso só ocorreu em 1934, quando o presidente Getúlio Vargas decretou a proibição das lutas entre animais.

A pressão pela construção de um teatro em Curitiba

Paralelamente, companhias de circo e teatro também atraíam o público. Um dos episódios mais marcantes ocorreu em 1876, quando o artista mexicano Ceballos realizou um voo de balão diante de uma multidão no largo da Matriz, despertando curiosidade e entusiasmo entre os moradores.

Nesse período, peças teatrais eram encenadas em espaços improvisados ou alugados. Em 1855, um teatro provisório foi montado em uma casa de madeira na rua da Direita, atual Rua 13 de Maio, onde a companhia de Domingos Martins de Souza realizou apresentações. A imprensa e a própria cena cultural passaram a pressionar pela construção de um teatro permanente.

A demanda se concretizou com a inauguração do Teatro São Theodoro, que se tornou o principal centro cultural da cidade por cerca de uma década. O prédio, porém, enfrentou períodos de fechamento e mudanças ao longo do tempo, chegando a ser usado como presídio e, depois, reformado e reaberto como Theatro Guayra em 1900.

Com o crescimento da cidade e novas formas de entretenimento, como cinemas, esportes e parques de diversão, as antigas atrações itinerantes perderam espaço. Já o antigo teatro acabou sendo interditado e demolido em 1937 por questões de segurança. Anos depois, o local recebeu a Biblioteca Pública do Paraná, enquanto um novo Teatro Guaíra foi inaugurado em 1954, consolidando a tradição cultural iniciada ainda no século 19.

*Com informações da Câmara Municipal de Curitiba

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