Olinda (PE) – A desnutrição é uma das doenças mais graves causadas pela fome e atinge principalmente as crianças, que se tornam vítimas vulneráveis da falta de alimentação adequada. Cerca de 50% dos casos de mortalidade infantil registrados atualmente no Brasil estão relacionados diretamente com a desnutrição. A avaliação é de Malaquias Batista, professor de Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e um dos maiores especialistas brasileiros no tema. Batista é membro do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea) e um dos participantes da 2a Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Combate à Fome, aberta ontem à noite pelo presidente Lula, em Olinda.

?A desnutrição, infelizmente, não é muito conhecida. Nós tendemos a achar que a desnutrição é um fato normal. Habitualmente, pega-se a criança com desnutrição, internam-na e colocam no prontuário ‘estado geral mau’, ou seja, criança desnutrida, mas, a partir desses dados, não há cuidados especiais?, alerta.

A partir de um protocolo de técnicas para reduzir a mortalidade infantil, criado originalmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS), um grupo de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, dentre eles o professor e sua aluna de doutorado, Ana Falbo, decidiu implantá-lo no Instituto
Materno-Infantil de Pernambuco (IMIP), reduzindo os índices de mortalidade infantil do instituto de 38% para cerca de 12% em dois anos.

?O que se fez aqui no Recife foi a primeira etapa. Foi experimentado na África, sem as condições adequadas de se cumprir esse protocolo; e a segunda vez, aqui no Recife, com algumas adequações?, revela.

Ele ressalta que o tratamento direcionado à criança desnutrida deve seguir a uma série de regras específicas para atingir o principal objetivo de evitar a mortalidade infantil. ?A criança desnutrida grave tem uma segunda biologia, que é diferente da biologia de uma criança normal. Existem particularidades criadas pela desnutrição, que fazem com que o tratamento deva ser modificado, considerando especificamente a situação da criança, independente de outra doença que ela tenha?, disse ele.

O professor lembra, ainda, que o acompanhamento posterior é fundamental para garantir a sobrevida do paciente fora do hospital, assim como a capacitação dos profissionais da área de saúde.

?O que se procura é aprofundar a experiência, inclusive desenvolvendo um componente de acompanhamento da criança depois da sua etapa de hospitalização e, em segundo lugar, formar recursos humanos e expandir a experiência já para outros hospitais que recebem crianças em caso de desnutrição grave?, afirma.

Malaquias, que realizou a palestra “Aspectos Nutricionais e de Saúde” durante a II Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, disse que a intenção é levar o projeto a todos os hospitais e maternidades de Pernambuco e depois estendê-lo para todo Brasil.