Há uma batalha sem tréguas contra a exclusão social e das boas intenções dos integrantes da vanguarda dessa luta não é justo nem faz sentido duvidar, posto que lorde Keynes tenha assegurado estarem os cemitérios cheios delas. O cenário é desolador, observando-se a dimensão do rombo e o tempo requerido para o reparo, alimentadores da dúvida e do desânimo.

O conhecido economista Márcio Pochmann, até recentemente secretário de Relações de Emprego da Prefeitura de São Paulo, revela com base no livro Atlas da Exclusão Social – Agenda não liberal da inclusão social no Brasil a necessidade de R$ 7,2 trilhões até 2020 para o Brasil saldar a conta da inclusão social avançada e chegar aos padrões registrados no Primeiro Mundo.

A cada ano, esse caixa deve dispor da quantia de R$ 450,7 bilhões, segundo cálculos divulgados pela imprensa a partir do impacto gerado pelo pronunciamento do ex-secretário. Como se vê, uma tarefa gigantesca, ainda mais quando se tem em conta um País como o nosso, há longos anos em busca do sonhado desenvolvimento econômico, mediante o qual consiga reduzir o desequilíbrio gritante.

Pochmann diz que padrões semelhantes aos existentes na França e Japão, por exemplo, somente serão obtidos no Brasil quando houver investimentos suficientes para equiparar a oferta de equipamentos e serviços públicos, como saúde, previdência social e empregos decentes.

O volume de dinheiro necessário equivale a 27,6% do Produto Interno Bruto (PIB) e, além dos setores citados, deverá ser aplicado também em habitação, cultura, informática e combate à miséria. Caso isso não aconteça na proporção estimada pelo economista, em 2020, nossos indicadores de exclusão social estarão bastante piores. A crônica antecipada dessa catástrofe social e humana é um libelo aos atuais dirigentes políticos do País e aos eleitos em 2006, 2010, 2014 e 2018, quando haverá eleições gerais se os mandatos continuarem com a duração de quatro anos.

Governar, entre outras coisas, é exercitar uma visão de futuro. Nunca antes o País careceu tanto de estadistas com real capacidade de absorção da gravidade de uma problemática extrema em sua crueldade social, cujo combate não depende apenas de ciclos continuados de crescimento econômico. Pochmann relembra os vários períodos de crescimento vividos pelo Brasil, embora não tenha logrado otimizar os índices de inclusão.

É um paradoxo melancólico, mas na constatação do pesquisador, inúmeras tentativas de organização econômica feitas no Brasil acentuaram a desorganização social, tendo em vista a ausência de metas a serem atingidas nessa área. Mesmo diante do custo altíssimo da melhoria da inclusão e, por isso, quase impossível de ser pago, Pochmann arrisca o prognóstico da inversão corajosa de prioridades para estancar a corrente de fracassos do governo na questão social.

A idéia da dimensão do desafio posto aos governantes do Brasil até 2020, considerados os padrões japoneses em termos de ocupação decente, jornada de trabalho e salários, se reflete na necessidade de gerar 56,3 milhões de empregos nos próximos quinze anos. A meta é alcançável, assegura Pochmann, se o PIB crescer na escala de 5,4% no mesmo lapso de tempo.

Diante de aspectos estruturais até aqui imbatíveis na resistência oferecida aos planos de desenvolvimento econômico, é quase uma quimera supor a capacidade brasileira de suplantar o desemprego. O desafio é formidável e se não for atacado agora, em vez dos 22,3 milhões de desempregados atuais poderemos ter 34,8 milhões em 2020.

O desfecho é chocante; pior, impensável. Em maior grau para a geração atualmente entre dez e quinze anos de idade. Essas crianças exigem dos governantes, desde já e ao longo da próxima década e meia, um compromisso inquebrantável com o futuro.