Em depoimento hoje à CPI dos Correios o ex-assessor da Casa Civil e ex-secretário de Comunicação do PT Marcelo Sereno reconheceu que todas as indicações para a direção dos fundos de pensão de empresas estatais passaram pelo crivo da Casa Civil e que a maioria dos designados era oriunda do movimento sindical. Braço direito do ex-ministro José Dirceu, Sereno negou, no entanto, qualquer influência sobre as operações e transações financeiras feitas pelos fundos de pensão.

"É natural a designação de dirigentes com origem sindical para os fundos. No governo anterior isso também ocorria só que não tinha tanta gente do movimento sindical que era de confiança deles", afirmou Sereno, ao lembrar que sua militância política tem origem no movimento sindical. "Não acompanhava os fundos de pensão para saber o que cada um deles tinha de investimentos em carteira própria", garantiu.

Marcelo Sereno contou que "teve contatos", inclusive no Palácio do Planalto, com o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza. "Em 2004, eu pensava em me candidatar à Câmara dos Deputados e me encontrei com o Marcos Valério para tratar de uma eventual campanha. Foram contatos em função dele (Valério) ser dono de uma agência de publicidade. Nunca conversamos nada sobre fundos de pensão", disse.

Em quase três horas de depoimento, Marcelo Sereno admitiu que influenciou duas vezes na escolha de dirigentes de fundos: na Funcef, dos empregados da Caixa Econômica Federal (CEF), e na Refer, dos funcionários da Rede Ferroviária Federal (RFFSA). "Necessitei intervir para compor forças nesses dois fundos", explicou. Apontado como o responsável pela indicação dos dirigentes de fundos de pensão de estatais, Sereno afirmou que apenas encaminhava as indicações que passavam pela Casa Civil.

Às vésperas do fim da CPI dos Correios, o depoimento do ex-assessor da Casa Civil foi esvaziado e contou apenas com a presença do sub-relator de fundos de pensão, deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) e do deputado Carlos Abicalil (PT-MT), que foi à sessão para defender o ex-dirigente petista. O senador Heráclito Fortes (PFL-PI) apareceu no final do depoimento de Sereno.

No depoimento, Marcelo Sereno confirmou que é amigo de Murilo e Christian de Almeida Rego, filhos do operador de mercado Haroldo Pororoca. Murilo e seu irmão Christian são apontados como responsáveis por supostas operações irregulares com fundos de pensão. "Nunca tratei nada com o Murilo sobre fundos de pensão", garantiu. Sereno atribuiu ainda a vinculação de seu nome a supostas irregularidades na Prece, fundo de pensão dos funcionários da Companhia Estadual de Água e Esgoto (Cedae), à "luta política" entre o PT e o ex-governador do Rio Anthony Garotinho. "Eu era uma pessoa importante e, portanto, um alvo natural dos adversários políticos locais", disse. Marcelo Sereno foi secretário de Governo de Benedita da Silva, no Rio de Janeiro, em 2002.

O ex-assessor da Casa Civil negou ainda que tenha telefonado para Gildásio Amado Filho, ex-diretor financeiro da Nucleos (fundo de pensão das empresas da área de energia nuclear), e pedido que ele recebesse Fernando Barros Teixeira, que era representante da ASM Asset Management, uma gestora de recursos de terceiros. Segundo Gildásio, havia um bilhete em sua mesa na Nucleos pedindo para que ele recebesse Teixeira. "Alguém pode ter produzido esse bilhete. Não pedi para ele receber ninguém", afirmou Marcelo Sereno.

ACM Neto informou hoje que pretende apresentar, na segunda-feira, ao relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), o texto com as conclusões sobre o eventual desvio de recursos de fundos de pensão. Ao todo, a sub-relatoria de fundos de pensão ouviu 66 pessoas. Sereno foi o último convocado a depor na sub-relatoria de fundos de pensão. "Vamos fazer um apelo para que o Ministério Público conclua as investigações que não puderem ser concluídas pela CPI", disse.