São Paulo – O grande rombo na Previdência Social quem faz são os encarregados de administrar o sistema. A principal suspeita é a Dataprev, empresa estatal que processa as aposentadorias no País. E também o INSS. O desvio de recursos pode chegar a R$ 10 bilhões, todos os anos. O caso é tão escabroso que o Palácio do Planalto colocou a Agência Brasileira de Inteligência (o serviço de espionagem brasileiro) para saber o tamanho da fraude. Um levantamento sobre o assunto é tema de reportagem da revista IstoÉ, que chega às bancas neste fim de semana.

Uma auditoria recente do Ministério da Previdência, que serve de base para a Polícia Federal, revela que as fraudes contra a Previdência encontram terreno fértil para se reproduzir no sistema operacional ultrapassado da Unisys. "O rombo da Previdência pode chegar a R$ 10 bilhões ao ano, o que equivale a dez PC Farias", confidenciou a um senador do PMDB o ministro Amir Lando. As falhas de segurança permitem fraudes incríveis: mortos que continuam recebendo, trabalhadores que figuram como ativos em um cadastro e aposentados em outro, dentro do mesmo banco de dados, aposentadorias e pensões por morte em nome dos mesmos segurados e benefícios cancelados por irregularidades que são misteriosamente reativados.

A fraude é tanta que beneficiários, em algumas cidades, chegam a superar de longe a população de idosos medida pelo IBGE. Na última quarta-feira, um alto assessor do ministro Amir Lando assinou com a direção da Abin um acordo de cooperação técnica para treinar servidores da Previdência em assuntos de inteligência, para combater as fraudes. Eles farão um curso reservado na Escola Nacional de Inteligência. A próxima fase é chamar a polícia para pegar os ladrões em flagrante.

Além disso, o Palácio do Planalto colocou a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) no encalço da Dataprev, estatal que processa as aposentadorias e contribuições da Previdência, e do INSS, que faz o pagamento e atendimento aos segurados. Na segunda semana de novembro, agentes da Abin baixaram na Dataprev, no Rio de Janeiro, procurando informações sobre a ligação entre a empresa e a Unisys, multinacional que cuida da operação de informática da Previdência há 30 anos. Motivo: computadores da Dataprev processam o segundo maior orçamento da República, R$ 150 bilhões por ano.

Os agentes queriam saber de ligações pessoais a preços de serviços e contratos envolvendo a estatal e a multinacional. Quem mandou os agentes foi o Gabinete de Segurança Institucional (GSI). E eles disseram que uma das preocupações do governo era a movimentação da Unisys para disputar, no megaleilão marcado para amanhã, 24, a administração das loterias da Caixa Econômica Federal, um negócio de R$ 1,3 bilhão, que hoje está nas mãos da Gtech.

Bezerra e Cabral estão na corda bamba

São Paulo – O INSS entrou na história por conta da responsabilidade de alimentar o banco de dados gerido pela Dataprev. As apurações começaram em setembro e renderam vários relatórios, carimbados como secretos pela Abin e que já passaram pela mesa do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.

Até a estabilidade no emprego de seu presidente, José Jairo Ferreira Cabral, corre risco. Considerado intocável dentro do governo, Cabral apregoa ser amigo pessoal de Lula. Nesta semana, a Controladoria Geral da União vai engrossar o cerco à Dataprev, remetendo à Previdência dados sobre auditorias especiais denunciando ligações mal-explicadas entre a multinacional americana e a estatal.

O governo quer abrir a caixa-preta da Previdência. Dos arquivos da Previdência, compostos pelo cadastro de 23 milhões de benefícios, 150 milhões de trabalhadores, 20 milhões de empresas, listagens de devedores e registros de óbitos, pouca coisa roda no sistema aberto.

Em dezembro, o Ministério Público pediu formalmente ao ministro Amir Lando o afastamento de Jairo Cabral da presidência da Dataprev, junto com o presidente do INSS, Carlos Bezerra, por improbidade administrativa.

A grande farra da Previdência

A Previdência não sabe o endereço de 898 mil beneficiários, mas paga em dia. São R$ 225 milhões que vão para gente que nem o governo sabe.

Nas faixas etárias acima de 70 anos, há mais beneficiários que pessoas vivas.

Na faixa de 70 a 74 anos, há um excesso de 223 mil benefícios.

Na faixa de 75 a 79 anos, a Previdência paga 442 mil benefícios a mais que o número de pessoas com esta idade.

Na faixa de 80 a 84 anos, o excesso de benefícios é de 313 mil.

A Previdência paga 759.354 benefícios a pessoas na faixa de 85 a 89 anos, 224.483 a mais que o número de idosos.

A Previdência paga 323.759 segurados com idade de 90 a 94. Mas o Brasil tem 180.426 pessoas com esta idade.

Na faixa dos 100 anos, a Previdência paga 75.407 benefícios em excesso.

Segurados que morreram continuam a receber. 880 mil benefícios não podem ser cancelados sem avisar a família.

Fonte: revista Isto É