Em 1953, o escritor Rubem Braga alertou aos leitores da Revista Manchete que não deixassem de ver, no fundo de uma exposição no Museu de Arte Moderna, um quartinho escuro onde se passava um “cineminha”. “A fita (que não é fita) leva 3 minutos e 24 segundos. Não há figuras, mas apenas formas coloridas que se movem, criando composições contínuas, que vão se modificando lentamente.” Era a descrição de um Aparelho Cinecromático de Abraham Palatnik, uma das mais belas invenções da arte brasileira.

Já naquela época, o artista, pioneiro da arte cinética no Brasil, era reconhecido como um dos mais originais (termo do crítico Mário Pedrosa) em atividade. Hoje, aos 86 anos, Palatnik, nascido em Natal, no Rio Grande do Norte, mas residente no Rio, produz diariamente, e está totalmente focado, como conta o curador Felipe Scovino, em sua obra atual, basicamente, nas pinturas da série W, composições de ripas de madeira cortadas a laser, coloridas com acrílica. E, sendo assim, uma delas, feita este ano, está presente na mostra Abraham Palatnik – A Reinvenção da Pintura, retrospectiva que o Museu de Arte Moderna (MAM) inaugura agora e que perpassa a trajetória do criador.

Felipe Scovino e Pieter Tjabbes assinam a curadoria da exposição, já apresentada em Brasília e em Curitiba antes de chegar a São Paulo, ampliada. Seguindo um percurso cronológico, a exibição começa com um conjunto raro de pinturas e carvões figurativos – naturezas-mortas e retratos -, que Palatnik realizava na década de 1940. Mas já é uma história conhecida o fato de o artista ter pensado em “começar de novo” sua arte depois da impactante visita que realizou, na época, ao Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Rio, a convite do colega Almir Mavignier. No local, conheceu as obras de esquizofrênicos tratados pela dra. Nise da Silveira.

A retrospectiva coloca, assim, esses trabalhos antigos de Palatnik de frente para os de dois pacientes, Emygdio de Barros e Raphael Domingues. É a menção a um episódio crucial em sua carreira, o salto para a invenção. É o momento em que o artista une sua destreza para as máquinas (reconhecida quando desempenhou curso de mecânica de motores em Tel-Aviv na década de 1940) e sua ligação com o pictórico, nunca abandonada. “Seu olhar é sempre para a pintura”, afirma Scovino, e por isso a menção ao gênero no título da exposição.

Seguindo o percurso da mostra, uma sala, surpreendentemente, reúne um conjunto de quatro Aparelhos Cinecromáticos. Tjabbes calcula que há, no mundo, cerca de apenas dez dessas históricas criações dos anos 1950 e 60.

Depois deles, um ambiente aberto e central no museu abriga 15 Objetos Cinéticos de Palatnik, delicadas engrenagens com seus mecanismos expostos e audíveis, feitas com ímãs, fios de metal e figuras coloridas de fórmica produzidas, principalmente, entre 1966 e 67. Munidas, agora, de temporizadores, as máquinas terão funcionamento revezado durante a mostra, com intuito de preservá-las.

“É sempre importante o lado artesanal de sua obra e o fato de ele se sentir artesão perpassa toda a mostra”, diz Tjabbes sobre o artista. Dessa maneira, vemos o trânsito natural e fascinante que Palatnik faz entre o bidimensional e o tridimensional em sua pesquisa dedicada à questão do movimento, seja criando máquinas, peças de design ou composições com ripas de madeira ou cartões cortados e barbantes. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.