Nenhum sábio ou profeta soube, nem consta em escrituras sagradas ou laicas, que há milênios havia um paraíso preservado no sul do globo terrestre. Habitavam-no os nativos, agraciados com a natureza indescritivelmente maravilhosa. Viviam em clãs livres e felizes nas suas tabas igualitárias. Caçavam, pescavam, plantavam e colhiam para a subsistência, tudo dividindo. Pintavam-se, amavam, dançavam e cantavam em ação de graças. Mas o eldorado foi descoberto e logo invadido por brancos mal civilizados que, com suas armas, desembarcaram das caravelas. O coração apequenado pela cobiça. Pesavam na carga preconceitos, ressentimentos, ódios e intolerância. Resquícios do espírito de hordas, vigente também no feudalismo, nos reinos e impérios degradados com os derramamentos de sangue. Crimes hediondos na bagagem pretérita, de quando saqueavam e escravizavam, se não matassem os vencidos. Escravos e camponeses sofriam torturas, amputações, crucificação. Agora, a violência se organizava nos estados nacionais, sob monarquias, após a guerra dos Cem Anos, das Duas Rosas, de grandes conflitos camponeses e religiosos. Considerável avanço, apesar das cruzadas, da inquisição e de apontar para as guerras de maiores proporções entre nações, o colonialismo, revoluções e hecatombes mundiais. Eles, sim, com o legado recebido dos bárbaros, poderiam necessitar dos padres a bordo. Não controlariam a ganância e suas paixões tão fortes, desordenadas, dominadores e livres de controle. Não teriam uma alma pura como a possuíam os indígenas. Estes sem pecados, puros de coração. Tanto que os recebiam de braços abertos, em cruz como a das estrelas assinalando o sul.

“Salvar essa gente”, dizendo-a “ingênua e inocente”, sugerira Pero Vaz de Caminha em carta ao rei, anunciando a descoberta. O rei D. João III, fanático religioso, deixara claro que não fora sua intenção a de povoar a terra, mas a de exaltação da fé católica e salvação das almas. Fora drástico ao mandar Mem de Sá com um regimento de sua alteza, para ajudar a conversão “por paz ou por guerra, ou como mais conveniente fosse”. Sob este céu, a salvação não depende da crença ou da raça, mas das virtudes, em ser humilde, bom, um homem de coração magnânimo.

– Até um mau pode regenerar-se, tornar-se bom; porém nunca por imposições – achávamos.

– Quando meninos, em nosso país já havia gente de todas as raças e credos. Estavam superadas as divergências entre elas sobre salvação, pela qual se clamava na antigüidade, e que resultaram em guerras no velho mundo. Para nós não havia dúvidas de que não dependia desta ou daquela religião para merecê-la, mas ser apenas como um índio ou um negro, um homem de coração, um homem bom. Um pensar de brasileiro.

Uma vez, em frente aos alunos, numa discussão entre dois professores, o beato argumentava que a grande meta das expedições fora a salvação pela qual Jesus viera a Terra.

– Por isso, nasceu no velho mundo, e não no Brasil onde os índios já estavam salvos! – contestara o outro acrescentando apoiado: vieram acorrentá-los.

De boa-fé, generosos e hospitaleiros, viram-se traídos ao acolherem os civilizados. Após a primeira missa, começaram a ser apresados e depois massacrados em suas aldeias, muitas delas jesuíticas, pelas bandeiras bárbaras em busca de escravos e tesouros. Ou pelas caravanas povoadoras a se apropriarem de seus campos. Mas as índias já haviam seduzido os portugueses e dado à luz o caboclo, iniciando a formação do povo. O Brasil correspondia à inspiração de Camões, “cessara tudo que a antiga Musa cantava, pois um valor mais alto se levantava”.

Milhões de indígenas, após a guerra de extermínio e a mistura das raças, reduziram-se a um punhado de tribos dispersas, espoliados em reservas devastada por exploradores.

Os navegantes de pensamento, que singravam os mares das letras, das artes, da história, redescobriam o mundo antigo e nele os valores eternos. Do período medieval trariam da pregação dos beneditinos o culto de honra, coragem, de defesa dos mais fracos e bondade para com os pobres. Talvez as caravelas, descobrindo o mundo novo, transmitissem-nos o humanismo e não apenas o progresso material, a cobiça da coroa, do papado, ou de mercadores, companhias e inescrupulosos aventureiros. Talvez cá desembarcassem a Renascença, era de evolução, talvez de uma nova humanidade. Esta seria bem-vinda com seus frades franciscanos, afins nos sertões brasileiros. Colonizadores nos dariam uma língua tão bela quanto o nheengatu e outras nativas, chancelando uma nova unidade nacional. Desenvolver-se-iam as forças produtivas com a introdução de instrumentos de trabalho, machados, foices, enxadas, aparelhos mecânicos, monjolo, moendas, rodas hidráulicas e do oleiro, tachos e panelas de metal, carros-de-boi e, por fim, animais domésticos. Imperceptível, havia também uma carga nefasta. Não imaginária como os monstros de um mar tenebroso ou das terras desconhecidas, porém real; formas fantasmais de violência presas à nuca dos invasores, os preconceitos. Decerto não demoraria a chegar o iluminismo, e cá não haveria de ser limitado, visando esclarecer os déspotas, mas para iluminar todos os homens. Se continuaram déspotas, não eram realmente iluminados, mas apenas cultos como os doutos. Portugal, que se deslocara além-mar, cresceu tanto que não mais cabia na Europa. Prendeu-se aos braços de Moemas, Paraguassus e Chicas da Silva. Não resistiu à cor das brasas, à cor do pau-brasil, o rosado na pele de uma índia, ou da noite estampada nas faces e no corpo ardente das escravas negras.

Mas a casta colonizadora viria transpor o sistema de exploração feudal para o novo continente. A coroa proibiria o progresso no Brasil, não permitiria a construção de estradas, a existência de engenhos, fábricas, tipografias, escolas, livros. Os reinóis necessitavam de trabalhadores para sustentá-los. Seriam os índios, os negros e os mestiços. A companhia jesuítica tornou-se a maior proprietária urbana da colônia. Em face da resistência dos nativos à escravização, os colonizadores valeram-se do tráfico negreiro. E então chegara a raça forte e boa, milhões de homens e mulheres que foram agrilhoados nos engenhos, nas fazendas, ou livres de ferros nos quilombos. Chamava-se banzo a saudade que misturaram a todos os cantos, danças, no folclore, nas artes, na música. Foram eles os trabalhadores do campo, das aldeias, que de pedras edificaram palacetes, mosteiros, igrejas. E as sociedades latino-americanas jamais seriam extensões de civilização européia, suposição de velhos historiadores.

Com as levas de aventureiros, de degredados pobres e injustiçados, na maioria portugueses, uma miscigenação cada vez maior originava o mestiço brasileiro, o caboclo e o mulato. Formava-se o proletariado nas sesmarias. Viriam engrossá-lo e a população os imigrantes em busca de uma nova vida e oportunidades de trabalho. Nas vilas e cidades, então surgiria a classe média, com a emigração do campo para o trabalho urbano, e até mesmo pequeno operariado industrial. E em toda essa gente predominava um sentimento que ficou gravado para sempre na alma brasileira: a esperança!