Um giro pelo arquivo de entrevistas com Morrissey disponível em jornais e sites de fãs ilustra o fascínio que o cantor exerce continuamente sobre o universo pop há três décadas. Não raro, quando o repórter é capaz de manter a compostura (é comum eles se renderem à bajulação do herói que, nos Smiths, cantou a trilha de suas adolescências), a matéria envereda por uma descrição da mítica presença de Morrissey: o olhar misterioso, o senso de humor farpado, a constatação de que, apesar da língua afiadíssima, há um humanismo vulnerável e sincero por trás do ícone.

Mas seja lá qual o ângulo da entrevista, o roteiro é sempre o mesmo: o inglês Steven Patrick Morrissey, de 52 anos, escapa ileso, tão enigmático quanto antes de responder às perguntas. Eis um dos trunfos da persona que o cantor construiu através dos anos, trocando farpas por todos os lados, de cutucões a pop stars e chefes de estado, a declarações controversas, como a clássica “é difícil não sentir que os chineses são uma espécie sub-humana”, feita na ocasião de uma pergunta sobre os direitos de animais (Morrissey é vegetariano desde os 12 anos e defende a causa intensamente).

Mas pouco seria desta imagem não fosse sua ambiguidade sustentada pela arte. São raras as bandas que definiram uma geração da maneira com que os Smiths fizeram. As letras de Morrissey, ricas em poesia, prenhes de sinceridade, integram um cancioneiro que poderia traduzir por si só a complexidade da experiência adolescente.

Há medo, incerteza sexual e social, vulnerabilidade, ambição e solidão destilados em uma receita pop que reverberou com a cultura jovem inglesa dos anos 1980 da mesma forma que os Beatles fizeram nos anos 1960. Mas nem os quatro influentes discos dos Smiths, do homônimo de estreia ao ápice da banda, em The Queen Is Dead, e depois, não seriam suficientes para que Morrissey continuasse um mito indecifrável e influente por tantos anos (chegou a ser votado a figura mais influente da música pop do século 20 pela revista NME).

O lirismo hipnótico, ao mesmo tempo frágil, confessional e imponente das letras; um canto quase feminino vindo de uma figura que não estranharíamos fosse ela a de um segurança de boate, tece há 25 anos uma carreira solo de rara durabilidade, e não só produz discos consistentes desde o fim dos anos 1980, como faz shows à altura, encabeçando festivais como o Glastonbury ao lado do U2 e construindo apresentações no nível de poucos veteranos da atualidade, Iggy Pop entre eles. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.