Natália do Valle:
?A Sílvia é vagabunda de alma…?.

Enveredar pelo humor foi a primeira “saída” imaginada por Natália do Valle quando se deparou com as cenas em que Sílvia, sua personagem em Mulheres Apaixonadas, “partia para cima” do taxista Caetano, vivido por Paulo Coronato. Na sinopse da novela, a atriz leu que Sílvia era uma mulher de classe média-alta, com um casamento estável, que se envolvia com o namorado da empregada. E tratou de criar sua própria história. “Veio um clichê de novela na minha cabeça: ela ali, com um marido indiferente, a filha se casa, ela se sente sozinha, se envolve amorosamente com aquele homem…”, descreve, detalhista. Mas a história imaginada pelo autor Manoel Carlos a surpreendeu completamente. “Quando vi que não tinha o laço amoroso, que era um exercício de sedução, pensei: ?Ih!, como vou fazer isso??”, confessa, aos risos.

Da pequena dúvida inicial não resta sequer sombra. Cada vez mais a atriz tem certeza de ter “acertado no tom”. Um acerto duplo, no seu entender. “Para mim, é um ótimo exercício de leveza. E numa novela com tantos conflitos pesados, é um refresco, o que explica a repercussão deste núcleo”, opina, satisfeita. A avaliação positiva pode ser levada a sério. Extremamente crítica, Natália não costuma ser uma espectadora das mais generosas com seu próprio trabalho. As cobranças incluem detalhes como a emissão de cada palavra, cabelo, maquiagem e pequenas intenções que ela insinua nos estúdios e faz questão de conferir no ar. “Não há nada mais triste que perceber que um detalhe da interpretação passou despercebido na edição”, exagera.

P – Você já se pegou julgando as atitudes da Sílvia?

R – Acho que ela é uma pessoa que está buscando a própria felicidade. A Sílvia não quer o mal de ninguém, não quer atrapalhar a vida da Shirley, não quer que o Caetano se separe da Rosinha. Acho até que o fato de ela ter descoberto que ele era casado foi o que a eximiu de qualquer culpa que pudesse vir a ter com relação à traição. Ela está realizando suas fantasias e revelando uma alma meio vagabunda. A Sílvia é vagabunda de alma, o que não quer dizer que seja uma vagabunda. Tem um caráter irrepreensível, é boa de coração, de temperamento, tem ótima formação, mas tem uma alma meio cachorrinha, meio safadinha… Descobrir isso foi uma grata surpresa, porque eu vi que podia levar as coisas para o humor. E acho que o público tem entendido esta leveza, porque é uma personagem muito querida por todos.

P – Então as pessoas também não estão vendo o assunto pelo lado da traição…

R – Não, ela está sendo muito acolhida e eu credito isso a esta leveza com que procuro fazer o lado safado dela. As pessoas parecem estar sempre pensando num final feliz para ela. Não pensam na reação do marido, ou numa relação dela com o taxista, mas na felicidade dela, excluindo qualquer barreira, qualquer limitação que possa vir de outro personagem ou de outra situação qualquer. Era uma mulher que ficava ali, muito em função da filha, de um casamento falido, ou que talvez nunca tenha existido de verdade, e de repente resolve tomar uma atitude. Isso conquista as pessoas.